A abolição do homem


Extraído do livro “A Abolição do Homem”, publicado pela Editora WMF Martins Fontes. ISBN: 9788578275419.

Não sei se damos a devida atenção à importância dos livros didáticos do ensino básico. É por essa razão que escolhi como ponto de partida destas lições um pequeno livro de inglês destinado a “meninos e meninas das últimas séries”. Não creio que os autores desse livro (são dois) tivessem más intenções, e eu lhes devo, a eles ou ao seu editor, uma palavra de agradecimento por terem me enviado um exemplar de cortesia. Ao mesmo tempo, nada tenho de bom a dizer sobre eles. Temos aqui uma situação bem difícil. Não quero ridicularizar dois modestos professores escolares que estavam dando o melhor de si, mas não posso me calar diante daquilo que julgo ser a verdadeira tendência da obra. Proponho-me, portanto, a ocultar seus nomes. Vou me referir a esses dois senhores como Gaius e Titius, e a seu livro como O livro verde. Mas asseguro que esse livro existe e que o tenho em minhas estantes.

No segundo capítulo, Gaius e Titius citam a conhecida história de Coleridge na cachoeira. Havia, vocês devem se lembrar, dois turistas presentes: um a chamou de “sublime”, e o outro, de “bonita”; e Coleridge mentalmente concordou com a opinião do primeiro e rejeitou com horror a do segundo. Gaius e Titius fazem a seguinte observação: “Quando o homem disse Isto é sublime, ele parecia fazer um comentário sobre a cachoeira… Na verdade… ele não estava falando da cachoeira, mas dos seus próprios sentimentos. O que ele realmente disse foi Eu tenho sentimentos que minha mente associa à palavra ‘sublime’, ou, resumidamente, Eu tenho sentimentos sublimes.” Levanta-se aqui uma série de questões profundas de maneira bastante apressada. Mas os autores ainda não terminaram. Eles acrescentam: “Essa confusão está sempre presente na nossa linguagem. Aparentamos dizer algo muito importante sobre alguma coisa, e na verdade estamos apenas dizendo algo sobre nossos próprios sentimentos.”.

Antes de examinar as questões de fato levantadas por esse pequeno e significativo parágrafo (dirigido, não nos esqueçamos, às “últimas séries”), é preciso eliminar uma simples confusão na qual Gaius e Titius caíram. Mesmo sob o ponto de vista adotado por eles – e sob qualquer ponto de vista imaginável –, o sujeito que diz Isto é sublime não pode querer dizer Eu tenho sentimentos sublimes. Mesmo se admitíssemos que qualidades como a sublimidade fossem simples e unicamente projeções das nossas emoções, ainda assim as emoções que inspirariam as projeções seriam as complementares, e portanto quase opostas, às qualidades projetadas. Os sentimentos que fazem alguém chamar um objeto de sublime não são sentimentos sublimes, mas sentimentos de veneração. Se Isto é sublime tiver de ser reduzido a uma afirmação sobre os sentimentos de quem fala, a transposição apropriada seria Eu tenho sentimentos humildes. Se o ponto de vista defendido por Gaius e Titius fosse coerentemente aplicado, levaria a evidentes absurdos. Eles seriam obrigados a afirmar que Você é desprezível significa Eu tenho sentimentos desprezíveis; a rigor, que Seus sentimentos são desprezíveis significa Meus sentimentos são desprezíveis. Mas não nos detenhamos neste que é o próprio pons asinorum do nosso assunto. Não seria justo com Gaius e Titius dar ênfase ao que sem dúvida foi uma simples desatenção.

O estudante que lê essa passagem no Livro verde aceitará duas proposições: primeiro, que todas as frases que contêm uma atribuição de valor são afirmações sobre o estado emocional de quem as emite, e segundo, que essas afirmações não têm nenhuma importância. É bem verdade que Gaius e Titius não disseram nenhuma dessas coisas com todas as letras. Somente uma atribuição de valor específica (sublime) foi considerada uma descrição das emoções do sujeito falante. A tarefa de ampliar a aplicação a todas as demais atribuições de valor é deixada aos próprios alunos, e nem o mais leve obstáculo é posto em seus caminhos. Talvez os autores desejassem essa generalização, talvez não; pode ser que eles não tenham refletido seriamente sobre essa questão nem por cinco minutos. Na verdade, não me interessa o que desejavam, mas sim o efeito que o livro certamente terá sobre as mentes estudantis. Da mesma forma, eles tampouco disseram que os juízos de valor não têm importância. Suas palavras são: “aparentamos dizer algo muito importante” quando na verdade estamos “apenas dizendo algo sobre nossos próprios sentimentos”. Nenhum estudante será capaz de resistir à sugestão trazida pela palavra apenas. Não estou dizendo, é claro, que o estudante vá deduzir a partir disso uma teoria filosófica geral segundo a qual todos os valores são subjetivos e insignificantes. Toda a força de Gaius e Titius depende do fato de estarem lidando com um menino; um menino que crê estar “fazendo” a sua “tarefa de inglês” e que nem suspeita de que conceitos éticos, teológicos e políticos estão em jogo. Não é uma teoria que está sendo incutida em sua cabeça, mas um pressuposto; um pressuposto que, dez anos mais tarde, quando sua origem estiver esquecida e sua presença for inconsciente, vai condicioná-lo a tomar um determinado partido numa controvérsia que ele jamais soube existir. Os próprios autores, suspeito eu, mal sabem o que estão fazendo com o menino, e tampouco ele tem como sabê-lo.

Extraído do livro A abolição do homem.
Escrito por C. S. Lewis (1898-1963).
Traduzido por Remo Mannarino Filho.
Revisão da tradução Luiz Gonzaga de Carvalho Neto.

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Luiz Gonzaga de Carvalho Neto é professor do Instituto Cultural Lux et Sapientia.

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