A consciência individual e o mito do Cristo revolucionário


Quando todo o mundo pensa a mesma coisa é sinal evidente de que ninguém está pensando.”, Padre Léo Tarcísio Gonçalves Pereira (1961 – 2007).

A mais profunda e essencial característica do tempo em que vivemos é, a meu ver, o que Olavo de Carvalho chamou de uma progressiva absorção das consciências individuais em um todo coletivo abstrato. É completamente impossível compreender o mínimo que seja sobre as atuais movimentações políticas, sociais, econômicas e culturais sem uma real percepção e compreensão deste fenômeno universal. Acompanhar a história da marcha do ateísmo e do materialismo em suas mais diversas expressões através dos séculos, cuja personificação atual se dá na hegemonia cultural da esquerda e nos tentáculos onipresentes das operações estratégicas de engenharia social dos blocos globalistas, é, sem dúvida nenhuma, acompanhar a história da morte do exercício das liberdades individuais. É ler o obituário da consciência de si.

A civilização ocidental, entretanto, foi fundada sobre o cristianismo que, por sua vez, decorre da vida, missão e ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Já neste fato há um ponto crucial: cristianismo refere-se não a um arranjo teórico organizado por tais ou quais intelectuais, nem a qualquer proposta socioeconômica planejada por políticos profissionais ou transformadores sociais, nem a qualquer ideal de igualitarismo a ser alcançado através da concentração de poder nas mãos de uma meia dúzia (nem uma dúzia inteira, no caso) de discípulos militantes – antes, cristianismo refere-se a uma pessoa. Esta pessoa, em absolutamente tudo o que viveu e ensinou enquanto andou sobre esta terra, fez um apelo direto à consciência individual de cada ser humano enquanto tal, em sua mais íntima singularidade e distinção de qualquer massa difusa e indivisa na qual pudesse vir a ser um dia absorvido.

Note que os primeiros exemplos disto se encontram na pregação mesma de Jesus. Esta é muito simples e objetiva: arrependimento dos pecados, conversão e salvação da alma. Arrependimento dos seus pecados, salvação da sua alma – não se trata, pois, da salvação de um povo como um todo (judaísmo) ou da instituição de uma sociedade santa (islamismo) – o alvo de Cristo é cada alma humana. Ademais, Cristo jamais exige que, para ser salvo, o sujeito deva pertencer a determinado grupo ou classe social, ou se identificar com esta ou aquela posição política, ou mesmo tornar-se um discípulo seu. Não – a todo aquele que dá o seu sim ao convite do nazareno (decisão esta, portanto, já individual e livre desde o início), o que se impõe é uma tarefa não de ordem social-coletiva, mas inteiramente pessoal e intransferível, desde o vigiar-se a si mesmo contra “o mundo, o diabo e a carne”, até a repetição diária da escolha por este modo de vida e do exercício de permanência na verdade [1].

A perfeição de Nosso Senhor Jesus Cristo não é relativa a uma cultura ou a um tempo. É absoluta, supratemporal e universalmente válida.”, Olavo de Carvalho.

As curas e os milagres operados por Cristo são também excelentes demonstrações da fundamental primazia da consciência individual sobre os coletivismos. Em primeiro lugar, com frequência perguntava, ao pobre coitado que lhe suplicasse uma cura ou coisa que o valha, o que este desejava. Mas ao ter diante de si um cego como Bartimeu (Mc 10:46-52), por exemplo, e perguntá-lo, talvez para o estarrecimento dos circunstantes, “o que desejas?”, não o faz por algum lapso de estupidez, muito menos de sadismo (afinal, como diria o falecido Pe. Léo, SCJ, o que mais poderia querer o bendito cego que não enxergar? Uma bengala nova?). Não – está, antes, implicando o pobre homem pessoalmente em sua própria cura, fazendo dela não apenas uma mera demonstração de poder de sua parte, mas em um ato decorrente direta e essencialmente da fé deste cego, bem como da sensibilidade e direcionamento de sua consciência para a verdade. Os costumeiros pedidos subsequentes para que não se contasse ao povo a origem milagrosa da cura trazem em si, entre outras razões, a caracterização do milagre não como um contrato social, e sim como algo da ordem de uma relação íntima entre duas pessoas: o agraciado em questão e Deus – ou, em conceitos mais gerais, a realidade mesma e a consciência individual. Invariavelmente, o pedido de sigilo vinha a ser quebrado, o povo alvoroçava-se em torno de tão grandiosos feitos e, quando as intocáveis encarnações dos poderes sociais da época vinham a ter deles conhecimento, indignavam-se em inquietações – não nutridas por um espírito de curiosidade sincera sobre a natureza dos feitos em si e suas mais variadas consequências, mas relacionadas à autoridade com que Jesus os operava.

Ora questionam com que autoridade expulsava demônios (Mt 12:22-28), ora com que autoridade curava aos sábados (Jo 5:16-18, Mt 12:1-14). Interrogam incessantemente um cego de nascença a respeito do homem que o curou: quem é, de onde vem (Jo 9:1-30). Afinal, que Deus preferisse manifestar-se tão gloriosamente pela figura de um qualquer do povo, em detrimento da excelsa casta dos fariseus, isto não podiam conceber sequer como hipótese. A preocupação era mesmo encontrar logo o petulante insurgente que lhes poderia ameaçar a posição social e o status de que gozavam junto ao resto da população. Mas a palavra autoridade vem de autor, e todas as vezes que Jesus realizava alguma obra notável, deixava perplexos os seus adversários que, não podendo concebê-lo como tal, a esmo e inutilmente saíam a suspeitar-lhe a influência dos poderes político (governo romano), cultural (judeus) e religioso (fariseus [2]). Resultado: Cristo tanto havia agido sozinho o tempo todo, ou seja, em autoridade própria, que teve não um, mas todos os três como inimigos [3], tendo os três contribuído diretamente, em diferentes gradações, para sua morte de cruz e realização final dos planos de Deus para a redenção da humanidade, nela consumados. O autor de alguma coisa é sempre uma consciência: “poder”, “grupo social”, “partido”, são substantivos. São coletivos, resultados possíveis da aglomeração de pessoas, estas sim, dotadas cada uma de sua consciência e inteligência, em torno de um ponto em comum – não são entidades conscientes em si mesmas.

Não – a despeito dos esforços dos teólogos da libertação e de outras crias abjetas da sistemática infiltração comunista na Igreja católica, Jesus Cristo não foi um revolucionário, não preconizou nenhum ideal socialista, nem jamais subjugou qualquer alma humana à sua dissolução no interior de uma massa ou grupo social qualquer. Teve apóstolos – todos, com exceção de um, martirizados por causa de Seu nome –, e não militantes enfezados, a fuzilar seus adversários no paredão; sua autoridade vinha do Pai, e não do Estado; pregou a salvaçao da alma, e não da sociedade; disse que a verdade nos libertará (Jo 8:32), e não a igualdade social; morreu pelo seu povo, não o matou de fome. Não – Jesus não era comunista.

Ao contrário, a narrativa da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a Terra é uma exortação à preservação da singularidade de cada alma humana, às descobertas das misérias e potencialidades pessoais, às liberdades individuais e ao cultivo, em uma sociedade, das condições mínimas necessárias para o execício da inteligência e da consciência de si e da realidade, único meio pelo qual podemos participar e experienciar a fé, o amor e o verdadeiro espírito filosófico, que é também amor – à verdade, e portanto a Deus.

Escrito por Daniel Marcondes de Oliveira.

 Notas:

  1. A própria Igreja, por pura imitação do Cristo, sempre orientou a maravilhosa prática do exame de consciência, método filosófico por excelência que não teria como ser mais íntimo e pessoal, de mergulho profundo nas agruras e retidões da própria conduta e consciência moral.  
  2. A distinção entre judeus e fariseus como representantes, respectivamente, das esferas cultural e religiosa da sociedade da época se faz, aqui, em caráter mais ilustrativo. Naquele tempo, a mera consideração de cultura e religião como coisas separadas era completamente inconcebível, diferentemente do que tanto almejam para a sociedade atual as agendas progressistas. 
  3. Além das passagens já citadas em que Cristo destrona a “autoridade” dos fariseus, podemos vê-lo fazendo o mesmo também em relação aos judeus em Mt 12:46-50 (onde desmonta a ideia da salvação pelo sangue judeu, ou seja, que bastaria nascer judeu para já estar salvo, indicando que é fazendo a vontade de Deus que se consegue o paraíso, e não pela linhagem parental), para citar apenas uma, e em relação ao poder político romano em Jo 19:11 (não é Pilatos, mas Deus, o verdadeiro autor – o realizador – de todos os eventos, e o único que pode realmente decidir os caminhos da história). 

Assista ao documentário no qual o historiador Thomas Woods expõe as bases do livro de sua autoria, intitulado: “Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental”, e sele o conceito do segundo parágrafo deste artigo.

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