A crucificação da verdade


“‎A verdade é inconvertível, a malícia pode atacá-la, a ignorância pode zombar dela, mas no fim; lá está ela.”, Winston Churchill (1874 – 1965).

O agente do Bureau Federal of Investigation (FBI) Joe Navarro – autor do livro “Hunting Terrorists: a look at the psychopathology of terror” (Charles O. Thomas Editor, NY, 2004), especialista no estudo da mentira – declarou em recente entrevista [•] concedida à revista Veja que o brasileiro mente muito e mente mal. E mais: no ato de mentir, se denuncia fácil: “As pessoas no Brasil abusam dos gestos e expressões faciais para expressar seus sentimentos” – um sintoma de que nós, brasileiros, como os italianos, de resto, mentimos espetacularmente – concluo eu.

Navarro não é qualquer um. Nascido em Cuba (terra da mentira), trabalhou para o FBI durante 25 anos e se fez o mais categorizado contra-espião do mundo, rastreando pistas e ajudando a desmascarar, com vasto conhecimento da matéria, centenas de terroristas, agentes secretos, funcionários, diplomatas e mentirosos de todo escalão. (No momento, Joe Navarro também se dedica à rendosa tarefa de treinar jogadores profissionais de pôquer, de ordinário, especialistas em camuflar os próprios sentimentos).

A partir da longa experiência, o agente naturalizado americano, hoje instrutor do FBI, faz revelações pertinentes. Diz Navarro: “Quem mente mais mente melhor”, visto que a construção da mentira é, para ele, “engendrada na região da mente ligada à razão – e não às emoções”. Ao compreender como funciona o cérebro, o observador atento estará mais capacitado “para decifrar os gestos comportamentais”. Assim, diz ele, poderemos decodificar melhor uma inverdade porque, no ato de mentir, entre outras reações, o mentiroso “morde os lábios, mexe nos cabelos, esfrega as mãos ou entrelaça os dedos”.

Nos seus estudos sobre a capacidade humana de mentir, Navarro chega à conclusão de que os políticos e advogados são, de longe, os expoentes universais da arte de sonegar a verdade. Para nós, brasileiros, a revelação do agente americano não traz nenhuma novidade: sabemos todos, na carne, que os “nossos” políticos mentem até quando dizem a verdade (em geral, usada como suporte para coonestar uma meia-verdade, esconder alguma fraude ou cimentar uma mentira ainda maior).

Hunting Terrorists: A Look at the Psychopathology of Terror”, obra escrita por: Joe Navarro. Publicada pela editora Charles C. Thomas Publisher, em julho de 2013 (segunda edição), sob ISBN 978-0398088989.

Por exemplo: quando o ministro da Defesa Nelson Jobim (Laden), diante do cancelamento e atraso de mais de 650 vôos afirma incisivo, no Natal, que “não há caos aéreo nenhum” e que os passageiros “podem viajar tranquilos, tomando chimarrão”; quando o ministro da Saúde José Gomes Temporão, defensor intransigente do aborto, sustenta com cara de pau que a prática (assassina) não é contra a vida; e quando o ministro da Educação Fernando Haddad, marxista low profile, manda distribuir livros didáticos em que ditadores sanguinários do porte de Mao Tse-tung e Fidel Castro aparecem como exemplos admiráveis de conduta humana; ou quando Inácio da Silva (apud dom Luiz, o bispo de Barra) garante, dedo em riste, que não há motivo para elevação da carga tributária ao tempo em que a equipe econômica planeja aumento de impostos via operações financeiras e incidência de taxação sobre o uso do cartão de crédito – simplesmente estão todos crucificando a verdade, ou mentindo adoidado, de acordo com as observações do agente Navarro.

Sim, os nossos políticos são mentirosos tradicionais, vigorosos e diligentes – mas a sociedade, que lhes dá teúda e manteúda, não fica atrás. No Brasil, por exemplo, o professor universitário finge que ensina e o aluno, por sua vez, finge que aprende. O clérigo, nas suas homilias, fala em nome de Deus, mas reza a cartilha ateia de Karl Marx. O policial pago para dar segurança e manter a lei, é, muitas vezes, o primeiro a transgredi-la. Já o marido que jura fidelidade à esposa, cobiça ou possui a mulher do próximo. No mesmo compasso, o sujeito que estende a mão para você e diz hipocritamente “muito prazer”, no íntimo quer vê-lo morto e sepultado. E o artista que chora e protesta contra a fome e a pobreza (nordestina, em geral), não dá esmola, come a melhor comida e bebe a melhor bebida, tem chofer, mansão e passa temporadas em Nova York, Roma ou Paris de França.

A pior forma de mentira, no entanto, é a mentira utópica, produto das mentes fantasiosas que prometem aos deserdados da vida uma sociedade perfeitamente justa, igualitária e feliz, enquanto abiscoitam no presente, aqui e agora, salários supimpas, benesses de toda ordem e honrarias as mais diversas. Nikolai Bardiaev, o escritor russo que se insurgiu contra as mentiras industrializadas por Lenin, escreveu com dose de elevado bom senso que a humanidade, cedo ou tarde, haveria de encontrar “meios de evitar as utopias e de voltar a uma sociedade não-utópica, menos ‘perfeita’ e mais livre”. Corretíssimo. São palavras sábias de um homem que viveu durante muito tempo no olho do furacão socialista!

(E convém não esquecer que outro utópico, Adolf Hitler, com suas promessas de grandeza e felicidade, na linha do socialismo nacionalista, levou o povo alemão à ruína. Ele mesmo, em privado, gostava de afirmar que as massas são mais facilmente seduzidas por uma mentira grande do que por uma mentira pequena – no que estava coberto de razão).

No Brasil atual, conforme as evidências, a arte maior do político consiste em fazer o povo acreditar na mentira que prega, nem sempre inconsciente de que, com ela, está crucificando a verdade.

Escrito por Ipojuca Pontes.
Publicado originalmente pelo website Mídia Sem Máscara, em 01 de janeiro de 2008.

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Ipojuca Pontes nasceu em 1942 no Estado da Paraíba, em Campina Grande. É autor,  jornalista, cineasta e escritor. Ao longo de sua carreira conquistou mais de trinta prêmios nacionais e internacionais. Foi secretário Nacional da Cultura em 1990, no governo Fernando Collor de Mello, também foi Adido Cultural e Diretor do Centro de Estudos Brasileiros em Buenos Aires entre 1991 e 1992.

Entre outras obras o paraibano escreveu: “Politicamente Corretíssimos” (Topbooks, 2003) e, “A Era Lula: crónica de um desastre anunciado” (A Girafa, 2006).

Nota (Inclusa pela editoria da Culturateca):

  • Este artigo foi publicado a mais de uma década pelo extinto website Mídia Sem Máscara, no entanto, é notável: a validade do respectivo artigo tornou-se maior, pois a abundância e a clareza dos fatos ocorridos nos últimos anos possibilitam reflexões mais precisas.

Em complemento assista ao vídeo intitulado: “O que mais causa arrependimento é uma vida de mentiras”, e ouça algumas verdades proferidas pelo filósofo Olavo de Carvalho:

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