A fé inabalável que só um ateu é capaz de ter


Macaco Datilógrafo

Se existe alguém cuja fé ultrapassa todos os limites da normalidade, esse alguém é o ateu. Isso porque o ateu é capaz de acreditar em tudo, do surgimento espontâneo de eventos dos mais bizarros e incoerentes aos mais pueris e desprovidos de lógica, mas desde que, obviamente, em tais eventos não exista a figura de um ser criador-intervencionista-divino. Isso, para ele, não pode. Do resto, tudo pode. E nada é absurdo.

Um bom exemplo dessa fé cega e irredutível ateísta se refere à criação do Universo, de possíveis multiversos, bem como a vida contida nele(s). Para o ateísmo, há apenas uma única explicação possível para tais eventos: a casualidade. Isso porque, uma vez que se dispensa a figura de um criador, toda e qualquer hipótese que não seja o acaso contraria veemente o princípio da “fé” ateísta. Ou seja, o surgimento do Universo, dos multiversos e das possíveis vidas contidas neles, segundo essa “doutrina”, são, obrigatoriamente, frutos do acaso, da coincidência e da casualidade ilógica. Não há outra explicação. E ponto final.

Ocorre que, essa crença única no acaso, abraçada pelo ateísmo para explicar o surgimento de eventos de complexidade quase infinita, para ser válida, precisa, obviamente, “explicar” também fenômenos casuais infinitamente mais irrelevantes, como o do Teorema do Macaco Infinito. Explico.

Imagine que um macaco esteja diante de uma máquina de escrever. Depois de ensiná-lo a bater nas teclas e a trocar a folha de papel quando preenchida, esse macaco é deixado numa sala por algumas horas, ou alguns dias, talvez, batendo, incansavelmente, nas teclas da velha máquina de escrever. Passado algum tempo, chega a hora de ver o que o macaco escreveu. Quão surpreso você ficaria se, ao tomar o calhamaço nas mãos, constatasse que o macaco escreveu, na sequência exata, com a pontuação exata, usando exatamente as mesmas palavras, como se fosse uma cópia digital, a obra completa de William Shakespeare? E se, além disso, você constatasse, também, que o iletrado macaco escreveu, com a mesma perfeição, toda a obra de Aristóteles, Platão, Dante, Cervantes juntos, e a de outros milhares de pensadores e escritores consagrados, da Idade Média aos dias de hoje (supondo que ainda exista algum)?

Comparando-se o evento do macaco digitador com o surgimento do Universo, de multiversos e das possíveis formas de vida contidas nele, e levando-se em conta que ambos foram fruto do acaso, ainda assim, a probabilidade de o macaco digitar acidentalmente todo o conhecimento acumulado pelo homem ao longo da História fica na casa das centenas de milhares de vezes maior de acontecer do que o Universo, os multiversos e a vida terem surgidos por iguais condições de casualidade.

Segundo o ponto de vista do ateu convicto, portanto, o evento do macaco é um fenômeno banal, corriqueiro, tolo e capaz de se repetir infinitas vezes, de minuto em minuto, de segundo a segundo. Afinal, que complexidade haveria nesse evento quando comparado ao surgimento do Universo, de multiversos e da vida? O fenômeno do macaco digitador não passaria de algo extremamente trivial, incapaz de intrigar qualquer ser minimamente propenso ao ateísmo.

Eu não tenho fé suficiente para acreditar que um macaco seja capaz de redigir toda a obra de Shakespeare, Dante, Cervantes, Aristóteles, Platão e Cia. Acidentalmente. Minha fé é muito limitada para contemplar tais devaneios.

Para o ateu convicto, não! Ele acredita piamente em qualquer silogismo de botequim que porventura escute por aí. E nutre uma fé tão cega em qualquer coisa que não inclua a figura de um criador divino que, não acreditar num criador divino se torna um grande paradoxo à sua própria doutrina de aceitação de tudo e de qualquer teoria metafísica de quinta categoria.

Se você disser a um ateu que deixou cair um no chão um pacote de sopa de letrinhas gigante e, incrivelmente, todos os Cantos, versos, vírgulas, capítulos e até os números das páginas de Os Lusíadas, de Camões, se formaram no chão da cozinha como fruto do acaso, ele tem obrigação de acreditar! Do contrário, não passará de um pseudoateu. O acaso, para ele, rege o mundo, rege o macaco e a sopa de letrinhas no chão. Para o ateísmo, qualquer resquício de lógica e inteligência intervencionista é algo burro e ilógico. O próprio mecanismo do Universo mostra que é preciso uma fé quase infinita para conceber e interpretar  um mundo sob a óptica ateísta. Quanto a mim, me perdoem, não estou nem perto de ter tanta fé assim. Não passo de um pobre cético.

Escrito por Fabio Rabello.

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Assista David Freeman Organ Trio, em The Preacher (composição de Horace Silver)

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