A história como espetáculo


Excerto da obra: “O Futuro do Pensamento Brasileiro”, escrita por Olavo de Carvalho. Publicada pela editora É Realizações, sob ISBN número: 978-85-88062-40-5.

É muito estranho que em geral a necessidade de levar em conta a reciprocidade tenha sido tão menosprezada pelos estudos históricos e pela visão geral que nossa cultura tem do passado humano. A extensão desse menosprezo pode ser avaliada pela reação de estranheza com que o historiador contemporâneo responderia se lhe perguntássemos o que ele imagina que Aristóteles ou Lao-Tsé ou Napoleão Bonaparte ou Luís XIV pensariam do que ele escreve a respeito deles.

No entanto, bem examinadas as coisas, essa reação é que é estranha. Não é espantoso que os únicos objetos que acreditamos poder conhecer sem nenhum feedback sejam precisamente seres humanos, ou seja, entes capazes de ter uma opinião? Poderia eu orientar-me no mundo antigo sem outro guiamento senão as opiniões de meus contemporâneos, que o conhecem tão de longe quanto eu? Mesmo que o tivessem conhecido de perto, restaria perguntar: em qual tribunal do mundo o depoimento das testemunhas vale alguma coisa, se desprovido de qualquer confronto com o do réu?

Por mais perfeita, científica ou realista que se pretenda a nossa reconstituição do passado, ela não chega jamais senão a fazer dele um espetáculo, algo que vemos e que não nos vê. Os mortos estão para sempre excluídos do diálogo, são os excluídos por excelência. Eles têm olhos mas não veem, têm ouvidos mas não ouvem. Nós os espiamos pelo buraco da fechadura que denominados “História”. Eles são os objetos inermes de nossa paixão de ver sem sermos vistos, que em última instância é a paixão de julgar sem ser julgado. Esta paixão recebe em nossos tratados e teses universitárias o nome dignificante de objetividade. É talvez a maior mentira desde o começo do mundo.

Extraído da obra: “O Futuro do Pensamento Brasileiro”, escrita por: Olavo de Carvalho.
Excerto da parte II, tópico II e item IV (página 92).
Publicado pela editora É Realizações, sob ISBN: 978-85-88062-40-5.


Para compreender os fundamentos do livro assista ao vídeo do qual o próprio autor, Olavo de Carvalho, sumariza a obra:


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