A música e os lobos temporais


Excerto de um dos relatos da obra: Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro”, escrito por Oliver Sacks (1933 – 2015). Publicado pela Companhia das Letras, sob ISBN 978-85-438-0210-7.

Em 1984 conheci Vera B., uma senhora que acabara de ser internada em um lar para idosos com problemas de saúde (entre eles, artrite grave e falta de ar) que lhe estavam dificultando cada vez mais uma vida independente. Não encontrei nela problemas neurológicos, mas surpreendi-me com o fato de Vera ser animadíssima: tagarela, trocista e dada ao flerte. Na época não supus que isso tivesse alguma importância neurológica; pensei que fosse apenas uma expressão de sua personalidade.

Quando tornei a examiná-la, quatro anos depois, observei em minhas anotações: “Ela mostra impulsos de cantar antigas canções em iídiche e às vezes um atrevimento quase irreprimível. Parece-me, agora, que está perdendo suas inibições”.

Em 1992 esse quadro de desinibição era gritante. Sentada do lado de fora da clínica, esperando por mim, Vera estava cantando “A bicycle built for two” em altos brados, entremeando a letra com palavras inventadas por ela. Em minha sala, ela continuou a cantar: canções em inglês, iídiche, espanhol, italiano e em uma mistura poliglota que eu desconfiava ser composta de todas essas línguas e mais alguma coisa de sua língua nativa, o letão. Por telefone, Connie Tomaino, nossa musicoterapeuta, disse-me que Vera agora tendia a cantar sem parar o dia inteiro. Antes ela não era exageradamente musical, Connie comentou, “mas agora é”.

Ter uma conversa com Vera não era nada fácil. Ela se impacientava com perguntas e costumava interromper as respostas para cantar. Fiz os testes mentais que pude, e ficou óbvio que Vera era basicamente alerta e orientada em seu ambiente. Sabia que era uma idosa num hospital, conhecia Connie (“uma jovem maideleh [mocinha] — esqueci o nome dela”); podia escrever e desenhou um relógio.

Eu não sabia como definir exatamente sua condição. “Uma forma singular de demência”, anotei. “A desinibição cerebral prosseguiu a passo acelerado. Isso pode decorrer de um processo semelhante ao da doença de Alzheimer (porém, sem dúvida com Alzheimer ela estaria mais incapacitada e confusa). Mas é impossível não cogitar em outras entidades, mais raras.” Eu pensava, em especial, na possibilidade de Vera ter alguma lesão nos lobos frontais do cérebro. Uma lesão nas porções laterais dos lobos frontais pode acarretar inércia e indiferença, como ocorria com Harry S. Mas lesões em áreas mediais ou orbitofrontais têm um efeito bem diferente: privam a pessoa de discernimento e de freios, abrindo caminho para uma série incessante de impulsos e associações. As pessoas com esse tipo de síndrome do lobo frontal podem ser piadistas e impulsivas como Vera. Mas nunca ouvi falar de excessiva musicalidade como um dos sintomas dessa síndrome.

Quando Vera morreu, alguns meses depois, em decorrência de um fulminante ataque cardíaco, tentei conseguir uma autópsia, curioso para saber o que o cérebro mostraria. Mas as autópsias haviam se tornado raras, difíceis de obter, e não tive êxito.

Logo outros assuntos ocuparam minha atenção, e não pensei mais no intrigante caso de Vera, com sua estranha e, de certo modo, criativa desinibição, a desenfreada cantoria e os trocadilhos que caracterizaram seus derradeiros anos. Só em 1998, quando li um artigo de Bruce Miller e seus colegas de San Francisco, “Emergence of artistic talent in frontotemporal dementia” [Aparecimento de talento artístico na demência frontotemporal], voltei subitamente a pensar em Vera. Percebi então que provavelmente era esse tipo de demência que a afetava — embora o “aparecimento”, em seu caso, fosse mais musical do que visual. Mas se era possível brotarem talentos artísticos visuais, por que não musicais? De fato, em 2000 Miller et al. publicaram um breve ensaio sobre o surgimento de gostos musicais sem precedentes em alguns de seus pacientes na unidade de demência da Universidade da Califórnia, em San Francisco, além de um artigo mais longo e abrangente, com vívidos relatos de caso, intitulado “Functional correlates of musical and visual ability in frontotemporal dementia” [Correlatos funcionais de habilidade musical e visual na demência frontotemporal].

Miller et al. descreveram vários pacientes que demonstravam acentuação de talentos musicais ou, em alguns casos, o surpreendente surgimento de inclinação e talentos musicais em pessoas antes “não musicais”. Pacientes desse tipo já haviam sido descritos em relatos de caso, mas ninguém antes examinara e acompanhara tantos deles ou estudara suas experiências com tanta profundidade e tão detalhadamente. Eu quis conhecer o dr. Miller e, se possível, alguns de seus pacientes.

Aloysius Alzheimer (1864 – 1951): Psiquiatra alemão. Conhecido principalmente por ter reconhecido a doença neurodegenerativa que hoje denomina-se como “Alzheimer” (seu sobrenome).

Quando nos encontramos, Miller falou primeiro em termos gerais sobre a demência frontotemporal, como seus sintomas e as mudanças cerebrais básicas que os causaram haviam sido descritas em 1892 por Arnold Pick, mesmo antes de Alois Alzheimer ter descrito a mais conhecida síndrome que hoje leva seu nome. Por algum tempo, a “doença de Pick” foi considerada relativamente rara, mas agora está claro, Miller ressaltou, que ela já não é mais incomum. De fato, apenas cerca de dois terços dos pacientes que Miller atende em sua clínica de demência têm doença de Alzheimer; a terça parte restante é portadora de várias outras doenças, das quais a demência frontotemporal talvez seja a mais frequente. [1]

Em contraste com a doença de Alzheimer, que geralmente se manifesta com perda de memória ou cognitiva, a demência frontotemporal com frequência se inicia com alterações de comportamento: desinibições de um tipo ou de outro. Talvez seja por isso que às vezes os familiares e os médicos demoram a detectar o problema. Para confundir, não existe um quadro clínico constante, mas uma variedade de sintomas, dependendo do lado do cérebro mais afetado e de se o dano se localiza principalmente nos lobos frontais ou temporais. Os aparecimentos de talentos artísticos e musicais que Miller e outros observaram ocorrem apenas em pacientes com lesão sobretudo no lobo temporal esquerdo.

Miller providenciou para que eu conhecesse um de seus pacientes, Louis F., cuja história tinha notável semelhança com a de Vera B. Mesmo antes de vê-lo, já ouvi Louis cantando no corredor, do mesmo modo como, anos antes, ouvira Vera cantar do lado de fora do meu consultório. Quando ele entrou na sala com sua esposa, quase não houve chance para cumprimentos e apertos de mão, pois ele desembestou a falar. “Perto da minha casa há sete igrejas”, ele começou. “Vou a três igrejas aos domingos.” Em seguida, presumivelmente impelido pela associação com “igreja”, ele desatou a cantar “We wish y ou a merry Christmas, we wish y ou a merry Christmas…”. Ao ver que eu tomava uma xícara de café, ele me incentivou: “Isso mesmo, beba! Quando ficar velho não vai poder tomar café”, e isso levou a uma melopéia: “Uma xícara de café, café para mim; uma xícara de café, café para mim”. (Não sei se isso era uma canção “real” ou apenas a idéia imediata do café transformada num jingle repetitivo.)

Um prato com biscoitos atraiu sua atenção. Ele pegou um e comeu vorazmente, depois outro, e mais outro. “Se o senhor não tirar o prato”, disse a esposa, “ele vai comer tudo. Dirá que está satisfeito, mas continuará a comer. […] Engordou nove quilos.” Às vezes ele põe coisas não comestíveis na boca, ela acrescentou: “Tínhamos alguns sais de banho em formato de balas, ele pegou um, mas teve de cuspir”.

O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas.”, William Shakespeare (1564 – 1616).

Não era fácil tirar os biscoitos dele. Mudei o prato de lugar, continuei mudando para lugares mais inacessíveis, mas Louis, parecendo não prestar atenção nenhuma a isso, observava todos os meus movimentos e infalivelmente atacava o prato — debaixo da mesa, ao lado dos meus pés, numa gaveta. (Ele tinha muita facilidade para encontrar coisas, sua esposa me disse; avistava moedas ou objetos brilhantes na rua e pegava minúsculas migalhas no chão.) Além de comer e procurar o prato de biscoitos, Louis movia se pela sala sem parar e falava ou cantava o tempo todo. Era quase impossível interromper sua fala para conversar ou conseguir que ele se concentrasse em qualquer tarefa cognitiva — embora em dado momento ele tenha copiado uma complexa figura geométrica e feito um cálculo aritmético de um tipo que teria sido impossível para alguém em estágio avançado da doença de Alzheimer.

Louis trabalha duas vezes por semana em um centro para idosos, liderando pessoas em sessões de canto. Adora fazê-lo; sua mulher acha que talvez isso seja a única coisa que lhe dá algum prazer agora. Ele está apenas na casa dos sessenta, e não ignora o que perdeu. “Não lembro mais aquelas coisas, não trabalho mais, não faço mais nada — é por isso que ajudo os idosos”, ele comentou, mas disse isso sem grande expressão emocional no rosto ou na voz.

Em geral, se o deixarem fazer o que quiser, ele canta músicas alegres com grande entusiasmo. Achei que ele cantou uma variedade de canções desse tipo com discernimento e sensibilidade, mas Miller alertou-me para não exagerar nas suposições. Pois, embora Louis cantasse “My Bonnie lies over the ocean” com grande convicção, não soube dizer, quando perguntei, o que era ocean (oceano). Indre Viskontas, neurocientista cognitivo que trabalha com Miller, demonstrou a indiferença de Louis ao significado das palavras dando-lhe para cantar uma versão sem sentido, mas semelhante na fonêmica e no ritmo:

My bonnie lies over the ocean,
My bonnie lies under the tree,
My bonnie lies table and then some,
Oh, bring tact my bonnie to he.[2]

Louis cantou essa invenção com a mesma animação, a mesma emoção e convicção com que cantara a letra original.

Essa perda de conhecimento, de categorias, é característica da demência “semântica” que acomete pacientes como ele. Quando dei a deixa para ele cantar “Rudolph, the red-nosed reindeer”, ele continuou a canção perfeitamente. Mas não foi capaz de dizer o que era reindeer (rena) nem de reconhecer o desenho desse animal. Portanto, não só a representação verbal ou visual das renas estava prejudicada, mas também a ideia de uma rena. Ele não soube dizer, quando lhe perguntei, o que era “Christmas” (Natal), mas instantaneamente voltou a cantar “We wish y ou a merry Christmas”.

Pareceu-me, pois, que em certo sentido Louis existia apenas no presente, no ato de cantar, falar ou representar. E, talvez por causa desse abismo de não-ser que se escancarava sob ele, Louis falava, cantava e se movia sem parar.

Muitos pacientes como Louis parecem bem inteligentes e intelectualmente intactos, ao contrário dos pacientes com doença de Alzheimer em estágio comparavelmente avançado. De fato, em testes mentais formais, eles podem obter resultados normais ou superiores, pelo menos quando estão nas fases iniciais da doença. Portanto, não é realmente demência que esses pacientes têm, mas amnésia, uma perda de conhecimento de fatos, como o conhecimento do que é uma rena, o Natal ou o oceano. Esse esquecimento de fatos — uma amnésia “semântica” — contrasta notavelmente com a vívida memória dos eventos e experiências de sua própria vida, como observou Andrew Kertesz. É o inverso, de certo modo, do que vemos na maioria dos pacientes com amnésia, que retêm o conhecimento dos fatos mas perdem memórias autobiográficas.

Miller escreveu sobre a “fala vazia” no contexto de pacientes com demência frontotemporal, e a maior parte do que Louis dizia era repetitiva, fragmentada e estereotipada. “Cada frase que ele diz, eu já ouvi”, comentou sua mulher. No entanto, havia ilhas de sentido, momentos de lucidez, como quando ele falou sobre não trabalhar, não lembrar e não fazer nada — o que sem dúvida era real e muito triste, embora o momento durasse apenas um ou dois segundos antes de ser esquecido, varrido pela torrente de sua distração.

A esposa de Louis, que vira essa deterioração abater-se sobre o marido ao longo do ano que se passara, parecia frágil e exausta. “Eu acordo à noite”, ela disse, “e o vejo ali, mas ele não está realmente ali, não está realmente presente. […] Quando ele morrer, sentirei muita saudade, mas, em certo sentido, ele já não está mais aqui — não é mais a pessoa vibrante que conheci. É um luto demorado, do começo ao fim.” Ela também receia que, com esse comportamento impulsivo e inquieto, ele mais cedo ou mais tarde acabe sofrendo um acidente. É difícil saber o que o próprio Louis sente a esta altura.

Louis nunca teve nenhum tipo de educação musical formal nem de treino vocal, embora ocasionalmente cantasse em coros. Mas agora a música e o canto dominam sua vida. Ele canta com tamanha energia e animação que fica evidente o prazer que isso lhe dá. E entre uma música e outra, gosta de inventar pequenos jingles, como o da canção do “café”. Quando a boca está ocupada comendo, seus dedos buscam ritmos, improvisam batuques. Não são apenas os sentimentos, a emoção das canções — que, tenho certeza, ele “percebe”, apesar da demência —, mas também os padrões musicais que o excitam e o encantam, e talvez o impeçam de desmanchar-se. A sra. F. disse que, quando os dois jogam cartas à noite, “ele adora ouvir música, canta ou acompanha o ritmo com os dedos ou o pé enquanto planeja a próxima jogada. […] Ele gosta de música country e de sucessos antigos”.

Talvez Bruce Miller tenha escolhido Louis para eu conhecer porque eu lhe falara sobre Vera, sua desinibição, sua tagarelice e cantoria incessantes. Mas a musicalidade, disse Miller, podia surgir de muitos outros modos e dominar a vida da pessoa durante a evolução da demência frontotemporal. Ele escrevera sobre vários pacientes desse tipo.

Escrito por Oliver Sacks (1933 – 2015).
Traduzido por Laura Teixeira Motta.
Excerto do livro “Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro.
Obra publicada pela Companhia das Letras, sob ISBN 978-85-438-0210-7.

Notas:

  1. Alois Alzheimer (que era muito mais neuropatologista do que Pick) mostrou que vários dos pacientes de Pick submetidos a autópsia apresentavam singulares estruturas microscópicas no cérebro. Estas passaram a ser conhecidas como corpos de Pick, e a doença propriamente dita, como doença de Pick. Às vezes o termo “doença de Pick” é restrito aos pacientes que têm corpos de Pick no cérebro, mas, como salientou Andrew Kertesz, essa diferenciação não tem muito valor: pode haver degeneração frontotemporal essencialmente semelhante mesmo na ausência de corpos de Pick.
  2. A letra real é: “My bonnie lies over the ocean / My bonnie lies over the sea / My bonnie lies over the ocean/ Oh, bring back my bonnie to me”. (N. T.).

Ouça a canção mencionada no início deste artigo: “A bicycle built for two”, na voz de Nat King Cole (1919 – 1965).

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Ana C. M.
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Ana C. M.

Uma das leituras mais loucas que fiz. Vou comprar o livro!