A onipotência divina


Nada que implique em contradição se encontra debaixo da onipotência de Deus.”,
São Tomás de Aquino (1225 – 1274).

“Se Deus fosse bom, Ele desejaria fazer suas criaturas perfeitamente felizes, e se Deus fosse todo-poderoso poderia fazer tudo o que quisesse. Mas as criaturas não são felizes. Portanto, falta a Deus bondade, poder, ou ambas essas coisas”. Este é o problema do sofrimento em sua forma mais simples. A possibilidade de responder a ele depende de mostrar que os termos “bom” e “todo-poderoso”, e talvez também o termo feliz, são ambíguos: pois deve ser admitido desde o início que se os significados populares ligados a essas palavras forem os melhores, ou os únicos possíveis, então o argumento é irrespondível. Neste capítulo farei alguns comentários sobre a ideia de onipotência e, no seguinte, sobre a de bondade.

Onipotência significa “poder para fazer tudo, ou todas as coisas”.

É bastante comum, numa discussão com um incrédulo, ouvir dizer que Deus, se existisse e fosse bom, faria isto ou aquilo; e então, se declaramos que o ato proposto é impossível, receber a resposta: “Mas pensei que Deus fosse capaz de fazer tudo”. Isto faz surgir a questão da impossibilidade.

No uso ordinário da palavra, impossível geralmente subentende uma cláusula suprimida iniciada com as palavras salvo se, ou exceto, ou ainda a não ser que. Assim, é impossível para mim ver a rua de onde estou sentado escrevendo agora; isto é, é impossível ver a rua salvo se eu subir ao andar superior de onde posso olhar por cima do prédio que interfere com a minha visão. Se eu tivesse quebrado a perna diria: “Mas é impossível subir ao andar superior” – querendo indicar, porém, que é impossível a não ser que apareçam alguns amigos que me levem até lá. Vamos avançar agora para um plano diferente de impossibilidade, dizendo: “É, de qualquer forma, impossível ver a rua enquanto eu permanecer onde estou e o prédio intermediário continuar onde está“. Alguém poderia acrescentar: “a não ser que a natureza do espaço, ou da visão, fosse diferente do que é”. Não sei o que os melhores filósofos e cientistas responderiam a isto, mas eu teria de replicar: “Não sei se o espaço e a visão poderiam possivelmente ter sido de uma natureza tal como a que você sugere.

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“Todos os agentes” aqui inclui o próprio Deus. A sua onipotência significa poder para fazer tudo que é intrinsecamente possível, e não para fazer o que é intrinsecamente impossível. É possível atribuir-lhe milagres, mas não tolices. Isto não é um limite ao seu poder. Se disser: “Deus pode dar a uma criatura o livre arbítrio e, ao mesmo tempo, negar lhe o livre-arbítrio” não conseguiu dizer nada sobre Deus: combinações de palavras sem sentido não adquirem repentinamente sentido simplesmente porque acrescentamos a elas como prefixo dois outros termos: “Deus pode”. Permanece verdadeiro que todas as coisas são possíveis com Deus: as impossibilidades intrínsecas não são coisas mas insignificâncias (praticamente não existem). Não é possível nem a Deus nem à mais fraca de suas criaturas executar duas alternativas que se excluem mutuamente; não porque o seu poder encontre um obstáculo, mas porque a tolice continua sendo tolice mesmo quando é falada sobre Deus.

Deve ser porém lembrado que os raciocinadores humanos com frequência cometem erros, seja argumentando a partir de dados falsos ou por falha no argumento em si. Podemos chegar assim a pensar coisas possíveis que na verdade são impossíveis, e vice- versa.

Devemos, portanto, tomar a máxima precaução ao definir aquelas impossibilidades intrínsecas que nem mesmo a Onipotência pode realizar. O que se segue não deve ser considerado como uma afirmativa do que são, mas uma amostra do que poderiam ser.

As inexoráveis “leis da natureza”, que operam em desafio ao sofrimento ou mérito humano, que não são detidas pela oração, parecem, à primeira vista, fornecer um forte argumento contra a bondade e o poder de Deus. Vou apresentar a idéia de que nem mesmo a Onipotência poderia criar uma sociedade de almas livres sem ao mesmo tempo criar uma natureza “inexorável” e relativamente independente.

Não há razão para supor que a autoconsciência, o reconhecimento de uma criatura por si mesma como um “eu”, possa existir exceto em contraste com um “outro”, algo que não é o “eu”. É contra um ambiente, e preferivelmente um ambiente social, que Eu me destaco. Isto faria surgir uma dificuldade quanto à percepção de Deus se fôssemos simples teístas: sendo cristãos, aprendemos da doutrina da Abençoada Trindade que algo análogo à “sociedade” existe no modo ser divino desde os tempos eternos – que Deus é Amor, não apenas no sentido da forma platônica de amor, mas porque, dentro dele, as reciprocidades concretas do amor residem desde antes de todos os mundos e são assim distribuídas às criaturas.

Mais uma vez, a liberdade de uma criatura deve significar liberdade de escolha: e escolha implica na existência de coisas a serem escolhidas. Uma criatura sem ambiente não teria escolhas a fazer: assim sendo, a liberdade, como a autoconsciência (se não forem na verdade a mesma coisa) exige novamente a presença no “eu” de algo além do “eu”.

A condição mínima de autoconsciência e liberdade seria então que a criatura devesse apreender a Deus e, portanto, ela mesma fosse diferente de Deus. É possível que tais criaturas existam, conscientes de Deus e de si mesmas, mas não de seus semelhantes. Caso positivo, sua liberdade é simplesmente aquela de fazer uma única e singela escolha: amar a Deus mais do que ao “eu” ou ao “eu” mais do que a Deus. Mas uma vida assim reduzida aos essenciais não pode ser concebida por nós. No momento em que tentamos introduzir o conhecimento mútuo dos semelhantes encontramos o obstáculo da necessidade da “Natureza”.

As pessoas falam com frequência como se nada fosse mais fácil do que duas mentes singelas se “encontrarem” ou perceberem uma à outra. Mas não vejo possibilidade de fazerem isso exceto num meio comum que forma o seu “mundo exterior” ou ambiente. Mesmo nossa vaga tentativa de imaginar tal encontro entre espíritos desencarnados no geral introduz sub-repticiamente a ideia de, pelo menos, um espaço e um tempo comuns, a fim de dar significado à partícula co de coexistência: e o espaço e tempo, já são um ambiente. Mas, mais do que isto é exigido. Se os seus pensamentos e sentimentos me fossem apresentados diretamente, como os meus próprios, sem qualquer sinal de que fossem exteriores ou de outrem, como poderia distingui-los dos meus? E que pensamentos ou sentimentos poderíamos ter sem objetos em que pensar ou sentir? Poderia eu sequer passar a conceber o “externo,” e o “outro” a não ser que tivesse a experiência de um “mundo externo”? Você pode responder, como cristão, que Deus (e satanás), de fato, afetam meu consciente desta maneira direta sem sinais “exteriores”. Sim: e o resultado é que a maioria das pessoas permanece ignorante da existência de ambos. Podemos, portanto, supor que se as almas humanas afetassem umas às outras direta e imaterialmente, seria um raro triunfo de fé e percepção para qualquer delas crer na existência das demais.

Seria mais difícil para mim conhecer meu próximo sob tais condições do que é atualmente conhecer Deus: pois ao reconhecer o impacto de Deus sobre mim sou agora auxiliado por coisas que me atingem através do mundo exterior, tais como a tradição da Igreja, as Sagradas Escrituras, e a conversa de amigos religiosos. O que necessitamos para a sociedade humana é exatamente aquilo que temos – algo neutro, nem você nem eu, que podemos ambos manipular a fim de fazer sinais um para o outro. Posso falar-lhe porque podemos os dois estabelecer ondas de som no ar comum entre nós. A matéria, que mantém as almas separadas, também as une. Ela permite que cada um de nós tenha uma parte “de fora” assim como outra “de dentro”, de modo que aquilo que representa para você atos de vontade e pensamento são ruídos e olhares para mim; você está capacitado não apenas para ser, mas para aparecer: e portanto tenho o prazer de conhecê-lo.

A sociedade, então, implica num campo comum ou “mundo” em que os seus membros se encontram. Se existir uma sociedade angelical, como os cristãos têm geralmente crido, os anjos devem então possuir tal mundo ou campo; algo que seja para eles como a “matéria” (no sentido moderno e não escolástico) é para nós.

Se a matéria, porém, deve servir como um campo neutro, ela precisa possuir uma natureza fixa. Se um “mundo” ou sistema material tivesse um único habitante, ele poderia conformar-se a todo o momento com os seus desejos – “as árvores para satisfazê-lo juntar-se-iam dando sombra”. Mas se você fosse introduzido num mundo que variasse dessa forma a cada capricho meu, ficaria incapacitado de agir nele e perderia então o exercício de seu livre-arbítrio. Não fica também claro se poderia tomar sua presença conhecida a mim, desde que a matéria com que tentou fazer-me sinais já se acha sob o meu controle e portanto incapaz de ser manipulada por você.

De novo, se a matéria tem uma natureza fixa e obedece a leis constantes, nem todos os estados da mesma serão igualmente agradáveis aos desejos de uma determinada alma, nem serão todos igualmente benéficos para esse agregado particular de matéria que você chama de corpo. Se o fogo dá conforto a esse corpo de uma certa distância, ele irá destruí-lo quando a distância for encurtada. Assim, mesmo num mundo perfeito, vemos a necessidade para esses sinais de perigo que as fibras sensíveis de nossos nervos destinam-se a transmitir. Isto indica um elemento maligno inevitável (na forma de dor) em qualquer mundo possível? Não julgo isso, pois embora possa ser verdade que o menor pecado já é um mal incalculável, o mal da dor depende do grau em que se faz sentir, e dores abaixo de uma certa intensidade não são praticamente temidas nem sentidas. Ninguém se preocupa com o processo: “morno, calor agradável, quente demais, queima” que o avisa para retirar a mão exposta ao fogo; e, se devo confiar em minhas próprias sensações, uma leve dor nas pernas quando nos deitamos depois de andar bastante durante o dia é, de fato, agradável.

Repito, então, que se a natureza fixa da matéria impede que seja sempre, e em todas as suas disposições, igualmente agradável até mesmo para uma única alma, muito menos poderá a matéria do universo ser distribuída a qualquer momento de maneira a ser igualmente conveniente e agradável a cada membro de uma sociedade. Se alguém viajando numa direção está descendo um monte, outro alguém na direção oposta estará subindo o monte. Se até mesmo um pedregulho estiver onde eu quero que esteja, ele não poderá, exceto por coincidência, encontrar-se onde você quer que se encontre. E isto está bem longe de ser um mal: pelo contrário, fornece ocasião para todos aqueles atos de cortesia, respeito e generosidade através dos quais o amor, o bom humor e a modéstia se expressam. Mas ele com certeza deixa aberto o caminho para um grande mal, o da competição e hostilidade.

Se as almas forem livres, é impossível evitar que tratem desse problema mediante a competição em lugar da cortesia. E uma vez que entrem realmente no campo da hostilidade, poderão então explorar a natureza fixa da matéria a fim de se magoarem umas às outras. A natureza permanente da madeira que nos capacita a usá-la como viga também nos permite fazer uso dela para golpear nosso próximo na cabeça. A natureza permanente da matéria significa em geral que, quando os seres humanos brigam, a vitória quase sempre cabe ao que possuir superioridade em armas, habilidades e número, mesmo que sua causa seja injusta.

Podemos, talvez, conceber um mundo em que Deus tenha corrigido os resultados deste abuso do livre-arbítrio pelas suas criaturas a cada momento: de maneira que uma viga de madeira se tornasse macia como grama se usada como arma, e o ar se recusasse a obedecer-me se tentasse utilizá-lo em ondas sonoras que transmitissem mentiras ou insultos. Num mundo assim, porém, os atos errados seriam impossíveis e, portanto, ficaria anulado o livre-arbítrio; se o princípio fosse levado à sua conclusão lógica, os maus pensamentos tornar-se-iam também impossíveis, desde que a massa cerebral que usamos para pensar se recusaria a fazê-lo quando tentássemos estruturá-la. Toda matéria nas proximidades de um homem perverso estaria sujeita a alterações imprevisíveis. A ideia de que Deus pode modificar, e realmente modifica, ocasionalmente, o comportamento da matéria produzindo o que chamamos de milagres, faz parte da fé cristã; mas a própria concepção de um mundo comum e portanto estável exige que tais ocasiões sejam extremamente raras.

Num jogo de xadrez é possível fazer certas concessões arbitrárias ao seu oponente, que se colocam em relação às regras gerais do jogo como os milagres para as leis da natureza. Você pode privar-se de uma torre, ou permitir que o adversário se arrependa de um movimento já feito, anulando-o. Mas se você aceitasse tudo que ele pudesse desejar a qualquer momento – se todos os movimentos dele fossem revogáveis e se todas as suas peças desaparecessem toda vez que a posição delas no tabuleiro o desagradasse – não haveria então na realidade um jogo entre vocês. O mesmo acontece com a vida das almas num mundo: as leis fixas, as consequências desenvolvendo-se através da necessidade causal, e toda a ordem natural, são tanto limites dentro dos quais sua vida comum fica confinada como também a condição única sob a qual essa vida pode existir. Tente excluir a possibilidade do sofrimento que a ordem da natureza e a existência do livre-arbítrio envolvem, e descobrirá que excluiu a própria vida.

Como disse antes, este relato das necessidades intrínsecas de um mundo é apresentado apenas como um espécime do que poderiam ser. O que são realmente, só a Onisciência tem as informações e a sabedoria para discernir: mas não é provável que sejam menos complicadas do que as por mim sugeridas. Não é preciso dizer aqui que “complicadas” refere-se apenas à sua compreensão por parte do homem; não devemos visualizar Deus argumentando, como fazemos, de um fim (coexistência de espíritos livres) para as condições nele envolvidas; mas sim num único e auto consistente ato criativo que para nós parece, à primeira vista, como a criação de muitas coisas independentes e, então, como à criação de coisas mutuamente necessárias. Até mesmo nós podemos passar um pouco além da concepção das necessidades mútuas como as descrevi – podemos reduzir a matéria àquilo que separa as almas e àquilo que as une sob o conceito único de pluralidade, do qual “separação” e “união” são apenas dois aspectos.

Com cada avanço em nosso conceito, o ato criativo, e a impossibilidade de manipular a criação como se este ou aquele elemento da mesma pudesse ser removido, se tornará aparente. Este talvez não seja o melhor de todos os universos possíveis, mas o único possível.

Se eu fosse te recomendar uma religião para lhe fazer sentir confortável certamente não lhe recomendaria o Cristianismo.”, C. S. Lewis (1898 – 1963).

Mundos possíveis só podem significar “mundos que Deus poderia ter feito mas não fez”. A ideia do que Deus “poderia” ter feito envolve um conceito excessivamente antropomórfico da liberdade de Deus. O que quer que seja o significado da liberdade humana, a liberdade divina não pode significar indeterminância entre alternativas e a escolha de uma destas. A bondade perfeita não pode jamais estar em dúvida quanto ao fim a ser alcançado, e a perfeita sabedoria não pode vacilar quanto aos meios mais adequados para chegar a esse fim. A liberdade de Deus consiste no fato de que nenhuma outra causa além dele mesmo produz os seus atos e nenhum obstáculo externo os impede – que a sua própria bondade é a raiz de que todos eles brotam e sua própria onipotência o ar em que todos florescem.

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Devo advertir o leitor de que não tentarei provar que criar foi melhor do que não criar: Não conheço escala humana alguma em que questão assim tão portentosa possa ser pesada. Certas comparações entre um e outro estado de ser podem ser feitas, mas a tentativa de comparar “ser” e “não ser” termina em simples palavras. “Seria melhor para mim que eu não tivesse nascido” – de que forma “para mim?” Como poderia eu, se não tivesse nascido, tirar proveito de minha não-existência? Nosso propósito é bem menos formidável: queremos apenas descobrir como, observando um mundo sofredor e sendo assegurados de que, em bases muito diferentes, Deus é bom, iremos conceber essa bondade e esse sofrimento sem que haja entre eles contradição.

Extraído da obra: “O Problema do Sofrimento”.
Autor: C. S. Lewis (1898 – 1963).
Publicado pela Editora Vida, sob ISBN: 978-85-7367-851-2.

Você acredita em barbeiros? Em adendo ao excerto, assista ao vídeo abaixo:

Demais capítulos da obra que gerou esta postagem:

1. Introdução
2. A Onipotência Divina
3. A Bondade Divina
4. A Maldade Humana
5. A Queda do Homem
6. O Sofrimento Humano
7. O Sofrimento Humano (continuação)
8. O Inferno
9. O Sofrimento dos Animais
10. O Céu

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