A religião do século XXI


Os militantes ambientais saúdam um tempo em que: a mortalidade infantil era de 80%? Quatro crianças em cinco morriam antes dos cinco anos? Uma mulher em seis morria no parto? A expectativa média de vida era de 30 anos? Ou quando pragas varriam do planeta milhões de uma só vez?

Um grande amigo meu, que de esquerdista não tem nada, postou recentemente no Facebook o vídeo abaixo. No YouTube, o filmezinho já conta com mais de dezoito milhões de visualizações. Trata-se, evidentemente, de uma caricatura tosca da história humana sobre a Terra, mas que muito bem traduz o espírito do tempo em que vivemos.

Hoje em dia, talvez a mais poderosa religião do mundo ocidental seja o ambientalismo. De acordo com seus dogmas, existiria, a exemplo da tradição judaico-cristã, um Jardim do Éden inicial, um estado de graça e unidade entre o homem e a natureza. Segundo esta crença, somos todos pecadores pelo consumo exagerado e, principalmente, pelo uso de energia proveniente de hidrocarbonetos, os novos frutos proibidos que nos condenarão ao fogo do inferno, a menos que procuremos a salvação, que virá na forma da famigerada sustentabilidade. Alguns paranoicos já instituíram até mesmo um tal “Dia Sem Consumo”, que acontece todo ano, no último sábado do mês de novembro. Outros, mais radicais, propõem o fim dos cartões de crédito como forma de catarse coletiva.

Não resta dúvida que, depois da derrocada do socialismo, os inimigos do capitalismo estão vencendo a batalha das ideias através do ambientalismo. A ‘Agenda Global 21’, editada durante a reunião ‘Rio 92’, por exemplo, estabeleceu, em seu capítulo 4, que:

“As principais causas da deterioração ininterrupta do meio ambiente mundial são os padrões insustentáveis de consumo e produção, especialmente nos países industrializados. Motivo de séria preocupação, tais padrões de consumo e produção provocam o agravamento da pobreza e dos desequilíbrios.”

Para sermos exatos e justos, existem dois tipos de ecologia: uma racional, outra irracional; uma que amplia a nossa perspectiva, enquanto a outra a restringe; uma democrática, a outra totalitária. A primeira nos alerta sobre os danos ambientais causados pela civilização industrial, como a poluição de rios e mares, a destruição de florestas, etc.; a segunda deduz daí uma culpa indelével da espécie humana. Para esta última, a natureza é nada menos que uma deusa, sempre pronta a nos castigar por nossos constantes pecados.

Num artigo notável, Pascal Bruckner nos informa que, de acordo com esta nova religião, o nosso modo de produção está destruindo os recursos do planeta, e a primeira coisa que temos de limitar são nossos desejos. Nossas casas, onde nos divertimos com as pessoas próximas a nós, seriam o epicentro desse “crime”. É ali, no calor da família, que a conspiração contra o planeta é fomentada, numa mistura de negligência, ganância e dependência. No fundo, somos todos assassinos potenciais, que subsistem destruindo o planeta.

Para Bruckner, a dita “sociedade de consumo” é o fenômeno que condensa toda a ignomínia da raça humana. O consumidor combina três pecados essenciais: ele se comporta como um predador, contribuindo para o saque dos recursos do planeta. Ele é uma monstruosidade antropológica impulsionada por instintos rudimentares de fome e satisfação. Pior ainda, ele é uma espécie de Sísifo, condenado à eterna insatisfação. Escravo de necessidades artificiais que ele criou para seu próprio bem-estar, enxerga apenas o seu interesse material, em detrimento do interesse comum – alguma semelhança com as teses coletivistas/marxistas não é mera coincidência.

Para expiar nossos pecados, cada ser humano teria de sufocar o consumidor frenético que existe dentro de nós, pois ele é o desgraçado que, através de sua ganância, está causando o derretimento das calotas polares, o aumento do nível do mar, os tremores na crosta da Terra, a chuva ácida, e quem sabe o que mais.

O que teria sido esse paraíso maravilhoso do passado mítico, cantado em prosa e verso pelos ambientalistas? Um tempo em que a mortalidade infantil era de 80%, quando quatro crianças em cinco morriam antes dos cinco anos? Quando uma mulher em seis morria no parto? Quando a esperança média de vida era de 30 anos? Ou quando pragas varriam o planeta e ondas de fome dizimavam milhões de uma só vez?

Como nos lembra Alex Epstein, o ambiente natural não é, nem nunca foi, um local seguro e saudável; não é outro o motivo por que os seres humanos historicamente tinham uma expectativa de vida tão baixa. Ao contrário do que dizem por aí os naturalistas, a “Mãe Natureza” nos ameaça permanentemente com microrganismos ansiosos para nos matar, além de forças naturais que podem facilmente nos esmagar. Se não modificássemos o meio ambiente em nossa volta, se não procurássemos extrair dele os recursos necessários à nossa defesa e bem estar, provavelmente ainda estaríamos vivendo a Idade da Pedra.

Foi somente graças à nossa intervenção não natural e, principalmente, ao uso de energia barata, abundante e confiável (leia-se: hidrocarbonetos) que hoje vivemos em um ambiente onde a água que bebemos e os alimentos que comemos não vão nos fazer mal, e onde podemos lidar com um clima frequentemente hostil sem grandes conseqüências à nossa segurança. Energia e recursos são essenciais para construir casas resistentes, purificar a água, produzir grandes quantidades de alimentos frescos, gerar calor e refrigeração, construir hospitais e fabricar produtos farmacêuticos, entre muitas outras coisas.

Finalmente, é preciso enfatizar que, malgrado toda propaganda em contrário, é justamente nos países mais ricos e desenvolvidos da Europa e da América do Norte que – apesar da utilização abundante de petróleo e derivados, além de um “consumismo” considerado exacerbado pelos arautos do catastrofismo ecológico – o meio ambiente é hoje menos poluído, graças principalmente ao desenvolvimento tecnológico promovido pela mente humana.

Escrito por João Luiz Mauad.
Publicado originalmente no website do Instituto Liberal, em 15 de abril de 2015.

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Abaixo, o vídeo comentado no início desta postagem:

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