Amar o próximo como a si mesmo?


Excerto do livro “Cristianismo puro e simples”, publicado pela Editora WMF Martins Fontes. ISBN: 9788578271725.

O que significa amar o próximo como a si mesmo. Tenho de amá-lo como amo a mim mesmo. Bem, como é exatamente esse amor a mim mesmo?

Agora que começo a pensar no assunto, vejo que não nutro exatamente um grande afeto nem tenho especial predileção pela minha pessoa, e nem sempre gosto da minha própria companhia. Aparentemente, portanto, “amar o próximo” não significa “ter grande simpatia por ele” nem “considerá-lo um grande sujeito”. Isso já deveria ser evidente, pois não conseguimos gostar de alguém por esforço. Será que eu me considero um bom camarada? Infelizmente, às vezes sim (e esses são, sem dúvida, meus piores momentos), mas não é por esse motivo que amo a mim mesmo. Na verdade, o que acontece é o inverso: não é por considerar-me agradável que amo a mim mesmo; é meu amor próprio que faz com que eu me considere agradável. Analogamente, portanto, amar meus inimigos não é o mesmo que considerá-los boas pessoas. O que não deixa de ser um grande alívio, pois muita gente imagina que perdoar os inimigos significa concluir que eles, no fim das contas, não são tão maus assim, ao passo que é evidente que são. Vamos dar um passo adiante. Nos meus momentos de maior lucidez, vejo que não somente não sou lá um grande sujeito como posso ser uma péssima pessoa. Recuo com horror e repugnância diante de certas coisas que fiz. Logo, isso parece me dar o direito de me sentir horrorizado e repugnado diante dos atos de meus inimigos. Aliás, pensando no assunto, lembro que os primeiros mestres cristãos já diziam que se devem odiar as ações de um homem mau, mas não odiar o próprio homem; ou, como eles diriam, odiar o pecado, mas não o pecador.

Por muito tempo julguei essa distinção tola e insignificante: como se pode odiar o que um homem faz e não odiá-lo por isso? Somente anos depois me ocorreu que fora exatamente essa a conduta que eu sempre tivera com uma pessoa em particular: eu mesmo. Por mais que eu abominasse minha covardia, vaidade ou cobiça, continuei amando a mim mesmo. Nunca tive a menor dificuldade para isso. Na verdade, a razão mesma pela qual detestava tais coisas é que amava o homem que as cometia. Por amar a mim mesmo, sentia um profundo pesar por agir assim. Consequentemente, o cristianismo não quer ver reduzida a um átomo a aversão que sentimos pela crueldade e pela deslealdade. Devemos odiá-las. Não devemos desdizer nada do que dissemos a esse respeito. Porém, devemos odiá-las da mesma forma que odiámos nossos próprios atos: sentindo pena do homem que as praticou e tendo, na medida do possível, a esperança de que, de alguma forma, em algum tempo e lugar, ele possa ser curado e se tornar novamente um ser humano.

A verdadeira prova é a seguinte: suponha que você leia no jornal uma reportagem sobre atrocidades ignominiosas e que, no final, se revele que a reportagem era falsa ou que as atrocidades não eram tão terríveis quanto na primeira versão. Qual será sua reação? Será “graças a Deus, nem eles são capazes de tanta maldade”? Ou você ficará decepcionado, disposto até a continuar acreditando na primeira reportagem pelo simples prazer de continuar julgando seus inimigos tão maus quanto possível? Se for a segunda reação, infelizmente você dará o primeiro passo de um processo que, no final, o transformará num demônio. E fácil notar que a pessoa que agiu assim está começando a desejar que a escuridão seja um pouco mais escura. Se dermos vazão a esse tipo de sentimento, logo estaremos desejando que a penumbra também seja escura, e, depois, que a própria claridade seja negra. No final, insistiremos em ver tudo — inclusive Deus, nossos amigos e nós mesmos — como maus, e não seremos capazes de parar. Estaremos presos para sempre num universo de puro ódio.

Vamos dar um passo além. Será que amar o inimigo quer dizer que não devemos puni-lo? Não, de maneira alguma. O amor que sinto por mim não me exime do dever de me submeter à punição — nem mesmo à morte. Se você cometesse um assassinato, a coisa correta a fazer, segundo o cristianismo, seria entregar-se à polícia para ser enforcado. Na minha opinião, portanto, é perfeitamente correto que um juiz cristão sentencie um homem à morte ou que um soldado cristão mate o inimigo em combate.

Sempre pensei assim, desde que me tornei cristão e desde muito antes da guerra, e meu pensamento não mudou em nada agora que estamos em paz. Não vai adiantar citar “Não matarás”. Existem no grego duas palavras: uma geral para matar, e outra específica para assassinar. Quando Cristo pronunciou esse mandamento, ele usou a palavra equivalente a assassinar nos três relatos: em Mateus, Marcos e Lucas.

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Proferido por C. S. Lewis (1898-1963) em programas de rádio difundidos pela Rádio BBC.

As veiculações de C. S. Lewis foram publicadas em três livros: Broadcasts Talks (1942), Christian Behaviour (1943) e Beyond Personality (1944), todos traduzidos e reunidos em único livro pela Editora Martins Fontes, sob o título: “Cristianismo Puro e Simples“.

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Assista ao trecho do Programa True Outspeak exibido em 22 de novembro de 2010 por Olavo de Carvalho. E, faça um amálgama capaz de selar o fato exposto nesta postagem.

Se preferir, clique aqui para ler a transcrição do vídeo acima, e obter mais informações.

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