As biografias de Jesus foram preservadas?


Excerto do livro: “Em defesa de Cristo”.
Publicado pela Editora Vida. ISBN: 978-85-7367-561-0.
Nota: os parágrafos não estão reescritos de modo integral.

As provas das testemunhas oculares

Alguns estudiosos dizem que os evangelhos foram escritos muito depois dos acontecimentos por eles registrados. Com isso, as lendas que se desenvolveram durante esse período acabaram por contaminar sua redação, alçando Jesus de simples professor sábio ao mitológico Filho de Deus. O senhor acha razoável essa hipótese ou será que existem indícios suficientes de que a composição dos evangelhos é anterior a essa data, ou seja, antes que a lenda pudesse corromper totalmente o que ficou registrado?

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As datas estabelecidas no meio acadêmico, mesmo nos círculos mais liberais, situam Marcos nos anos na década de 70, Mateus e Lucas na década de 80, e João na década de 90. Observe que essas datas ainda estão dentro do período de vida de várias pessoas que foram testemunhas oculares da vida de Jesus, inclusive daquelas que lhe foram hostis, e que por isso poderiam atuar como parâmetro de correção caso houvesse em circulação algum ensinamento falso sobre Jesus. Consequentemente, essas datas mais recentes para os evangelhos não são assim tão recentes. Na verdade, é possível fazer uma comparação muito instrutiva. As duas biografias mais antigas de Alexandre, o Grande, foram escritas por Ariano e Plutarco depois de mais de 400 anos da morte de Alexandre, ocorrida em 323 a. C, e mesmo assim os historiadores as consideram muito confiáveis. É claro que surgiu um material lendário com o decorrer do tempo, mas isso só aconteceu nos séculos posteriores aos dois autores. Por outras palavras, nos primeiros 500 anos, a história de Alexandre ficou quase intacta. O material lendário começou a aparecer nos 500 anos seguintes. Portanto, comparativamente, é insignificante saber se os evangelhos foram escritos 60 ou 30 anos depois da morte de Jesus. Na verdade, a questão praticamente inexiste.

William Lane Craig comumente faz analogias com o nazismo, o qual só agora, com o falecimento das pessoas que vivenciaram o fato, começa a ser deturpado. Nota.

Entendi o que Blomberg queria dizer. Ao mesmo tempo, tinha minhas reservas. Para mim, parecia intuitivamente óbvio que, quanto menor o lapso de tempo entre um acontecimento e o momento de seu registro, tanto menor a possibilidade de esse registro ser corrompido por lendas ou lembranças incorretas.

Voltemos à data de registro dos evangelho.  O senhor acredita que eles foram escritos possivelmente antes da data mencionada?

Sim. Podemos confirmar isso pelo livro de Atos, escrito por Lucas. Atos termina, aparentemente, sem uma conclusão. Paulo é a personagem principal do livro, e se encontra preso em Roma. É assim, abruptamente, que o livro acaba. O que acontece com Paulo? Atos não nos diz, provavelmente porque o livro foi escrito antes da morte dele.

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Isso significa que o livro de Atos não pode ser posterior a 62 d. C. Assim, podemos recuar a partir desse ponto. Uma vez que Atos é o segundo tomo de um volume duplo, sabemos que o primeiro tomo — o evangelho de Lucas — deve ter sido escrito antes dessa data. E já que Lucas inclui parte do evangelho de Marcos, isto significa que Marcos é ainda mais antigo. Se trabalharmos com a margem aproximada de um ano para cada um, chegaremos à conclusão de que Marcos foi escrito por volta de 60 d. C, talvez até mesmo em fins da década de 50. Se Jesus foi morto em 30 ou 33 d. C, temos aí um intervalo de, no máximo, 30 anos aproximadamente.

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A prova documental

Para ser sincero com o senhor — eu disse a Metzger —, quando soube que não havia nenhum exemplar original do Novo Testamento, fiquei muito cético. Se tudo que temos são cópias de cópias, pensei, como ter certeza de que o Novo Testamento que temos hoje é, no mínimo, semelhante aos escritos originais? Como o senhor responderia a isso?

Não é só a Bíblia que está nessa situação, outros documentos antigos que chegaram até nós também estão — replicou ele. — A vantagem do Novo Testamento, principalmente quando comparado com outros escritos antigos, é que muitas cópias sobreviveram.

Qual a importância disso?

Bem, quanto maior o número de cópias em harmonia umas com as outras, sobretudo se provêm de áreas geográficas diferentes, tanto maior a possibilidade de confrontá-las, o que nos permite visualizar como seriam os documentos originais. A única forma possível de harmonizá-los seria pela ascendência de todos eles à mesma árvore genealógica que representaria a descendência dos manuscritos.

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Mas, e quanto à idade dos documentos? Não há dúvida de que isso também é importante, não é verdade?

Exatamente, mas esse elemento é outro dado que favorece o Novo Testamento. Temos cópias que datam de algumas gerações posteriores ao escrito dos originais, ao passo que, no caso de outros textos antigos, talvez cinco, oito ou dez séculos tenham se passado entre o original e as cópias mais antigas que sobreviveram. Além dos manuscritos gregos, temos também a tradução dos evangelhos para outras línguas numa época relativamente antiga: para o latim, o siríaco e o copta. Além disso, temos o que podemos chamar de traduções secundárias feitas pouco depois, como a armênia e a gótica. Há várias outras além dessas: a georgiana, a etíope e uma grande variedade.

De que forma isso nos ajuda?

Mesmo que não tivéssemos nenhum manuscrito grego hoje, se juntássemos as informações fornecidas por essas traduções que remontam a um período muito antigo, seria possível reproduzir o conteúdo do Novo Testamento. Além disso, mesmo que perdêssemos todos os manuscritos gregos e as traduções mais antigas, ainda seria possível reproduzir o conteúdo do Novo Testamento com base na multiplicidade de citações e comentários, sermões, cartas etc. dos antigos pais da igreja.

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Uma montanha de manuscritos

Quando o senhor fala da multiplicidade de manuscritos, de que modo isso contrasta com outros livros antigos normalmente reputados pelos eruditos por confiáveis? Por exemplo, fale-me de escritos de autores da época de Jesus.

Metzger consultou algumas anotações à mão que tinha trazido, prevendo minha pergunta.

Veja o caso de Tácito, o historiador romano que escreveu os Anais por volta de 116 d. C. — começou. — Seus primeiros seis livros existem hoje em apenas um manuscrito, copiado mais ou menos em 850 d. C. Os livros 11 a 16 estão em outro manuscrito do século XI. Os livros 7 a 10 estão perdidos. Portanto, há um intervalo muito longo entre o tempo em que Tácito colheu suas informações e as escreveu e as únicas cópias existentes. Com relação a Josefo, historiador do século I, temos nove manuscritos gregos de sua obra Guerra dos judeus, todos eles cópias feitas nos séculos X a XII. Existe uma tradução latina do século IV e textos russos dos séculos XI ou XII.

Eram números impressionantes, sem dúvida. Existe apenas uma sequência muito tênue de manuscritos ligando essas obras antigas ao mundo moderno.

Só para comparar — perguntei —, quantos manuscritos do Novo Testamento grego existem ainda hoje?

Há mais de 5 mil catalogados.

Isso é incomum no mundo antigo? Qual seria o segundo colocado?

O volume de material do Novo Testamento é quase constrangedor em relação a outras obras da Antigüidade. O que mais se aproxima é a Ilíada de Homero, que era a bíblia dos antigos gregos. Há menos de 650 manuscritos hoje em dia. Alguns são muito fragmentários. Eles chegaram a nós a partir dos séculos 11 e M d. C. Se levarmos em conta que Homero redigiu seu épico em aproximadamente 800 a. C, veremos que o intervalo é bastante longo.

“Bastante longo” era eufemismo; estávamos falando em mil anos! De fato, não havia comparação: a existência de manuscritos do Novo Testamento constituía uma prova surpreendente quando justaposta a outros escritos respeitados da Antiguidade — obras que os estudiosos modernos não relutam de forma alguma em considerar autênticas.

Minha curiosidade em relação aos manuscritos do Novo Testamento fora despertada. Pedi a Metzger que me descrevesse alguns deles.

Os mais antigos são fragmentos de papiros, que era um tipo de material para escrita feito da planta do papiro que crescia às margens do delta do Nilo, no Egito — disse Metzger. — Existem atualmente 99 fragmentos de papiros com uma ou mais passagens ou livros do Novo Testamento. Os mais importantes já descobertos são os papiros Chester Beatty, achados por volta de 1930. Destes, o número 1 apresenta partes dos quatro evangelhos e do livro de Atos, datando do século III d. C. O papiro número 2 contém grandes porções de oito cartas de Paulo além de trechos de Hebreus, e a data gira em torno de 200 d. C. O papiro número 3 compreende uma seção enorme do livro de Apocalipse, com data do século III d. C. Um outro grupo de manuscritos de papiros importantes foi comprado por um bibliófilo suíço, Martin Bodmer. O mais antigo deles, de aproximadamente 200 d. C, contém cerca de dois terços do evangelho de João. Um outro papiro, com partes dos evangelhos de Lucas e João, é do século III d. C.

A essa altura, o intervalo entre a escrita das biografias de Jesus e os manuscritos mais antigos revelava-se extremamente pequeno. Mas qual é o manuscrito mais antigo? Será que é possível chegar aos manuscritos originais, que os especialistas chamam de “autógrafos”

O refugo que mudou a história

De todo o Novo Testamento, qual é a parte mais antiga que temos hoje?

Metzger não precisou refletir para responder.

Um fragmento do evangelho de João com parte do capítulo 18. Tem cinco versículos, três de um lado, dois de outro e mede cerca de 6,5 por nove centímetros.

Como foi descoberto?

Foi comprado no Egito em 1920, mas passou despercebido durante anos em meio a outros fragmentos de papiros semelhantes. Em 1934, porém, C. H. Roberts, do Saint Johris College, de Oxford, trabalhava na classificação de papiros na Biblioteca John Rylands, em Manchester, na Inglaterra, quando percebeu imediatamente que havia deparado com um papiro em que se achava preservado um trecho do evangelho de João. Pelo estilo da escrita, ele foi capaz de datá-lo.

E a que conclusão ele chegou? É muito antigo?

Ele concluiu que o manuscrito era de cerca de 100 a 150 d. C. Muitos outros paleógrafos famosos, como sir Frederic Kenyon, sir Harold Bell, Adolf Deissmann, W. H. P. Hatch, Ulrich Wilcken e outros, concordam com sua avaliação. Deissmann estava convencido de que o manuscrito remontava pelo menos ao reinado do imperador Adriano, nos anos 117 a 138 d. C, ou até mesmo ao do imperador Trajano, entre os anos 98 e 117 d. C.

Excertos do primeiro e do terceiro capitulo da obra:
Em defesa de Cristo
, de Lee Strobel (jornalista e ex-ateu).
Publicado pela Editora Vida, sob ISBN: 978-85-7367-561-0.

Assista trecho de aula onde o filósofo Olavo de Carvalho elucida dúvidas comuns relativas ao cristianismo:

Clique aqui, e também assista ao documentário baseado na obra que gerou esta postagem.

Demais tópicos abordados na obra Em defesa de Cristo:

Parte I – Analisando os dados

01. As provas das testemunhas oculares, baseado em entrevista concedida por Dr. Craig Blomberg.
02. Avaliando o testemunho ocular, baseado em entrevista concedida por Dr. Craig Blomberg.
03. A prova documental, baseado em entrevista concedida por Dr. Bruce Metzger (1914 – 2007).
04. A prova corroborativa, baseado em entrevista concedida por Dr. Edwin Yamauchi.
05. A prova científica, baseado em entrevista concedida por Dr. John McRay.
06. A prova da contestação, baseado em entrevista concedida por Dr. Gregory Boyd.

Parte II – Analisando Jesus

07. A prova da identidade, baseado em entrevista concedida por Dr. Ben Witherington.
08. A prova psicológica, baseado em entrevista concedida por Dr. Gary Collins.
09. A prova do perfil, baseado em entrevista concedida por Dr. D. A. Carson.
10. A prova das impressões digitais, baseado em entrevista concedida por Louis Lapides, Th.M.

Parte III – Pesquisando a ressurreição

11. A prova médica, baseado em entrevista concedida por Dr. Alexander Metherell.
12. A prova do corpo desaparecido, baseado em entrevista concedida por Dr. William Lane Craig.
13. A prova das aparições, baseado em entrevista concedida por Dr. Gary Habermas.
14. A prova circunstancial, baseado em entrevista concedida por Dr. J. P. Moreland.

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