Besta ou obra-prima: o que significa ser Humano?


Não se vive sem fé. A fé é o conhecimento do significado da vida humana. A fé é a força da vida. Se o homem vive é porque crê em algo.”, Liev Nikoláievich Tolstói (1828 – 1910): escritor do Império Russo, conhecido por Leon Tolstói.

Introdução

Em 3 de julho de 1884, quatro marinheiros ingleses a bordo do iate Mignonette enfrentaram uma tempestade terrível no Oceano Atlântico. O iate naufragou, deixando-os abandonados em um pequeno bote salva-vidas de madeira. Eles tinham pouca comida e nenhuma água potável. Por volta do oitavo dia à deriva, eles estavam desesperados e tomaram a fatídica decisão de matar o grumete, que já se encontrava doente de tanto beber água do mar. Por mais quatro dias, até o momento em que foram resgatados, os três marinheiros sobreviventes se alimentaram do corpo e do sangue do grumete.

Quando retornaram para a Inglaterra e a história foi noticiada, a nação e o mundo se viram escandalizados. Os sobreviventes foram a julgamento acusados de homicídio. Um dos marinheiros testemunhou contra os demais. Os outros dois confessaram, em julgamento, que haviam matado e comido seu companheiro de tripulação. Eles alegaram estado de necessidade [1].

Se você fosse o juiz nesse tribunal, o que você faria? Afinal de contas, a história nos leva a duas conclusões possíveis, certo? Uma é puramente utilitária: uma pessoa foi morta, mas três pessoas sobreviveram. E o grumete, ao contrário dos marinheiros mais velhos, não possuía dependentes. Sua morte não deixou crianças órfãs.

Eu desconfio de que muito poucos de vocês concordariam com essa opção. Ao invés disso, desconfio de que a maioria de nós tenha uma reação mais visceral: o que aqueles três marinheiros fizeram foi errado – fundamentalmente errado – porque eles violaram os direitos, a dignidade e o valor do grumete.

Dignidade humana

Seja no caso de um pequeno crime contra a humanidade – o assassinato de um marujo sob circunstâncias desesperadoras – ou no caso de um grande crime – o genocídio em Ruanda, a Rússia de Stálin, os estupros e assassinatos perpetrados pelo ISIS em todo o Oriente Médio – a maioria de nós, se não todos, teríamos a mesma reação: a de que é errado, é um mal, violar a dignidade de outro ser humano. Essa crença poderosa está consagrada nas palavras da Declaração Universal de Direitos Humanos das Nações Unidas de 1948:

“Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo (…)

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. [2]

Nós somos aficionados por direitos humanos, nós concedemos prêmios Nobel para celebrá-los, mas há uma questão fundamental que por vezes é negligenciada. Onde encontramos esses direitos, essa dignidade que os humanos possuem? Do que ela depende? Por mais nobres que essas palavras possam parecer, elas são verdadeiras?

Para responder a essa pergunta corretamente, precisamos antes responder a uma questão ainda mais básica: o que é um ser humano? A menos que saibamos o que é um ser humano, o que é uma pessoa, não poderemos nem começar a fazer perguntas muito mais importantes sobre direitos e dignidade. Então, o que significa ser humano?

Esperança, humanidade e naturalismo secular

Muitos de meus amigos ateus querem tentar responder à pergunta “o que significa ser humano?” puramente em termos materiais, naturais, sem permitir a mínima menção a Deus nesta discussão.

Considere essas palavras do falecido Stephen J. Gould, paleontólogo, biólogo e ateu:

No ensino básico, me ensinaram que um sapo transformando-se num príncipe era um conto de fadas. Na universidade, me ensinaram que um sapo transformando-se num príncipe era um fato!”, Ron Carlson: Romancista norte-americano.

“A espécie humana habita o planeta há apenas mais ou menos 250 mil anos, isto é, 0.0015% da história da vida, a última polegada da milha cósmica. O mundo se saiu perfeitamente bem sem a nossa presença, à exceção do último momento do tempo terrestre – e este fato faz com que a nossa aparição se pareça mais com uma consideração acidental a posteriori do que o apogeu de um plano predefinido… Nós estamos aqui porque um estranho grupo de peixes possuía barbatanas com uma anatomia peculiar com potencial para se transformarem em pernas para criaturas terrestres; porque cometas chocaram-se com a Terra exterminando os dinossauros, dando aos mamíferos uma oportunidade que não existia anteriormente (então, obrigado estrelas da sorte, literalmente); porque a Terra não foi completamente congelada na era do gelo; porque uma espécie frágil e pequena, oriunda da África há 250 mil anos, conseguiu sobreviver até hoje aos trancos e barrancos. Nós podemos ansiar por uma resposta ‘mais elevada’ – mas ela não existe. Essa explicação, ainda que superficialmente preocupante, ou mesmo assustadora, é, em última análise, libertadora e estimulante. Nós não conseguimos ler passivamente o sentido da vida nos fatos da natureza. Nós devemos construir essas respostas nós mesmos – a partir de nossa própria sabedoria e senso ético. Não há outro caminho [3]”.

É claro que Gould está interpretando os fatos de forma displicente para forçar a sua conclusão. Se o cenário desenhado por ele está correto, não existe nenhum sentido e ponto final. Não apenas não há um sentido para ser encontrado, mas também nenhum para ser criado. Se eu embaralho um monte de letrinhas de um alfabeto de madeira pelo chão, as letras aleatórias não possuem significado, ponto final. Se Gould está correto, nós somos biologia e apenas biologia. Nada menos, é claro. Mas certamente nada mais.

A ideia de que somos meros organismos biológicos é expressa por outros ateus também. Aqui temos Richard Dawkins a todo vapor:

“Nós somos máquinas de sobrevivência – veículos robóticos cegamente programados para preservar as moléculas egoístas conhecidas como genes. Nossos genes nos fizeram. Nós, animais, existimos para preservação dos genes e somos nada mais do que máquinas de sobrevivência descartáveis. O mundo do gene egoísta é um mundo de competição selvagem, exploração cruel e enganação [4]”.

É evidente que, se Dawkins estiver certo, isso levanta questionamentos profundos. Há alguns meses, eu estava palestrando em uma grande escola de medicina canadense. Após o fórum de abertura, eu conversava com um jovem estudante de medicina. Ele era ateu e não era, particularmente, um grande apreciador dos cristãos. “Cristãos são fanáticos, intolerantes, anti-homossexuais, antitranssexuais, antimulheres…”, começou ele.

Um sem-número de respostas possíveis passaram pela minha mente, mas senti em meu espírito que eu precisava tentar algo diferente. “O que há de errado em ser antimulheres?”, perguntei.

Aprenda mais, leia: “O Homem, Quem é Ele?: Elementos de Antropologia Filosófica”. Obra escrita por Battista Mondin (1926 – 2015).

“O quê?”, exclamou ele.

“O que há de errado em ser antimulheres?”, repeti. “Eu não acredito que o cristianismo o seja, mas vamos explorar o motivo de você pensar que seria errado ser misógino”.

“Simplesmente é”, ele disse.

“Ora, vamos”, eu disse, “você é um estudante de uma das melhores escolas de medicina do país. Você deve ser incrivelmente inteligente, você consegue dar uma resposta melhor!”. Ficamos nesse vai-e-vem durante alguns minutos até que finalmente eu disse a ele gentilmente: “Olha, eu presumo que você seja um ateu, certo?”. “Sim”, ele respondeu. Li para ele a declaração de Dawkins e perguntei se ele concordava. Ele respondeu que sim. Então eu disse: “Desculpe a minha sinceridade, mas se você acredita nisso e está planejando uma carreira em medicina, você está enrascado. Porque se o motivo pelo qual você pretende aderir à ética médica é porque ela ‘simplesmente é’ e, no fundo, você tentará exercer a medicina baseado em algo como a ideia de Dawkins, bem, para ser sincero, eu espero que Deus ajude seus pacientes”.

“Você me deu bastante coisa para pensar”, ele disse

Não me entenda mal. Eu admiro a franqueza de um Dawkins e a honestidade de um Gould. Mas a cosmovisão deles leva a conclusões espantosamente desoladoras, porque ela destrói até mesmo a possibilidade de uma resposta significativa à pergunta “o que significa ser humano?”.

A resposta cristã

Então, o que dizer da resposta cristã a essa pergunta? Se o ateísmo naturalista é incapaz de nos dizer quem nós somos e qual o nosso propósito, o que a Bíblia nos diz? Ela nos propõe alguma coisa? No primeiro livro da Bíblia, o Gênesis, nós lemos uma pequena declaração que é estonteante em seu escopo e fundamental em sua importância:

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”.

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gn 1:26,27).

Essa alegação de que os seres humanos foram criados à imagem de Deus, de que nós portamos a imago Dei, é exclusiva do cristianismo. Você não encontrará uma declaração como essa no Corão, no Bhagavad Gita, ou em qualquer outro texto religioso. Apenas a Bíblia nos fornece uma afirmação tão espantosamente elevada a respeito do que significa ser humano. Porém, essa não é apenas uma ideia teológica, mas uma ideia fundamental por duas razões: ela nos dá valor e fundamenta a ética. Vamos analisar brevemente cada uma delas.

Valor

Em primeiro lugar, o ensino bíblico de que os seres humanos são feitos à “imagem de Deus” fornece uma base ontológica sólida, inabalável e objetiva para o seu valor e identidade. De acordo com a Bíblia, não importa qual a sua raça, gênero, idade ou capacidade, não importa o quanto você ganha, o que você fez, ou qual o seu passado; você é feito à imagem de Deus e por isso você possui valor.

A obra clássica “A abolição do homem”, escrita por C. S. Lewis (1898 – 1963), talvez seja uma das diretrizes mais eficazes para avançar nos estudos aqui expostos por Andy Bannister.

Descarte essa ideia e você será deixado com a pergunta “como você determina o valor de uma vida humana?”. Se eu sou um químico, talvez eu determine o quanto você vale com base no valor das substâncias químicas que existem em seu corpo. Se eu sou um psicólogo, talvez eu determine seu valor a depender do seu Q. I. Se eu sou um antropólogo, talvez eu analise o quanto a sua comunidade valoriza você, quantos amigos você possui (tanto os amigos de verdade quanto aqueles de mentira que você tem no Facebook), e meça o seu valor desta forma. Se eu sou um economista, talvez eu deva olhar para o seu salário ou o que você produz, e avaliar o valor da sua vida por este critérios.

Todos sabemos, instintivamente, que essas são péssimas maneiras de tentar determinar o valor de uma vida. Seu valor não decorre de seus componentes químicos, de seus relacionamentos ou de sua produção econômica. Se formos por essa caminho, estaremos todos perdidos. Mas então eu pergunto aos meus amigos ateus: se estas formas não servem, então como fazer?

Há apenas um lugar que eu conheça, apenas uma cosmovisão onde você pode verdadeiramente situar o valor humano, e é no ensinamento bíblico de que os humanos carregam a imagem de Deus – porque apenas este lhe diz que seu valor não provém da sua performance, mas de algo exterior.

Ética

Portanto, o ensino bíblico de que os seres humanos são criados à imagem de Deus é o único fundamento seguro para o valor humano. Além disso, é o fundamento para algo intimamente relacionado: a ética e a forma como tratamos uns aos outros.

Nossa cultura nos estimula a ver as pessoas como números ou partes de um processo, como coisas. Mas se os seres humanos não passam de engrenagens, bits, bytes ou dados em um gráfico, então o que há de errado em tratar as pessoas como tais? Como podemos sustentar a ideia de que as pessoas devem ser tratadas com generosidade e compaixão – não apenas os nossos amigos, mas até mesmo os nossos inimigos?

Dentre todos os povos do mundo, os dalits da Índia viveram uma das maiores experiências de tristeza, dor e perseguição. Eles estão no último nível do altamente estratificado sistema de castas da Índia, sendo considerados “intocáveis” [5]. As mulheres dalit frequentemente sentem o peso disto: dois terços delas já foram abusadas sexualmente e 750 mil foram vítimas de tráfico sexual; ainda assim a taxa de condenação por crimes contra os dalits é apenas de 5.3% [6]. Como mudar a mentalidade que diz que uma pessoa é quase literalmente inútil em razão de sua casta, família e local de nascimento? Frases como “todos os homens nascem iguais” não passam de chavões elegantes para aqueles que diariamente experimentam discriminações como estas.

Um líder religioso dalit sintetizou o problema em uma entrevista. Ele disse que quando uma criança atinge os 14 anos já é tarde demais para mudar alguma coisa, pois durante toda a sua vida ela ouviu que não vale nada. A única maneira de corrigir isso, ele continuou, é, desde a mais tenra idade, apresentar a ela uma visão de mundo diferente – e os dalits estão descobrindo que a cosmovisão bíblica, com sua profunda mensagem de que todos somos portadores da imagem de Deus, é o corretivo mais poderoso.

Se você ensina às crianças, durante toda a vida, que elas não possuem valor algum, haverá consequências. Aqui no Ocidente, estamos tentando um experimento sociológico diferente: estamos descobrindo o que acontecerá se você criar toda uma geração para acreditar que são apenas átomos atormentados num leito de lama, um arranjo acidental de átomos [7], dançando ao som de seu DNA [8], nada além de um pacote de neurônios [9], ou um punhado de 1% de poluição no universo. Podemos ficar desagradavelmente surpresos com o que acontecerá quando eles tornarem-se nossos futuros líderes e começarem a agir com base nessa filosofia.

Quebrantamento e esperança

Essa pergunta sobre o significado de ser humano é profundamente importante. E acredito que apenas a Bíblia pode realmente respondê-la de um modo significativo, ao nos dizer que não somos redutíveis a átomos e moléculas, à psicologia, sociologia, ou à nossa renda.

Mas há um outro lado da questão: precisamos de uma resposta à pergunta “o que significa ser humano” que aborde nossa nobreza mas também o fato de que somos falhos. Um dos desafios do secularismo é explicar por que os seres humanos dão errado em tantos aspectos diferentes – não importa quanta educação, estratégia política ou tecnologia nós empreguemos, nunca alcançamos as utopias seculares. Como escreveu o poeta Randall Jarrell: “A maioria de nós, hoje, sabe que Rousseau estava errado: aquele homem, quando você quebra suas correntes, cria os campos de extermínio. Em breve, saberemos tudo o que o séc. XVIII não sabia, e ele nada sabia, e será difícil conviver conosco” [10].

Se isso é verdade, por que é verdade? Se os humanos são feitos à imagem de Deus, por que agimos, tão frequentemente, de forma animalesca uns com os outros? Talvez precisemos refletir por um momento a respeito do que é uma “imagem”. Inerente à palavra imagem está a ideia de reflexo.

Assim, se os seres humanos foram criados à imagem de Deus, isso significa que fomos projetados, destinados a refletir Deus – feitos para espelhar Deus, refletir a glória de Deus para o mundo. Portanto, a pergunta para cada um de nós é esta: se não Deus, o que você escolhe refletir? Todos nós direcionamos o espelho de nossa alma em direção a algo: se não for Deus, será o nosso trabalho, família, desempenho, dinheiro, ou, como Narciso da lenda grega, nós mesmos, fascinados por nossa própria imagem, beleza, inteligência ou reputação. Mas essas coisas, no fim das contas, irão destruí-lo se você fizer delas seu propósito último, porque espelho algum pode ser a fonte de sua própria luz.

David Foster Wallace, romancista pós-moderno indicado ao prêmio Pulitzer, escreveu algo profundo a esse respeito:

“Nas trincheiras do dia-a-dia de uma vida adulta, não existe essa coisa de ateísmo. Não existe isso de ‘não adorar’. Todo mundo adora. Nossa única escolha é o que adorar. E um ótimo motivo para escolhermos algum tipo de deus ou ente espiritual para adorar (…) é que praticamente qualquer outra coisa que você adore o comerá vivo. Se você adora o dinheiro e os bens materiais – se é deles que você extrai o sentido da sua vida – então você nunca terá o suficiente. Nunca sentirá que possui o suficiente. Essa é a verdade. Adore seu próprio corpo, beleza e o fato de ser atraente sexualmente e você sempre se sentirá feio, e quando o tempo e a idade começarem a deixar marcas, você morrerá um milhão de mortes antes de finalmente te plantarem na terra. (…) Adore o poder e você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de cada vez mais poder sobre os outros para afastar o próprio medo. Adore seu intelecto, sendo visto pelos outros como inteligente, e você acabará se sentido burro, uma fraude, sempre na iminência de ser descoberto. E por aí vai [11]”.

Neste trecho, Wallace nos leva a refletir sobre o fato de que qualquer que seja a sua fonte de sentido, satisfação, alegria e energia – você precisa possuí-la, você necessita dela e tem medo de perdê-la. Desta forma, a possibilidade de perdê-la – seja sua reputação acadêmica, seu relacionamento conjugal, seu emprego ou seu padrão de vida – acaba por controlá-lo. Mas se você serve à sua carreira ou sucesso e fracassa, isso faz com que você acabe se crucificando por dentro com ódio, ansiedade, ciúmes e aversão a si próprio. Em contrapartida, no cerne da fé cristã encontra-se a notícia de que Jesus foi crucificado por você.

Qual é, então, a solução? Como podemos lidar com o fato de que o espelho de nossas almas está rachado, quebrado e distorcido? Bem, o tema bíblico da imagem de Deus introduzido no Gênesis percorre toda a Bíblia, e no Novo Testamento encontramos a resposta a essa pergunta. Nas palavras do apóstolo Paulo:

“Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados. Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia. Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude, e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz”. (Cl 1:13-20).

De acordo com a Bíblia, Jesus Cristo é a imagem perfeita de Deus, e estava disposto a ser pisoteado, rejeitado e quebrado por nós, para que a nossa imagem imperfeita pudesse ser refeita, perdoada, restaurada e redimida. A história da morte e ressurreição de Jesus é, em seu âmago, sobre restauração – a promessa e o poder de restaurar a imagem de Deus que nós permitimos que se tornasse tão estragada e deturpada em nós.

Se as coisas são assim, nós fomos criados com um propósito. Nós fomos feitos para algo. Fomos criados para descobrir o amor de Deus, amar a Deus em retribuição e amar o nosso próximo. Se o cristianismo é a verdade, o amor é a ética suprema. É isso o que significa ser humano e nos fornece um senso de dever para a vida humana. Em 17 de fevereiro de 1941, o monge católico polonês Maximiliano Kolbe foi preso pela Gestapo alemã por seu ativismo pelos direitos humanos, ao abrigar judeus e outros refugiados.

Andy Bannister, o autor deste artigo, escreveu a obra “The Atheist Who Didn’t Exist: Or the Dreadful Consequences of Bad Arguments”.

Após sua prisão, Kolbe foi enviado ao famigerado campo de concentração de Auschwitz. Um ano depois, um prisioneiro fugiu. Para evitar futuras tentativas de fuga, o subcomandante do campo escolheu aleatoriamente dez homens para serem trancados em um bunker subterrâneo e morrerem de fome. Quando um dos homens escolhidos começou a gritar pela esposa e pelos filhos, Kolbe ofereceu-se para tomar seu lugar. Ele foi jogado em um bunker minúsculo com os outros nove homens e deixado para morrer de inanição e desidratação.

Por que Kolbe fez isso? Porque ele acreditava que o amor é a ética suprema, ética que o compeliu a agir. Ele estava agindo com base nas palavras de seu amigo e salvador Jesus, que disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos”. (Jo 15:13).

O próprio Jesus, é claro, demonstrou isso. Esse é um ponto importante de se estabelecer, porque se nós dizemos que o valor e dignidade humanos apenas fazem sentido se Deus existir, isso levanta a seguinte questão: de que deus nós estamos falando? Em Jesus, temos um Deus que parece muito diferente dos demais.

A teoria econômica nos diz que o valor de algo é determinado por quanto alguém está disposto a pagar por aquilo. Por exemplo, meu iPad possui valor porque eu estava disposto a pagar centenas de libras pela utilidade que ele oferece. Se eu levar meu iPad para uma ilha onde não há energia, sinal de telefone celular ou WiFi, ele provavelmente não terá valor algum. Assim, qual é o nosso valor enquanto seres humanos? O cristianismo nos diz que Deus estava disposto a pagar um preço incrível por cada um de nós, o preço de seu Filho, Jesus Cristo. É por isso que nós temos valor.

Os seres humanos não são apenas átomos, nós não somos apenas matéria. Nós somos mais do que apenas o material do qual somos feitos, mais do que a nossa produção econômica, nossos relacionamentos, nossa biologia, psicologia, mais do que o nosso desempenho moral. Nós somos portadores de uma imagem que carrega valor e significância incríveis. Um valor tão alto que Jesus estava disposto a pagar o preço de Sua vida para redimir e restaurar aquela imagem quebrada, para que o espelho de nossas almas possa ser direcionado para Ele e refletir a Verdadeira Imagem de Deus para a qual foram destinadas. É isso o que significa ser humano.

“É coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, e lembrar que a pessoa mais chata e desinteressante com quem você pode conversar poderá um dia ser uma criatura que, se você a visse agora, seria fortemente tentado a adorar; ou então, um horror e uma corrupção tal qual você encontra agora, se for o caso, apenas num pesadelo. O dia todo, em certo sentido, ajudamos uns aos outros a chegar a um desses dois destinos. É à luz dessas possibilidades irrefutáveis, é com reverência e a circunspecção que as caracterizam que deveríamos conduzir nossas interações uns com os outros, todas as amizades, todos os amores, toda a diversão, toda a política. Não existem pessoas comuns. Você nunca conversou com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações – essas coisas são mortais, e a vida dessas coisas é para nós como a vida de um mosquito. No entanto, é com os imortais que nós fazemos piadas, trabalhamos e casamos; são os imortais aqueles a quem esnobamos e exploramos – horrorosos imortais ou eternos esplendorosos”. C. S. Lewis.

Escrito por Andy Bannister. Traduzido por Victor Terra.
Artigo original publicado pela Revista Knowing & Doing, do C. S. Lewis Institute, disponível em: http://www.cslewisinstitute.org/Knowing_and_Doing.

• • •

ANDY BANNISTER é Diretor do Solas Centre for Public Christianity e palestrante adjunto do Ravi Zacharias International Ministries. Possui Ph.D em Estudos Islâmicos e palestra regularmente sobre islamismo e filosofia. Dentre seus diversos livros, está The Atheist Who Didn’t Exist (or: The Dreadful Consequences of Really Bad Arguments). Descubra mais sobre Andy e seu ministério em andybannister. net e www.solas-cpc.org.

Notas:

  1. A história é contada em Michael J. Sandel, Justiça: o que é fazer a coisa certa? (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014), 45.
  2. Organização das Nações Unidas, Declaração Universal de Direitos Humanos, http://www.un.org/en/documents/udhr/. Citações do preâmbulo e do artigo 1º (grifos do autor).
  3. Citado em: James A. Haught, 2000 Years of Disbelief: Famous People with the Courage to Doubt (Amherst, NY: Prometheus Books, 1996), 290.
  4. Richard Dawkins, Prefácio, O gene egoísta (Companhia das Letras, 2007).
  5. Ver Dalit Freedom Canada, http://www.dalitfreedom.net/about/about.aspx?page=2, e Dalit Solidarity, http://www.dalitsolidarity.org/.
  6. Ver Luke Harding,Sex Hell of Dalit Women Exposed,The Guardian, 8 de maio de 2001,
    http://www.guardian.co.uk/world/2001/may/09/lukeharding, e International Dalit Solidarity Network, http://idsn.org/caste-discrimin ation/keyissues/dalit-women/.
  7. Bertrand Russell, “Free Man’s Worship”, http://www.philosophicalsociety.com/archives/a%20free%20man’s%20worship.htm, acesso em 1° de julho de 2013.
  8. Richard Dawkins, River Out of Eden (New York: Basic Books, 1995), 133.
  9. Francis Crick, A hipótese espantosa: busca científica da alma (Instituto Piaget, 1994), 1.
  10. Citado em Alan Jacobs, Original Sin: A Cultural History (London: SPCK, 2008), xvi.
  11. David Foster Wallace, This Is Water: Some Thoughts, Delivered on a Significant Occasion, about Living a Compassionate Life (New York: Little, Brown, 2009), 100–110.

Leituras recomendadas:

Compreenda mais. Assista ao vídeo intitulado “Você pode ser bom se Deus?”:

Leia também:

avatar
640

Faça downloads de livros, imagens, áudios e de outros artefatos.


Clique aqui e conheça a nova seção da Culturateca.