Caduceu: expressão plástica da dialética e lógica


Excerto de um dos parágrafos da “Introdução crítica” escrita por Olavo de Carvalho para a obra de Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), intitulada: “Como vencer um debate sem precisar ter razão”. Publicada pela Editora Topbooks, sob ISBN número.: 978-85-7475-216-7.

A síntese de dialética e lógica encontrava ainda uma expressão plástica no caduceu, o símbolo tradicional de Mercúrio, divindade astral que, desde os primórdios das Artes Liberais, era associada à dialética, no sentido medieval do termo: as duas serpentes entrelaçadas mostravam os movimentos dialéticos da mente, que se afastavam e aproximavam da reta verdade, representada pelo bastão central. A linearidade da demonstração lógica aparecia aí como um ideal de perfeição pelo qual se guiavam os movimentos reais da mente investigadora, por si sempre incertos e vacilantes [1].

Uma análise mais detida desse símbolo mostra a profundidade extraordinária do seu significado, onde este aspecto que estou apontando é só um entre muitos. Enquanto a lógica, raciocínio linear, pressupõe um domínio completo dos dados em jogo, a dialética tem como uma de suas funções descobrir os dados faltantes, e por isto não pode seguir a linha ideal do raciocínio demonstrativo, mas deve acompanhar, até certo ponto, as ondulações da mente humana e os contornos do objeto, quando é sinuoso. É um raciocínio “impuro”, que se modela pela pureza do ideal analítico, mas conserva um resíduo empírico e psicológico que, na pura demonstração lógica, não teria cabimento. Por exemplo: de um ponto de vista lógico, a negação de uma negação é uma afirmação: “A é igual a A” é o mesmo que “A não é não-A”. Psicologicamente, a recusa da negação de algo não é o mesmo que sua afirmação, e chega mesmo a ser o seu contrário: a revolta contra a frustração de um desejo não satisfaz a esse desejo, mas até aumenta a frustração; porque os desejos só podem ser satisfeitos por uma gratificação positiva. Logicamente, toda negação é afirmação do oposto, mas psicologicamente há muitos graus de negação, alguns excludentes entre si. Ora, nenhuma investigação pode se modelar diretamente pela natureza do objeto (para isto seria preciso conhecê-la de antemão), mas, obedece, em parte, ao jogo interno da mente e, em partes, às casualidades da fortuna investigativa. Por isto há um resíduo psicológico – logicamente “impuro” – na dialética: arte de investigação, é ciência prática que, como a ética, tem de se guiar menos pela pureza cristalina da demonstração do que pela flexibilidade da Φρονεσιςfrônesis, sabedoria [2].

Escrito por Olavo de Carvalho.
Extraído da “Introdução crítica” do livro: “Como vencer um debate sem precisar ter razão”.

A obra aqui exposta é de autoria do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788 – 1860). No entanto, a edição da Editora Topbooks conta com introdução, notas e comentários do filósofo Olavo de Carvalho.

Notas:

  1. Comparar isto com a solução que dou ao conflito das interpretações que enfatizam um Aristóteles “aporético” ou um “sistemático”, em Aristóteles em Nova Perspectiva, pp. 125 – 135. V. tb. as referências a Mercúrio em O Jardim das Aflições § 17. 
  2. Sobre a frônesis, v. Carlo Natali, La Saggezza di Aristotele, Napoli, Heliopolis, 1989.

Para obter uma breve resenha da obra aqui exposta, assista ao vídeo de Ronaldo Laux, aluno do COF:

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Poucas linhas e muito (bom) conteúdo. Paranbéns!!!

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