Carta imaginária


Postagem extraída da sétima edição do livro “O Imbecil Coletivo”.
Os colchetes sinalizam pequenas alterações em relação ao conteúdo original. Mais detalhes no término deste artigo.

Fiquei perplexo ao ver nas bancas (quase escrevi brancas) [uma revista] destinada a desenvolver no leitor o orgulho de ser negro, embora [tenha] no quadro de redatores vários brancos que nem poderiam compartilhar desse motivo de orgulho nem poderiam fazer uma equivalente apologia da raça branca sem criar o maior melê na linha editorial da publicação.

Como sou branco, casei com negra e tenho um filho mulato, estou com um dilema para cuja solução tenho de pedir o auxílio de V. Sas. Devo ensinar meu filho a ter orgulho de ser negro ou de ser branco? Ele deve assumir a raça da mãe ou a raça do pai? Ou deve mandar às urtigas todo orgulho racial e parar de ler uma revista que só lhe põe minhocas na cabeça?

Como seres antiquados que éramos, educados na Santa Madre Igreja que tem um panteão multicor de mártires e doutores, nunca tínhamos pensado que raça devesse ser motivo de orgulho ou de vergonha. Ufanar-se ou humilhar-se por qualquer característica física, fosse a cor, a gordura ou o tamanho do nariz (isto para não falar de qualquer órgão mais íntimo), sempre nos pareceu uma babaquice que nenhuma pessoa adulta deveria cultivar, pois nos reduziria à condição de animais de exposição. Julgávamos que os traços anatômicos, entre os quais os de ordem racial, eram secundários e desprezíveis ante a unidade espiritual da espécie humana e jamais deveriam ser elevados à condição de valores a serem defendidos num debate público mais ou menos sério. Mas, como nos tornamos pessoas modernas e passamos a acreditar em tudo quanto lemos, a revista de V. Sas. nos pôs na maior confusão, e começaram a surgir em nossas cabeças as perguntas mais constrangedoras.

Se ser negro é motivo de orgulho, ser branco deve ser motivo de vergonha ou também de orgulho? Algumas raças são meritórias e outras são vergonhosas, ou todas são igualmente meritórias? No primeiro caso, informem-nos por favor quais são as vergonhosas, para que evitemos todo contato com esses seres inferiores. No segundo, expliquem-nos como é que uma característica racial qualquer pode ser motivo de orgulho sem que a falta dela constitua motivo de vergonha. Como ter orgulho de alguma coisa se não vemos nela superioridade nenhuma, e como imaginar que a nossa raça é superior sem dar por pressuposto que as outras lhe são inferiores?

Pior ainda: aquilo que é motivo de orgulho é, por definição, um bem valioso que deve ser conservado. Se a raça negra é motivo de orgulho, o negro deve conservar sua pureza racial, evitando toda miscigenação, ou deve jogar fora esse motivo de orgulho permitindo que se dissolva na geléia geral brasileira onde todas as raças se casam com todas? Como pode haver, em suma, orgulho racial sem defesa da pureza racial?

Desejaríamos saber, também, se vocês aceitariam um anúncio com uma foto de halterofilistas germânicos e o título: “Temos orgulho da raça branca.”

Também temos alguns amigos judeus e não mostramos sua revista a eles para não deixá-los confusos sem saberem se devem ter orgulho de ser brancos como os alemães ou de ser semitas como os árabes. Imaginamos que poderiam talvez orgulhar- se de ser judeus no sentido religioso, sem referências raciais, mas isto não seria justo, pois, afinal, se os negros têm direito ao orgulho racial, por que não o teriam também os judeus?

Pior ainda, temos um amigo negro que casou com uma nissei, vencendo uma resistência braba da colônia, que desejava preservar a raça que era seu motivo de orgulho. O filho do casal não parece japonês nem negro, mas um índio queimado de praia. Ele deve se orgulhar das características raciais que não tem ou de ser um indivíduo sui generis? Mas não será uma odiosa discriminação obrigá-lo a admitir que é um UFO etnológico privado de todo direito ao orgulho racial?

Enfim, não entendemos como é possível o culto do orgulho racial sem o da pureza racial, muito menos o da pureza racial sem racismo, e estamos na maior confusão porque não podemos admitir que sua revista seja racista, de vez que ela é aplaudida, na seção de Cartas, por celebridades de todas as cores.

Uma hipótese que nos aliviou um pouco é que talvez a revista se destine precisamente a ganhar dinheiro em cima da confusão alheia. Mas, se é este o caso, por que não embolar tudo de vez chamando a publicação de Tiririca e dizendo que se destina a defender a pureza racial dos mestiços, ou que combate o nazismo judaico dos adeptos muçulmanos [de algum bispo]?

Escrito por Olavo de Carvalho.
Extraído da sétima edição da obra “O Imbecil Coletivo“, publicada em 1999.
Leia diretamente do site do autor: Prólogo de “O Imbecil Coletivo” e “O novo imbecil coletivo“.
Visite o site pessoal do professor Olavo de Carvalho e do Seminário de Filosofia por ele ministrado.

Separador

Assista ao vídeo no qual Helio de La Peña, Morgan Freeman, Thomas Sowell e Walter William comentam sobre cotas raciais:

Separador

Leia também os artigos:

Leia também as transcrições:

Deixe um Comentário!

avatar
640

Agora você pode interagir conosco e com outros leitores. Deixe seu comentário no término de cada artigo!