Ciência e Fé: aliados amigáveis, não inimigos hostis


A ciência humana de maneira nenhuma nega a existência de Deus. Quando considero quantas e quão maravilhosas coisas o homem compreende, pesquisa e consegue realizar, então reconheço claramente que o espírito humano é obra de Deus, e a mais notável.”, Galileu Galilei (1564 – 1642): físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano

A ciência contemporânea é uma atividade maravilhosamente colaborativa. Não conhece qualquer barreira geográfica, racial ou de crença. No seu melhor, nos permite lutar contra os problemas que afligem a humanidade, e celebramos, com razão, quando é feito um progresso que traz alívio para milhões de pessoas. Passei toda a minha vida como um matemático puro e reflito frequentemente a respeito do que Eugene Wigner, vencedor do Prêmio Nobel de Física, chamou de “a eficácia irracional da matemática”. Como é possível que equações criadas na cabeça de um matemático podem relacionar-se com o universo fora dessa cabeça? Essa pergunta levou Albert Einstein a dizer que “a única coisa incompreensível sobre o universo é o fato de ele ser compreensível”. O mero fato de nós crermos que a Ciência é possível é algo a se pensar.

Por que deveríamos acreditar que o universo é inteligível?

Afinal de contas, se, como nos dizem certos pensadores seculares, a mente humana se resume ao cérebro e o cérebro é nada mais do que um produto de forças irracionais não-guiadas, é difícil entender por que qualquer tipo de verdade, que dirá a verdade científica, poderia ser um de seus produtos. Como apontou o químico J. B. S. Haldane, muito tempo atrás: se os pensamentos na minha mente são apenas o movimento de átomos em meu cérebro, por que eu deveria acreditar em qualquer coisa que eles me digam – inclusive no fato de que são feitos de átomos? Ainda assim, muitos cientistas adotaram essa visão naturalista, aparentemente sem perceberem que ela mina a própria racionalidade da qual depende sua pesquisa científica!

Por que a ciência não consegue enterrar Deus, por John C. Lennox

Por que a ciência não consegue enterrar Deus”, por John C. Lennox. Publicado pela Editora Mundo Cristão (lançado em outubro de 2016).

Não foi — e não é — sempre assim. A ciência como nós a conhecemos explodiu no cenário mundial na Europa dos séculos XVI e XVII. Por que nesta época e lugar? A visão de Alfred North Whitehead, sintetizada por C. S. Lewis, era de que “os homens tornaram-se científicos porque eles presumiam a Lei na Natureza, e presumiam a Lei na Natureza porque acreditavam em um Legislador [1]”. Não é por acaso que Galileu, Kepler, Newton e Clerk-Maxwell eram crentes em Deus.

Melvin Calvin, laureado com o Prêmio Nobel Americano em bioquímica, encontra a origem da convicção fundacional da ciência — de que a natureza é ordenada — na noção básica “de que o universo é governado por um Deus único, e não é o produto do capricho de vários deuses, cada um governando sua própria província de acordo com suas próprias leis. Essa visão monoteísta parece ser o fundamento histórico da ciência moderna” [2].

A crença em Deus, longe de ser um entrave à ciência, foi o motor que a impulsionou. Isaac Newton, quando descobriu a lei da gravitação, não cometeu o erro comum de dizer “agora que tenho a lei da gravidade, não preciso de Deus”. Ao invés disso, ele escreveu Principia Mathematica, o livro mais famoso da história da ciência, expressando a esperança de que iria convencer o leitor pensante a acreditar em um criador.

Newton conseguiu enxergar o que, infelizmente, muitas pessoas hoje em dia parecem incapazes de ver: que Deus e ciência não são explicações alternativas. Deus é o agente que projetou e sustenta o universo; a ciência nos diz como o universo funciona e sobre as leis que governam seu comportamento. Deus conflita com a ciência enquanto explicação para o universo tanto quanto Henry Ford conflita com as leis do motor de combustão interna enquanto explicação para o automóvel. A existência de mecanismos e leis não é um argumento para a ausência de um agente que estabeleceu essas leis e mecanismos. Ao contrário, sua própria sofisticação, que vai até o ajuste fino do universo, evidencia a inteligência do Criador. Para Johannes Kepler, matemático, astrônomo e astrólogo alemão do século XVII, “o objetivo principal de todas as investigações a respeito do mundo externo deve ser descobrir a ordem racional que lhe foi imposta por Deus e que nos foi revelada por ele através da linguagem da matemática” [3].

Enquanto cientista, portanto, não me sinto envergonhado ou constrangido por ser cristão. Afinal, o cristianismo desempenhou um papel importante em fornecer a minha matéria de estudo. A menção a Kepler me leva a outra questão. A ciência, como disse anteriormente, é em geral um atividade colaborativa. No entanto, os grandes avanços são, frequentemente, feitos por um indivíduo solitário que tem a coragem de questionar a sabedoria estabelecida e atacá-la por sua própria conta. Johannes Kepler foi um desses. Ele foi a Praga como assistente do astrônomo Tycho Brahe, que lhe encarregou de dar sentido matemático às observações dos movimentos planetários em termos de sistemas complexos de círculos. A visão de que o movimento perfeito era circular vinha de Aristóteles e havia dominado o pensamento por séculos. Mas Kepler simplesmente não conseguia fazer com que os círculos se ajustassem a suas observações. Ele deu o passo revolucionário de abandonar Aristóteles, analisando as
observações dos planetas a partir do zero e verificando com o quê as órbitas de fato se pareciam. A descoberta de Kepler de que as órbitas planetárias eram elípticas e não circulares levou a uma mudança fundamental de paradigma na ciência.

Kepler teve o instinto de prestar atenção cuidadosa às coisas que não se encaixavam na teoria estabelecida. Einstein foi outro desses revolucionários. Coisas que não se encaixam podem levar a avanços cruciais no conhecimento científico. Além disso, existem questões que não se encaixam na ciência. Pois – e é preciso dizê-lo diante da opinião popular contrária generalizada – a ciência não é o único caminho para a verdade. De fato, o próprio sucesso da ciência se deve à limitação do alcance de suas questões e metodologia.

A matemática e a lógica são pressupostas pelas ciências, portanto, não são passíveis de provas; a estética não é avaliável cientificamente (a beleza de um quadro não pode ser provada pelas ciências, – formosas combinações entre cores e formas apenas geram protótipos ou plágios); a ética foge do domínio científico (é impossível comprovar cientificamente que os nazistas estavam errados).”, Excerto do Artigo: “Não tenho fé suficiente para ser ateu”.

Tampouco podemos dizer que a ciência é coextensiva à racionalidade. Se assim fosse, metade de nossas faculdades universitárias teria que fechar as portas. Existem questões maiores na vida – questões de história e arte, cultura e música, significado e verdade, beleza e amor, moralidade e espiritualidade, e uma série de outras coisas importantes que vão além do alcance das ciências naturais e, na verdade, do próprio naturalismo. Assim como Kepler foi, a princípio, limitado por um aristotelismo presumido, não seria possível que um naturalismo a priori estivesse impedindo o progresso ao proibir que a evidência fale por si mesma? É para essas coisas que minha mente se volta quando penso em Jesus, o humano, acima de todos os outros, que não se encaixou nas preconcepções deste mundo. Assim como Johannes Kepler revolucionou a ciência ao examinar as coisas de perto, apontando por que os planetas não se encaixavam na sabedoria matemática daquele tempo, eu afirmo que a minha vida, e a de muitos outros, foi revolucionada ao examinar Jesus de perto e o motivo pelo qual ele não se encaixou, e ainda não se encaixa, no pensamento deste mundo. Na verdade, o fato de Jesus não se adequar é um dos motivos pelos quais estou convencido de sua alegação de ser o Filho de Deus.

Por exemplo, Jesus não se encaixa na categoria de ficção literária. Se assim fosse, o que temos nos Evangelhos seria inexplicável. Seria necessário um gênio excepcional para inventar o caráter de Jesus e colocar em sua boca parábolas que são em si mesmas obras-primas literárias. É simplesmente inacreditável que todos os quatro escritores dos evangelhos com pouca educação formal acabaram por ser, simultaneamente, gênios literários de nível mundial.

Além disso, existem relativamente poucos personagens na literatura que nos parecem pessoas reais, que podemos identificar e reconhecer. Um deles é o meu herói intelectual Sócrates. Ele impressionou gerações e gerações de leitores como uma pessoa real. Por quê? Porque Platão não o inventou. O mesmo se dá com Jesus Cristo. De fato, quanto mais sabemos a respeito das principais culturas da época, mais percebemos que, se a figura de Jesus não fosse uma realidade histórica, ninguém poderia tê-lo inventado. Por quê? Porque Ele não se encaixava em nenhuma dessas culturas. O Jesus dos Evangelhos não se adequava a nenhuma concepção de herói. Gregos, romanos e judeus – todos o viam como o oposto de seu ideal.

O ideal judaico era o de um general militar forte, inflamado por ideais messiânicos e preparado para lutar contra a ocupação romana. Então, quando Jesus, por fim, não resistiu àqueles que vieram o prender, não é de se espantar que seus seguidores o tenham deixado temporariamente. Ele estava longe de ser o líder ideal judaico.

Quanto aos gregos, alguns privilegiavam o epicurista afastamento dos extremos da dor e do prazer, que poderiam perturbar a tranquilidade. Outros preferiam a racionalidade do estoicismo, que suprimia a emoção e caminhava serenamente ao encontro do sofrimento e da morte, como Sócrates o fez.

Jesus era totalmente diferente. No Jardim do Getsêmani, enfrentando uma agonia tão intensa que o fez suar gotas de sangue, Ele pediu a Deus para não deixá-lo passar pela tortura da cruz. Grego algum poderia ter inventado uma figura heroica como essa.

E o governador romano Pilatos viu em Cristo alguém pouco prático, que não poderia ser deste mundo, quando Jesus lhe disse: “Meu reino não é deste mundo. (…) De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade” (Jo 18:36-37).

Portanto, Jesus contrariou todos as concepções do herói ideal. De fato, o ateu Matthew Parris sugeriu recentemente na Spectator que se Jesus não tivesse existido nem mesmo a igreja poderia tê-lo inventado! Jesus simplesmente não se encaixava.

Tampouco sua mensagem. São Paulo nos diz que a pregação do Cristo crucificado foi considerada escândalo para os judeus e loucura para os gregos. Os cristãos primitivos certamente não poderiam ter inventado uma história como esta. De onde então ela surgiu? Do próprio Cristo, que disse: “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mt 20:28). Jesus não se encaixava no padrão deste mundo. Então eles o crucificaram e tentaram encaixá-lo em uma tumba. Mas isso também não funcionou. Ele ressuscitou ao terceiro dia.

Mas isso não contraria a própria essência da ciência que eu elogiava anteriormente? Milagres como este não são impossíveis, uma vez que violam as leis da natureza?

Evidências da Ressurreição”, por Sean McDowell. Publicado pela Editora CPAD (lançado em julho de 2014).

Eu discordo. Para usar uma ilustração baseada em C. S. Lewis, se, em cada uma de duas noites, eu colocar dez libras esterlinas (moeda britânica) dentro da minha gaveta, as leis da aritmética me dizem que eu terei vinte libras. Se, porém, ao acordar eu encontrar apenas cinco libras na gaveta, não concluo daí que as leis da aritmética foram violadas, mas possivelmente as leis da Inglaterra [4]. As leis da natureza descrevem as regularidades nas quais o universo normalmente funciona. Deus, que criou o universo com essas leis, é tão prisioneiro delas quanto o ladrão é prisioneiro das leis da aritmética. Assim como o meu quarto, o universo não é um sistema fechado, como sustenta o secularista. Deus pode, se quiser, fazer algo especial, como ressuscitar Jesus.

Perceba que o meu conhecimento das leis da aritmética me diz que um ladrão roubou o dinheiro. Da mesma forma, se nós não conhecêssemos a lei da natureza de que pessoas mortas geralmente permanecem em suas tumbas, nunca seríamos capazes de reconhecer uma ressurreição. Nós poderíamos certamente dizer que é uma lei da natureza a que diz que ninguém morto volta a viver através de processos naturais. Mas os cristãos não afirmam que Jesus ressuscitou através de processos naturais, mas através de um poder sobrenatural. As leis da natureza não podem descartar essa possibilidade.

O filósofo David Hume afirmou que devemos rejeitar um milagre como falso, a não ser que acreditar em sua falsidade tivesse implicações tão inexplicáveis que fosse necessário um milagre ainda maior para explicá-las. Essa é uma boa razão para acreditar na ressurreição de Jesus. A evidência da tumba vazia, o caráter das testemunhas, a irrupção do cristianismo a partir do judaísmo, e o testemunho de milhões de pessoas ainda hoje são inexplicáveis sem a ressurreição. Como Sherlock Holmes diz para Watson: “Quantas vezes eu já lhe disse que quando você elimina o impossível, o que restar, não importa o quão improvável, deve ser a verdade?”. Como dizem os cristãos russos na Páscoa: “Khristos Voskryes. Voiistinu Voskryes! Cristo ressuscitou. Ele verdadeiramente ressuscitou!”.

“Eu acredito no Cristianismo da mesma forma que acredito que o sol nasce todos os dias. Não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todas as demais coisas” – C. S. Lewis.

Escrito por John Carson Lennox. Traduzido por Victor Terra.

Artigo original publicado pela Revista Knowing & Doing, do C. S. Lewis Institute, disponível em: http://www.cslewisinstitute.org/Knowing_and_Doing.

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John Carson Lennox é professor de matemática na Universidade de Oxford e fellow emérito em matemática e filosofia da ciência no Green Templeton College. John é fellow sênior do Trinity Forum e escreveu diversos livros, incluindo God’s Undertaker: Has Science Buried God? (2009) e Gunning for God (2011), a respeito do novo ateísmo. Dentre seus livros mais recentes estão “Contra a Correnteza” (2015), que apresenta lições para a sociedade atual a partir da vida do personagem bíblico Daniel, Determined to Believe (2017), que trata da soberania de Deus e da liberdade e responsabilidade humanas, e Can Science Explain Everything (2019), que busca demonstrar como a ciência e o cristianismo não apenas não são opostos, como podem e devem se misturar para nos fornecer uma compreensão mais completa a respeito do universo e do significado de nossa existência. John e sua esposa Sally vivem próximo a Oxford.

Notas:

  1. C. S. Lewis (1898 – 1963), Miracles: A Preliminary Study (London: Collins, 1947), 110.
  2. Melvin Calvin (1911 – 1997), Chemical Evolution (Oxford: Clarendon Press, 1696), 258.
  3. Johannes Kepler (1571-1630), Astronomis Nova de Motibus (publicado em 1609).
  4. C. S. Lewis (1898 – 1963), Miracles, 62.

Aprenda mais com o autor deste artigo, assista ao vídeo intitulado “Deus Existe”:

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Na minha opinião Lennox é um gigante do nosso tempo e com pouco material em português.

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