Ciência e questão de fé?


Excerto do quarto capítulo do livro: Fundamentos Inabaláveis”, escrito por Norman Geisler e Peter Bocchino. Publicado pela Editora Vida, sob ISBN 978-85-7367-623. [1].

Muitos acreditam que só o que é cientificamente verificável é verdadeiro. Infelizmente, nenhum experimento cientifico pode averiguar essa asserção, pois é uma declaração de natureza filosófica, não cientifica. Além disso, a ciência se baseia na lógica, e nenhum experimento cientifico pode verificar a lógica. Ao contrário, pressupõe-se que a lógica é um componente válido do método científico. Logo, antes de aplicar o método científico, precisamos entender o fundamento sobre o qual a disciplina da ciência repousa.

A palavra ciência literalmente significa “conhecimento”. Origina-se do verbo latino scio (“saber” [2]). Entretanto, a ciência pressupõe uma certa ordem interdependente de conhecimento, e ignorar essa ordem ou abusar dela pode levar a inferências e conclusões altamente questionáveis no que se refere à realidade. Precisamos ter consciência de que a disciplina ciência baseia-se em certos primeiros princípios e hipóteses estabelecidos na filosofia. Essas hipóteses (ou pressupostos) são de natureza metafísicas [3] e têm prioridade sobre toda investigação científica. Um filósofo da ciência resume:

A filosofia funciona como o cimento armado da ciência fornecendo-lhe suas pressuposições. A ciência (pelo menos como a maioria dos cientistas e filósofos entende) presume que o universo é inteligível, e não caprichoso, que a mente e os sentidos nos informam acerca da realidade, que a matemática e a linguagem podem ser aplicadas ao mundo, que o conhecimento é possível e que há uma uniformidade na natureza que justifica as inferências indutivas do passado sobre o futuro e dos casos examinados, como o dos elétrons, por exemplo, sobre os não-examinados, e assim por diante […] Todas essas pressuposições são filosóficas por natureza. [4]

Qual é a justificativa lógica para essas suposições metafisicas da ciência? Os nossos pensamentos são meramente um produto de reações químicas do cérebro? Se a razão e a lógica são em última análise redutíveis a puras reações químicas, como decidir entre a lógica boa e a má? Que suposições são razoáveis e quais não são? G. K. Chesterton observou que sem alguma base para raciocinar, o processo de raciocínio seria um mero ato de fé:

É um ato de fé asseverar que os nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade. Se você simplesmente é cético, deve, mais cedo ou mais tarde, fazer a seguinte pergunta: “Por que uma coisa está certa; a observação e a dedução? Por que a boa lógica não pode ser tão enganosa quanto a má lógica? Ambas são movimentos no cérebro de um chimpanzé confuso”. [5]

Já confirmamos que os primeiros princípios são verdadeiros por auto-evidência. Estão além de toda prova direta. Os primeiros princípios não precisam de mais justificações; se precisassem, o processo de justificação teria de continuar indefinidamente. Consequentemente, devemos voltar a algum ponto de partida como base para a própria razão. Se não, acabaremos tentando justificar e explicar toda explicação. C. S. Lewis nos dá uma ilustração clara do absurdo dessa tarefa:

Não se pode continuar “explicando” indefinidamente: acaba-se descobrindo que se explicou a própria explicação. Não se pode continuar “enxergando através” das coisas para sempre. O problema todo de ver através de uma coisa é ver uma coisa através dela. É bom que a janela seja transparente, porque a rua ou o jardim do outro lado é opaca. E se se enxergasse através do jardim também? Não adianta tentar “enxergar através” dos primeiros princípios. Se se enxerga através de tudo, então tudo é transparente. Mas um mundo transparente é um mundo invisível. “Enxergar através” de todas as coisas é o mesmo que não enxergar nada. [6]

Em última analise, os primeiros princípios do pensamento só têm justificativa racional se houver uma Mente que forneça a base para a existência deles.

Escrito por Norman Geisler e Peter Bocchino.
Excerto do livro Fundamentos Inabaláveis, trechos selecionados entre as páginas 69 e 70.
Obra publicada pela Editora Vida, sob ISBN 978-85-7367-623.

Notas:

  1. Sobre o título deste artigo os autores do livro escrevem: a resposta a essa pergunta foi inicialmente apresentada num artigo de Peter Bochino, intitulado Keep the faith. O artigo aparecia com o nome Just thinking num comunicado distribuído por Ravi Zacharias International Ministries
  2. Scio (scire), em latim clássico, significa saber. O verbo “saber” do português deriva de “Sapere”,  “ter sabor” (N. da E.). 
  3. O adjetivo “metafísico” vem de uma palavra grega que significa “além da física”. A metafísica trata daquilo que é real, do que existe. 
  4. J. P. Moreland, Christianity and the nature of Science, p. 45. 
  5. Orthodoxy, p. 33. Publicado em português com o título Ortodoxia
  6. The abolition of man, p. 91. 

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