Como tomar notas


A vida é toda ela memória, exceto por um momento presente indo embora tão rápido que você mal percebe ele ir.”, Tennessee Williams (1911 -1983), pseudônimo de Thomas Lanier Williams III: dramaturgo norte-americano.

As notas, espécie de memória exterior a nós, “memória de papel”, como dizia Montaigne, devem reduzir-se enormemente com relação às leituras; mas podem alargar-se mais do que a recordação, supri-la e, por conseguinte, aliviá-la e socorrê-la no trabalho em medida aliás difícil de assinalar.

Ai de nós, se tivéssemos de nos fiar na memória para guardar intacto e prestes a servir o que encontramos ou descobrimos no decurso da vida de estudo. A memória é infiel; perde, enterra, quase que não obedece ao apelo. Opomos-nos a que a sobrecarreguem e a que se atravanque o espírito; preferimos a liberdade da alma a uma abastança indigesta. A solução é o caderno de notas ou o ficheiro.

Demais a mais, a memória classifica à sua maneira e nós tentamos ajudá-la nessa tarefa; mas as suas classificações são caprichosas e instáveis. Para encontrar no momento oportuno a lembrança desejada, seria preciso um domínio de si próprio que nenhum mortal possui. Uma vez mais, são os cadernos e os ficheiros que nos valem. Precisamos de organizar reservas, depositar as economias no banco onde elas não produzirão, é certo, nenhum juro, mas estarão ao menos em lugar seguro e à ordem. Nós seremos o caixa.

Neste particular, são muito diversas as práticas; há, todavia, regras gerais que convém relembrar, para nos inspirarmos nelas.

Podemos distinguir duas espécies de notas, correspondentes à preparação remota ou preparação próxima do trabalho. Ledes ou meditais para formação e alimento do espirito: apresentam-se ideias que se vos afiguram dignas de registo, fatos, indicações diversas, capazes de tornarem a servir: anotai-os. Por outro lado, tendo de estudar um assunto determinado, de realizar uma produção, procurais documentar-vos, ledes o que se publicou sobre a matéria, recorreis a todas es fontes de informação de que podeis dispor e refletis por vós próprios, sempre de caneta na mão.

A primeira categoria de notas será um pouco fortuita; só os quadros da especialidade e o acerto na leitura reduzirão a dose do acaso. Como a vida é complexa e o espírito fugaz, e, como sempre advogamos os alargamentos, muito de eventual se introduz nas notas dessa categorias. Pelo contrário, quando tomais notas com o intuito de produzir, como a produção apresenta carácter definido, também as notas se definem, seguem de perto o objeto visado e formam um todo mais ou menos orgânico. Há, para estes dois grupos de notas, regras comuns e regras particulares.

Em ambos os casos, evite-se o excesso e a acumulação de materiais que só servem de afogar e se tornam inutilizáveis. Há pessoas que possuem cadernos tão recheados e tão numerosos, que uma espécie de desânimo antecipado os impede de os abrir. Esses pretensos tesouros custaram muito tempo e trabalho e não rendem nada. Obstrui-os uma multidão de não valores; a utilidade, que oferecem, muitas vezes permaneceria com vantagem nos volumes donde foram extraídos, bastando uma breve referência para substituir páginas fastidiosas.

Tomai notas com reflexão e sobriedade. Para evitar as surpresas do primeiro momento, o efeito de preocupações passageiras e também os entusiasmos causados às vezes por uma palavra sugestiva, não ordeneis definitivamente senão depois de certo prazo. Com calma e a distância, apreciareis as colheitas e só encelareis o bom grão.

Este artigo é um excerto da obra: “A vida intelectual”, encontrado em formato PDF em um antigo HD de um dos nossos colaborares. O livro escrito por Antonin-Gilbert Sertillanges (1863 – 1948), merece ser amplamente disponibilizado, motivo pelo qual “o achado” está aqui disponível para download. No entanto, recomendamos a versão fornecida pela editora É Realizações sob ISBN: 978-85-88062-86-3, a qual além de não conter um “português antiquado” detém todas as revisões tão necessárias para esta obra-prima.

Num caso como noutro, tomais notas depois dum trabalho de espírito enérgico e de feição pessoal. Trata-se de nos completarmos, de nos mobilarmos, de nos armarmos com panóplia à nossa medida, conforme as necessidades da batalha que se deve travar. O fato de uma coisa ser boa e bela, precisa teoricamente, não é motivo para a escrever. Há muitas coisas belas nos livros: ireis acaso copiar toda a biblioteca nacional? Ninguém compra um casaco só por ser bonito, mas porque lhe serve; e um móvel, que se admirou numa loja de antiquário, é preferível que lá fique, se nem o seu estilo nem o seu tamanho se adaptam ao quarto para onde o quereis levar.

Evitai o capricho em tudo. Como a leitura é nutrição, e a lembrança uma posse que enriquecendo a pessoa faz corpo com ela, as notas são reserva alimentar e pessoal. Leituras, lembrança, notas, tudo isto deve completarmos, portanto assemelhar-se a nós, ser da nossa espécie, da nossa missão, da nossa vocação, corresponder aos nossos fins e à forma dos gestos pelos quais podemos e queremos utilizá-los.

O livro de contas informa o comerciante acerca do teor de vida e dos fins que tem em vista: o registo de notas, o ficheiro, deve igualmente estar muito perto do intelectual do que ele deve e quer ser; é lá que está o seu Haver, pelo menos em parte, e esta conta há-de corresponder por um lado ao possuidor e por outro à despesa presumida. Reflito-me nas minhas obras: devo refletir-me nos meus meios, se é que soube adaptá-los uns aos outros e a mim próprio.

Melhor ainda, seria para desejar que, com excepção dos documentos propriamente ditos, fatos, textos ou estatísticas, as notas, que se tomam fossem não somente adaptadas a vós, mas vossas, e isto não só quando emanam das vossas reflexões, mas também quando procedem duma leitura. Também a leitura deve ser refletida, e nós dizíamos que o que se toma de empréstimo se pode tornar nosso a ponto de não diferir duma criação.

Leio e, lendo, escrevo; mas escrevo o que penso em contato com outrem, mais do que o pensar de outrem, e o meu ideal é que isso seja verdade, mesmo quando transcrevo textualmente, não esperando expressar melhor o pensamento comum. O escritor é o que concebe, e eu concebo igualmente o que assimilo em profundidade, o que me esforço por aprender, por compreender no sentido completo da palavra, o que faço meu: por conseguinte sou também, nessa altura o escritor das minhas concepções e ponho-as de parte como riqueza pessoal.

Nada mais de essencial há que dizer a respeito das notas que se tomam de longe. De perto, com a mira num trabalho, precisamos de reforçar a aplicação das nossas regras, e convém ajuntar o que segue.

Pedíamos que o modo de notação fosse pessoal isto é, em relação exata com o escritor; precisa, além disso, de estar em relação rigorosa com a obra a realizar.

Tendes um assunto determinado: pensai nele fortemente; traçai, no espírito, um plano provisório de orientação das leituras e reflexões, e segundo ele tomareis esta e aquela nota que irão encher os ficheiros. Declarava Claude Bernard que uma observação cientifica é a resposta a uma questão que o espírito se propõe, e que na realidade só se encontra o que se procura. Do mesmo modo, a leitura inteligente é uma resposta possível à questão posta em nós pelo assunto a tratar; portanto é imperativo ler com um sentimento de expectativa, como se acompanha com o olhar, à saída duma estação, a vaga dos viajantes por onde se escoa um amigo.

Por conseguinte fazei que a leitura seja cada vez mais tendenciosa; que tome em consideração, não somente a pessoa e a vocação, mas a aplicação atual de uma e outra; que seja como o crivo que só retém o bom grão. Não vos distraias nem vos demoreis; tende só presente o vosso objetivo, sem atentar no do autor, acaso muito diferente. Atrevo-me a dizer, a despeito do que estas palavras comportem de desagradável e de contraindicado em quase todos os casos: ponde uma venda nos olhos, para melhor vos concentrardes naquilo que, neste momento, reclama todo o vosso ser.

Para efetuar download da obra: “A vida intelectual”, escrita por: Antonin-Gilbert Sertillanges (1863 – 1948), clique aqui.

Ou estabeleceis um plano pormenorizado e só depois vos documentareis, ou começareis pela documentação, lendo e refletindo em obediência a diretivas tomadas, mas sem plano propriamente dito. Neste caso torneais o assunto, encarai-lo sob todos os aspectos, operais sondagens que não deixam ponto por explorar: acomodemos ideias e anotai-las, como Pascal quando escreve antes dum fragmento: Ordem; pondes de parte os documentos a utilizar na íntegra; fixais as ideias para desenvolver, vincando apenas as suas características, se elas vos ocorrerem; mencionais os termos preciosos, as comparações felizes, que se apresentam; por vezes redigis uma passagem inteira, não com o intuito de a completar, mas porque brota dum jato e porque a inspiração é como a graça que passa e não volta.

Depois que pensastes ter esgotado a matéria, esta preparado o trabalho; os materiais enchem o estaleiro, informes uns, outros talhados provisoriamente. Daqui a pouco falaremos da construção; mas desde já se vê que o plano vai sair dos materiais e não os materiais do plano. Este último processo, que parece o menos lógico, e que o é, abstratamente considerado, tem a vantagem de vos entregar mais à inspiração, de vos manter alegre, pelo fato de encontrardes algo de positivo, sem que preciseis de efetuar pesquisas demasiadas, e por vos facilitar ir, voltar, diferir, esperar a inspiração e trabalhar em boa disposição, sem constrangimento mental.

Deste modo, pode-se acabar uma obra sem a começar; as notas determinam-lhe o valor, pois já se esboça nelas o plano em estado latente, um plano de gaveta, como dizem os arquitetos, isto é, onde se prevê a possibilidade de diversas combinações; a matéria, porém, já está circunscrita e, uma vez estabelecido o plano, estais seguros de que corresponde a uma concepção real, a ideias vossas, após as quais não correis, e de que não será portanto um esquema arbitrário, sistema de compartimentos que sois obrigados a encher, sem talvez terdes que lá meter de original, de espontâneo, de vivo.

As notas assim compreendidas, notas de estudo, notas de inspiração, representam um trabalho rendoso, cujos frutos recolhereis nos momentos que qualificamos de plenitude. As outras notas, sem escaparem à obrigação do esforço, terão por vezes o carácter de feliz achado, de acaso. As melhores serão as que o estudo aturado convida a ceifar e a enceleirar como a riqueza duma vida.

Como classificar as notas

Tomadas as notas e supondo que são de molde para servirem mais tarde, cumpre classificá-las. Na indústria, a ordem é dinheiro, e quanto dinheiro! Na ciência, é pensamento. É inútil tomar notas, se elas hão-de ficar enterradas como tesouro que nunca se utilizará. É bom guardar o rasto das leituras e das reflexões e copiar documentos, com a condição de poderdes folhear, quando vos aprouver, o autor preferido e também de vos poderdes folhear a vós.

Desconfiai da mania de colecionar, que frequentemente se apossa dos que tomam notas. Querem encher cadernos ou ficheiros, dão-se pressa em preencher os vácuos, e empilham textos com o mesmo afã com que se recheiam álbuns de selos ou de postais ilustrados. É prática detestável; recai-se assim na puerilidade; corre-se o risco de vir a ser maníaco. A ordem é uma necessidade; mas é ela que tem de nos servir e não nós a ela. Obstinar-se em acumular, em completar, é distrair-se de produzir e mesmo de aprender; em vez de utilizar as notas, gastasse o tempo em classificá-las; ora, tudo aqui se deve subordinar ao bem do trabalho.

Como classificar as notas? Os homens célebres adotaram sistemas deferentes. De todos o melhor é o que se tiver experimentado e confrontado com as necessidades e hábitos intelectuais de cada qual e o que estiver consagrado por longa prática.

O sistema de registo, sobre o qual se escrevem ou colam em fila as notas, é muito defeituoso, por não permitir classificar, embora deixemos espaços em banco. Registos diferentes para cada assunto corrigem em pane esse inconveniente, mas não permitem uma classificação e demais a mais são de consulta incômoda.

Podemos ter pastas de cartolina, cada qual com seu titulo, onde se encerrem as notas relativas ao mesmo assunto. Uma coleção destas pastas, correspondendo a um título mais geral, poderá colocar-se num armário, e cada armário terá do lado de fora se não o título, ao menos um número de ordem correspondente a um índice de matérias que o trabalhador terá sempre à mão.

Mas o método mais prático para a maior parte dos trabalhadores parece ser o método das fichas ou verbetes. Adquiri fichas de papel bastante consistente, de formato uniforme regulado pela extensão média das vossas notas. Não há inconveniente em continuar numa segunda ficha a nota começada na primeira. As fichas serão cortadas muito exatamente, na guilhotina, trabalho este que um encadernador ou impressor executará em poucos minutos, e que, aliás, as papelarias vos poupam, vendendo fichas de todos os formatos, de todas as cores, e também as caixas e acessórios indispensáveis.

Com efeito, se quiserdes colecionar muitas notas, precisais de caixas, dum móvel com gavetas de dimensão apropriada. Precisais também de fichas classificadoras, para numerar visivelmente as diversas categorias de notas.

Assentes estes preliminares, vejamos como haveis de proceder.

Quando tomais uma nota no decurso duma leitura, refletindo num trabalho, na cama, etc., escrevei-a numa ficha, ou, se a não tendes à mão, num pedaço de papel, só de um lado, e cuidareis de a classificar logo em seguida, a não ser que adieis o trabalho de classificação.

Classificar supõe que se adotou um modo de classificação de acordo com o gênero de trabalhos que se traz em mãos. Aqui só podemos ter indicações gerais. Cada qual deve formar, sendo possível, um catálogo de matérias, com divisões e subdivisões, em conformidade com as notas que pretende tomar. Um sistema muito engenhoso, chamado sistema decimal, é aplicável a todo o gênero de investigações; quem desejar informações sobre ele, leia a interessante brochura do Dr. Chavigny, A organização do trabalho intelectual. Se temeis a complicação que todos os sistemas mais ou menos oferecem, valei-vos da própria experiência, se é que ela vos tem dado resultados. Nisto, como aliás em tudo o mais, é preciso ser realista e não perder o tempo em estabelecer divisões a priori, que de nada serviriam.

Mas, se tiverdes um catálogo de matérias, não vos esqueçais de apor a cada divisão e subdivisão uma letra ou número de ordem, que facilite a matrícula das fichas. Uma vez ordenadas, sem custo as encontrareis na hora do trabalho.

Como utilizar as notas

Eis-vos chegados ao momento de utilizar a documentação. Fizestes a colheita das notas com o intuito da obra atual; tendes, além disso, de reserva as notas antigas que a ela se referem mais ou menos diretamente. Juntai tudo, referindo vos, quanto possível, ao catálogo e às indicações que ele vos dá. Em seguida, duas vias se abrem diante de nós.

Quem tropeça sem cair, dá um passo maior!”, Antonin-Dalmace Sertillanges (1863 – 1948): filósofo e teólogo francês, também conhecido como: Antonin-Gilbert Sertillanges.

Se tendes um plano pormenorizado e se de acordo com ele constituístes ou recolhestes as notas, numerai os artigos sucessivos desse plano; por conseguinte, numerai a lápis e ao de leve, caso as notas hajam de tornar a servir, as fichas que lhe dizem respeito; reuni num pacote as que se referem ao mesmo número, apertai os pacotes com pinças, classificai-os, e nada mais tereis de fazer senão ir estendendo diante de vós, sucessivamente, o conteúdo de cada pacote para o trabalho da redação.

Se, pelo contrário, preparastes a vossa obra sem plano determinado, mas por simples diretivas, começai agora por estabelecer o plano, tirando-o da documentação. Para isso procedei do seguinte modo: Tendes as fichas em desordem; tomai-as uma a uma e inscrevei num linguado o conteúdo de cada uma com o menor número de palavras possível. Concluída a operação, tendes diante de vós as ideias de que dispondes. Percorrei-as, tendo em conta as suas relações e dependências: focai mentalmente as ideias mestras e agrupai à volta delas as restantes; para esse efeito, servi-vos duma numeração marginal das fichas, fácil de corrigir as vezes que se quiser.

Depois disso, recopiai o que escrevestes pela ordem obtida. Se no plano de concatenação das ideias ainda houver espaços em branco, tratai de os encher; sendo necessário, fareis pesquisas suplementares. Distingui com um número as fichas correspondentes ao mesmo assunto; classificai e empacotai, como há pouco dissemos, e a redação está preparada.

Extraído da obra: “A vida intelectual” (leia nota), escrita por AD. Sertillanges (1863 – 1948).

Nota da editoria da Culturateca:

Este artigo é um excerto da obra: “A vida intelectual”, encontrado em formato PDF em um antigo HD de um dos nossos colaborares. O livro escrito por Antonin-Gilbert Sertillanges (1863 – 1948), merece ser amplamente disponibilizado, motivo pelo qual “o achado” está aqui disponível para download. No entanto, recomendamos a versão fornecida pela editora É Realizações sob ISBN: 978-85-88062-86-3, a qual além de não conter um “português antiquado” detém todas as revisões tão necessárias para esta obra-prima.

Em complemento, assista ao vídeo no qual Rodrigo Gurgel faz breves explanações sobre a obra “A vida intelectual”:

Atente: configuramos o vídeo para não ser apresentado desde o início.

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Joel R. S.
Joel R. S.
1 mês atrás

Parabéns Culturateca!!! Vocês estão escolhendo os livros a dedo, o problema é que estou gastando demais com livros!!!

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