Decolando na liberdade; aterrissando na escravidão


A terra é um planeta inabitável. Conforto só no céu.”, Olavo de Carvalho.

Aviões, sobretudo de grande porte, são constituídos por muitos componentes, mas para alçarem grandes voos também dependem de fatores externos como o clima, que é inegociável, e controladores que permanecem em solo, os quais são negociáveis. Algo análogo ocorre com nossa liberdade. Viver em país democrático, gozar de boa saúde e não ter “rabo preso” são elementos que elevam nossa liberdade, no entanto, não optamos por nascer em determinada região (ou, talvez, em permanecer nela), também não somos capazes de evitar certas doenças, por mais cautelosos que possamos ser. Na verdade, até mesmo nossos relacionamentos interpessoais são mais negociáveis do que controláveis.

Há, porém, situações que parecem mais intuitivas no campo da aerodinâmica, do que no âmbito da liberdade (ou da ausência dela). Ninguém imagina que uma aeronave seja capaz de voar com uma única asa, também não é crível que os assentos sejam indispensáveis para que os aviões se mantenham pelos céus, mesmo que sejam vitais para que esses aparelhos cumpram adequadamente as funções para as quais foram projetados. Porém, comumente vemos pessoas que “embarcam” nos conceitos do “Estado laico”, ou até mesmo nos avanços tecnológicos (normalmente essenciais e admiráveis), crentes de que eles terão como destino uma maior liberdade – nada mais absurdo!

Em um pais democrático, caso 86,8% da população considere que determinado assunto seja proibitivo para crianças, não é coerente proibi-lo aos menores? No entanto, este é o percentual exato de cristãos no Brasil [1] e, mesmo assim, sob o incentivo de que o Estado é leigo, existem recorrentes tentativas de impor nas escolas (incluindo privadas) a Ideologia de Gênero, e não é o único exemplo. Outro, talvez mais emblemático, seja o do aborto. Contudo, é evidente que o Estado, sobretudo em nossa cultura, não deve impor, por exemplo, o catolicismo. Ao contrário, deve possibilitar que mesmo crenças dotadas de poucos adeptos possam naturalmente cativar mais pessoas, e até, talvez, tornar-se predominante, a ponto de eleger políticos que possam representar a respectiva doutrina.

Talvez você questione: “mas religiões cristãs não restringem a liberdade de seus fiéis?”. Uma resposta correta, todavia, muito sucinta, seria: “não!”. E por mais absurda ou surpreendente que possa soar, tal negação é injusta, porque todo cristão que exerça sua doutrina também acabará blindando sua liberdade por causa do uso racional do livre-arbítrio.

E quase todos nós presumimos que somos soberanos em nossas escolhas, acreditamos que temos total poder para tomar decisões corretas, como não consumir entorpecentes, ou optar por algo errôneo, como ingerir drogas. Portanto, cremos que somos portadores do livre-arbítrio, e, se realmente somos, o elegemos como aliado ou opositor.

Agora considere a história fictícia do Senhor Robert, que, influenciado por seu avô, Dr. Erasmus, certa vez tomou a decisão de visitar uma antiguíssima construção, aparentemente uma espécie de penitenciária. Para solucionar o enigma, Sr. Roberts resolveu livremente entrar naquilo que parecia ser uma cela. Na sequência, optou por trancar as grades e lançar as chaves para bem longe daquele que foi seu último aposento [2]. Histórias análogas, porém reais, são comuns.

Todos nós sabemos que o consumo de drogas é opcional e que, depois de consumi-las, delas nos tornaremos escravos. Também sabemos que o mesmo ocorre com a gula, o álcool, o sexo desregrado e uma infinidade de outras coisas, muitas das quais teologicamente podem ser resumidas pela palavra “pecado”. Por outro lado, é considerável que ninguém se torne dependente de, por exemplo, ser generoso ou estar sóbrio [3].

Em suma, a liberdade provém não só da vontade como também da razão. Battista Mondin (1926 – 2015) em sua obra “Quem é Deus? Elementos da teologia filosófica”, simplificou tal fato de modo implacável: “Se não houver orientação da razão, não há liberdade e nem vontade, mas simplesmente instinto [4]”.

Neste ponto é válido questionar: como a razão, sobretudo em função da ética, pode ser balizada em um Estado laico? Afinal, como exemplificado, um Estado leigo não é norteado pela religião da maioria e, portanto, acaba sendo direcionando pelo materialismo, o qual coloca a razão, a vontade e o instinto em pé de igualdade. Certa vez, Olavo de Carvalho proferiu o que pode elucidar o cerne do problema aqui exposto. Não utilizando exatamente das próximas palavras, ele afirmou que: “se somos desprovidos de almas, nossos pensamentos e nossas ações são apenas resultantes de processos eletroquímicos, neste caso, condenar pessoas não teria sentido, por exemplo, se um terrorista detonar um carro-bomba, ele será tão culpado ou tão inocente quanto a própria bomba – não há reações eletroquímicas morais ou imorais [5]”!

Ainda objetivando a compreender o problema do materialismo, conjeture que você tenha sido transportado para 5 de janeiro de 1919, a data da fundação do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Com isso, presuma também que você tenha a chance de aniquilar o nazismo da história, bastando, para tanto, expor cientificamente aos seguidores de Hitler e ao próprio Hitler que o arianismo é uma absurdidade – você iria falhar – mesmo que incluísse na bagagem todo o atual conhecimento cientifico e tecnológico. Neste caso a ciência é impotente! Aliás, foi a não comprovada Teoria da Evolução que ofereceu toda a pujança de que os nazistas precisavam. Por outro lado, o cristianismo certamente poderia estancá-los!

Hitler era cristão? Não! Se palavras seguramente revelassem a índole das pessoas, tribunais seriam desnecessários; se ações momentâneas obrigatoriamente expusessem a ideologia dos indivíduos, sempre votaríamos em candidatos virtuosos. Mas, na maioria das vezes, apenas as colheitas resultantes de um longo processo de plantio são capazes de desnudar corações. E bastam um pouco de estudo e o mínimo de sinceridade para reconhecer que o mundo se tornou menos sanguinário depois e por consequência da vinda de Cristo.

É inacreditável a determinação com que as pessoas dessa religião se ajudam umas às outras nas suas necessidades. Não se poupam em nada. O seu primeiro legislador meteu-lhes na cabeça que eles eram todos irmãos!”, Luciano de Samósata (ca. 130-200) : escritor pagão (focava em escárnios e sátiras relativas ao cristianismo. [*]

É fato corroborado que a sacralidade da vida humana, de viés notoriamente católico, fez muito mais do que “apenas” abolir duelos entre gladiadores e consolidar os hospitais do modo como hoje são estabelecidos. Muitas pessoas, incluindo cristãos, desconhecem o fato de que antes de Cristo, os pobres, os fracos e os doentes eram tratados com desprezo e, às vezes, completamente abandonados. Difícil imaginar, entretanto, a ideia de ajudar aos outros sem expectativa de reciprocidade era pouco justificável.

O historiador Thomas E. Woods Jr., em sua obra “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização ocidental”, documentou: [Platão, por exemplo, disse que um pobre homem cuja a doença o tornasse incapaz de continuar a trabalhar deveria ser abandonado à morte. Sêneca escreveu: “Nós afogamos as crianças que nascem débeis e anormais”]. Ainda no mesmo livro, Woods faz referência ao sociólogo Rodney Stark, por ter declarado que a filosofia clássica “considerava a piedade e a compaixão como emoções patológicas, defeito do caráter que os homens racionais deviam evitar. Dado que a piedade implicava prestar uma ajuda ou alívio imerecidos, era contrária à justiça [6]”.

Certa vez, num debate televiso, Olavo de Carvalho exclamou: “quanto menos religiosidade autêntica, mais moralismo civil!”, mas Mario Sergio Cortella, o moderador, ficou surpreso [7]. Provavelmente, naquele dia muitos não notaram que, criar leis para que suicídios sejam evitados entre reais seguidores de Cristo, é tão útil quanto legislar para que endividados não queimem dinheiro. Jesus não “plantou” regras no papiro para colhê-las nos corações dos homens; mas agiu “em verdade e espírito”, influenciando e doando as “sementes” de seu próprio coração!

Crenças todos temos! O comandante de um voo crê na equipe de manutenção; a clientela de um restaurante crê na equipe de cozinheiros. Porém, presumir que o cristianismo persiste por mais de dois mil anos, alicerçado exclusivamente na coluna da fé, é, na melhor das hipóteses, ignorância; na pior, desonestidade intelectual. E motivos para aceitá-lo vão além dos morais.

O big bang e outras descobertas relativamente recentes, como estudos arqueológicos, são bons exemplos dos vestígios do Deus cristão. Entretanto, aqueles que não consideram tais fatos depositam fé em algo futuro, possivelmente baseado na ciência e na tecnologia, itens atualmente tão úteis e tão admiráveis que ignoramos o que já em 1943, na obra “A Abolição do homem”, C. S. Lewis alertou:

“Consideremos três exemplos típicos: o avião, o rádio e os anticoncepcionais. Numa comunidade civilizada, em tempos pacíficos, qualquer um que tenha dinheiro pode fazer uso dessas três coisas. Mas não se pode dizer estritamente que quem o faz está exercendo seu poder pessoal ou individual sobre a Natureza. Se eu pago para que alguém me leve a algum lugar, não se pode dizer que eu seja um homem que dispõe de poder. Todas e cada uma das três coisas que mencionei podem ser negadas a alguns homens por outros homens — por aqueles que vendem, ou por aqueles que permitem que sejam vendidas, ou por aqueles que possuem os meios de produzi-las, ou por aqueles que as produzem. Aquilo que chamamos de poder do Homem é, na realidade, um poder que alguns homens possuem, e que por sua vez podem ou não delegar ao resto dos homens [8]”.

No mesmo capítulo, Lewis ainda alerta:

“E, quanto aos anticoncepcionais, existe paradoxalmente um sentido negativo no qual todas as possíveis gerações futuras são os pacientes ou objetos de um poder exercido por aqueles que já vivem”.

Muitos de nós já ficamos encantados com shows aéreos, nos quais, literalmente, vemos aviões riscando os céus e comumente em voos invertidos. É muito provável que, para os pilotos, as apresentações também sejam empolgantes, mas certamente eles precisam de muito mais concentração, sobretudo quando voam de cabeça para baixo, afinal, todos os comandos são invertidos, ou seja, ao ordenar que a aeronave suba, ela desce; ao ordenar que o avião vire à esquerda, a proa da aeronave se move para a direita!

Muitos em nossa sociedade ficam em êxtase com nossas decadências e deprimidos com nossas ascendências. Coitados, eles não estão concentrados, eles não sabem que somos todos “tripulantes” e, sobretudo, eles não sabem que estamos de cabeça para baixo!

Escrito por Eric M. Rabello.

Notas:

  1. Conforme censo realizado pelo IBGE em 2010 e divulgado em 2017. Link: https://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/sociais/populacao/9662-censo-demografico-2010.html?edicao=9749&t=resultados. Se preferir, acesse artigo com as mesmas informações dispostas de modo conciso, em: https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-ibge-e-a-religiao-cristaos-sao-86-8-do-brasil-catolicos-caem-para-64-6-evangelicos-ja-sao-22-2/
  2. Em alusão ao naturalista britânico Charles Robert Darwin, mais conhecido apenas por Charles Darwin, e seu avô materno, Erasmus Darwin (real precursor da Teoria da Evolução das Espécies). 
  3. Referência: https://www.youtube.com/watch?v=gW-u4a8I97U
  4. Quem é Deus? Elementos da teologia filosófica”. Primeira edição (1997) e quinta reimpressão (2015). Editora Paulus, ISBN 88-7030-725-5. Pag. 389. 
  5. Mais detalhes sobre este mesmo aspecto podem ser obtidos no quarto capítulo da obra “Fundamentos inabaláveis”, escrita por Norman Geisler e Peter Bocchino. Publicado pela Editora Vida, sob ISBN 978-85-7367-623. 
  6. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental”. Terceira edição (2010). Editora Quadrante, ISBN 978-85-7465-125-5. Págs. 161 e 191. 
  7. Referência: https://www.youtube.com/watch?v=YsN-EhlL5V8
  8. A abolição do homem”. Segunda edição. Editora WMF Martins Fontes, ISBN 978-85-7827-541-9. Pags. 52 e 53. 

Em complemento, assista ao documentário que detalha o quanto Hitler era anticristo:

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É uma pena que textos como este não sejam publicados em grandes veículos.

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