Deus existe? Nada prova; tudo evidencia!


“Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa.”,
G. K. Chesterton (1874 – 1936).

Matematicamente, entre um formigueiro e um piquenique existem infinitos pontos, no entanto, não existe trilha que suporte infinitas formigas. E, se a própria trilha for presumida como infinita, não haverá doces no final, pois, não haverá final. Imaginar formigueiro, piquenique, confeitaria ou outros objetos introduzidos em espaço infinito também não desfaz paradoxos, ao contrário, gera outras absurdidades, por exemplo: para localizar uma confeitaria talvez referências sejam necessárias, mas estas somente serão válidas dentro de um espaço delimitado, – um mapa finito do infinito faz tanto sentido como reproduzir “absolutamente nada” em maior ou menor escala. O zero é indivisível como o infinito.

Na verdade, o zero seria uma representação fidedigna do nada se ele não existisse! Mas existe, na intenção, por exemplo, de indicar que alguma coisa não contém nenhuma outra, contudo até mesmo um espaço completamente vazio já é algo em si mesmo, inclusive mensurável. Conceder a completa nulidade não é fácil, mas Aristóteles (384 – 322 a. C.) não apenas mentalizou como verbalizou concisamente: “Nada é aquilo com que as pedras sonham”.

O infinito e o nada parecem duas folhas de uma mesma janela, ambas com vistas para um mundo metafísico, no qual as lentes da matemática não são capazes de exporem nada além de ideias amorfas. Nicolau de Cusa (1401 – 1464) foi cardeal da Igreja Católica Romana e autor de inúmeras obras, a mais conhecida intitula-se A Douta Ignorância, publicada em 1440 a essência já deixava clara a inapreensibilidade aqui descrita. Olavo de Carvalho, no livro O Jardim das Aflições, resumiu o trabalho-mor do filósofo cusano com os seguintes incisivos:

Um objeto girando numa órbita circular, passando pelas extremidades do diâmetro A-B. Se aumentarmos sua velocidade até o infinito, ele estará simultaneamente em A e B. Mas um objeto que ocupasse simultaneamente todos os pontos do seu trajeto já não estaria em movimento, e sim parado: a suprema velocidade coincide com a completa imobilidade.

Do mesmo modo, numa extensão infinita, não há “perto” nem “longe”: todas as distâncias se equivalem. Logo, se o círculo do exemplo anterior tivesse um diâmetro infinito, todos os seus pontos estariam equidistantes da circunferência, e o círculo teria infinitos centros, ou nenhum.

Aplicando esses raciocínios, Nicolau concluía que o espaço é infinito, que o tempo é infinito, que o universo não tem centro geométrico e que, logo, o sistema geocêntrico de Ptolomeu estava errado. Com isto, ele antecipou por via da dedução filosófica o que Copérnico viria a demonstrar pela medição e pelo cálculo.

Não cabe a este artigo avaliar toda a obra A Douta Ignorância, mas é inevitável contrapor o último parágrafo do excerto acima com a teoria mais bem aceita da origem do universo, o Big Bang, assim batizado em 1949, quando o astrônomo Fred Hoyle (1915 – 2001) tentou durante uma transmissão de rádio aviltar a teoria proposta pelo doutor em astrofísica e padre jesuíta Georges Lemaître (1894 – 1966). A ideia de que o universo não é eterno, e que tudo o que conhecemos tenha nascido de uma “Grande Explosão” cuja precedência seja a completa ausência de matéria, espaço e tempo, parecia demasiadamente compatível com o relato bíblico do Gênesis. Todavia, se por um lado o Big Bang fortalece religiões teístas como o judaísmo e o cristianismo, por outro esvanece o hinduísmo, o zen-budismo, jainismo ou qualquer outra de caráter panteísta.

No quesito finitude versus divisibilidade, o Big Bang é harmônico, visto que suas causas: espaço, tempo e matéria são contingentes e, portanto, divisíveis. Apenas para corroborar tal conceito é válido considerar:

  • A finitude do espaço torna-se mais compreensível quando entendemos que o Big Bang não foi uma explosão que fez com que a matéria preenchesse o espaço vazio do universo, mas foi, e ainda é, a expansão do próprio espaço. Daí que surgiu a clássica analogia entre o universo e uma bexiga com moedas fixadas na superfície, cujo objetivo é demonstrar que à medida que o balão é inflado, as moedas se afastam umas das outras, analogamente ao afastamento entre as galáxias que é causado pela expansão do cosmo.
  • A finitude do presente expõe claramente a divisibilidade do tempo. Quando alguém afirma ter iniciado a leitura deste artigo agora, expõe grande subjetividade, já que gastasse algum tempo a cada parágrafo, palavra ou até mesmo sinal de pontuação. Não é possível estabelecermos um marco para o presente, ou seja, não é possível responder: quanto tempo dura o agora? Talvez seja mais fácil compreender a eternidade na definição do filósofo Boécio (480 – 524 ou 525), na obra De Consolatire Philosophie, ele definiu como a presença simultânea de todos os eventos.
  • A divisibilidade da matéria é inegável, na verdade, sabemos que a dificuldade está em determinar o quão divisível ela é. Além do mais, sem perceber, tal problemática induz substituir um objeto de estudo por outro. Por exemplo, depois de analisar um busto de bronze, é possível que o observador questione a composição do material, neste momento ele deixará de estudar a estátua que possui determinada forma e determinada composição, e passará a pesquisar sobre o bronze que contém outra forma e outra composição, – é como se ele deixasse de observar a representação de um rosto e passasse a examinar a tabela periódica sem notar que são coisas distintas! Avanços poderiam tornar as coisas ainda mais confusas, pois ao descobrir a composição do cobre, o estudo poderia seguir para a análise de alguma partícula fundamental, por exemplo, o elétron, mas este também terá outro arranjo. Parece que aqui jaz o grande problema da busca pela “partícula última”.

Em outras palavras, a essência dos últimos parágrafos resume-se em: era uma vez nada, e então, bang, – surgiu o universo! Atentando o quanto é inefável descrever o período anterior ao Big Bang, pois “antes” implica tempo e o tempo nasceu da “Grande Explosão”. E, obviamente, de tais fatos emergem questionamentos.

O que poderia existir antes do tempo senão o eterno? O que poderia existir antes do espaço além do incorpóreo? Na ausência de tempo e de espaço, qual a utilidade de disciplinas como a física, a química ou outras com características cartesianas? Estas teorias são aceitas por cientistas ateus? Bem, ao menos a última pergunta pode ser concisamente respondida e exemplificada.

Lawrence Krauss é um físico que já foi horando como titular da respectiva cadeira na Case Western Reserve University; Peter William Atkins é um químico que lecionou tal disciplina na Oxford University. Krauss e Atkins são ateus que creem que o universo surgiu do nada, mas para ampliar possibilidades de pesquisas, vamos considerar os dois primeiros parágrafos de uma terceira fonte, a qual mesmo apresentando a divergente (ou didática) ideia de que o universo estava todo contido em um minúsculo ponto, deixa clara a limitação que as descobertas cósmicas do último século criaram para as ciências – o excerto abaixo provém do artigo O Que Havia Antes do Big Bang?, publicado em 20 de setembro de 2010 pela Revista Superinteressante, leia:

A explosão que deu origem ao Universo aconteceu bem aí, no lugar onde você está agora. Exato: no momento do Big Bang, todos os lugares estavam no mesmo lugar, ocupando um espaço bem menor que o pingo deste i. Fora desse minipingo não havia nada. E ainda não há.

O Universo continua sendo só a parte interna do Big Bang. Não há nada lá fora. Nem tempo: passado, presente e futuro só existem aqui dentro. Difícil de imaginar, mas é a verdade: o dia do seu nascimento, do seu casamento e do seu funeral já estavam de alguma forma impressos naquele pingo de i. E continuam, em algum lugar do tecido cósmico. Fora dele é o “antes do Big Bang” – um limbo fora do alcance da ciência, ou da imaginação. Até por isso a maior parte dos cientistas acha perda de tempo pensar nesse limbo.

E, se o minúsculo ponto, for o fato? Ou seja, e se a grande explosão que liberou energia capaz de gerar o espaço e o tempo iniciou-se a partir de um minúsculo ponto, – uma singularidade? Bem, neste caso, além da incoerência em afirmar e recusar simultaneamente o espaço (por menor que ele poderia ter sido), surge outro paradoxo: o que causou tal explosão? Portanto, as vias tomistas, ou seja, as evidências da existência de Deus deduzidas por Aristóteles e aperfeiçoadas por São Tomás de Aquino (1225 – 1274) ainda permaneceriam inabaláveis. Aqui avaliaremos a via que é o âmago de todas as outras.

“O fim último do universo é o bem do entendimento, que é a verdade.”, Tomás de Aquino (1225 – 1274).

A primeira via denomina-se Prova do Movimento, entretanto não é baseada exclusivamente no deslocamento de corpos; é alicerçada na mudança posicional e em todas as outras. Objetos mudam! Se imaginarmos o mundo como um repositório de coisas, notaremos que tudo o que está incluso neste imenso contêiner sofre transformações, inclusive o próprio “contêiner”. É notável: o ferro enferruja; o gelo derrete, a água evapora; a semente transforma-se em árvore, da árvore se obtém madeira, da madeira se faz móvel, do eucalipto se faz papel; um tecido cândido pode ser encardido e tingido, a tinta líquida torna-se sólida; larvas e vulcões transformam-se em rochas; etc. Contudo, nenhuma mudança decorre de modo autônomo.

O óxido de ferro, conhecido como ferrugem, surge da união entre o ferro e o oxigênio, união que é possibilitada pela água; o gelo derrete e a água evapora ao receberem calor de fonte externa; o tecido branco torna-se azul ao ganhar o índigo de uma tinta. Devido a estas e todas as outras mudanças que surgiram os conhecidos termos aristotélicos “ato” e “potência”, objetivando identificarem os “estágios dos elos” desta gigantesca corrente de transformações, para compreendê-los bastam alguns exemplos.

Uma estátua de ferro é suscetível de degradação, ou seja, possui potência para ser decomposta em óxido de ferro; o gelo é passível de ser derretido, assim possui potência para liquidez; a madeira pode ser trabalhada para constituir determinado móvel, portanto possui potência, digamos, para compor uma mesa; os números naturais possuem potência para o infinito, mas como visto, nunca culminam em tal perfeição; a semente de linhaça possui potência para produzir uma planta, o linho, enquanto as fibras do linho possuem potência para gerar vestimentas. Portanto, o termo potência é utilizado para indicar uma qualidade que poderá ser incorporada a um determinado ser. Logo, é deduzível que a palavra “ato” indique uma perfeição que já faz parte de determinado ente. O gelo não possui potência para ser sólido, é sólido em ato; o fogo não tem potência para ser quente, é quente em ato; você não tem potência para ser vivo, você está vivo em ato; todo objeto pode ser cortado, e as resultantes também podem ser divididas, portanto toda matéria tem potência para fornecer a “partícula última”, contudo nenhuma já ofereceu em ato.

“Nada do que está em potência passa ao ato senão por outra coisa que está já em ato.”, Aristóteles (384 – 322 a. C.).

Eis o cerne da Prova do Movimento: para que haja alguma mudança, é preciso que um elemento que tenha uma perfeição em ato, repasse-a para um objeto que tenha potência em recebê-la. Por exemplo, um tecido branco em ato, tem potência para tornar-se azul, e torna-se índigo ao receber uma tintura que deverá ser azul em ato; ou, uma panela fria em ato, tem potência para tornar-se quente, e torna-se candente ao receber calor de uma fonte que deverá ser quente em ato. Assim, somos institivamente forçados em refletir se esta cadeia de mudanças é infinita ou finita, e pelo bom senso mais as considerações anteriores somos obrigados a considera-la finita, mas ainda resta outra análise, tal sequencia de mudanças iniciou-se de um ato ou de uma potência? E, aqui não é difícil concluir que a causa de todas as causas deve ter sido iniciada de um ato, um “Ato Puro”.

Supondo que possamos substituir as formigas da trilha mencionada no início deste artigo por velas, digamos 180 velas, também vamos considerar que no instante que avistamos esta trilha as primeiras 89 velas estavam acesas, e que no mesmo momento uma pessoa estava transmitindo a chama da octogésima nona vela para a nonagésima. Não é evidente que a primeira vela era dotada da chama em ato? Obviamente a produção de uma chama deriva de outros “atos” e outras “potências”, mas esta necessidade não enfraquece tal fato, ao contrário trará mais evidências que colocarão sempre um ato antes de uma potência.

Compreendido que a natureza (espaço, matéria e tempo), passou da não existência para a existência; entendido o significado aristotélico de ato e potência; e, deduzido que o primeiro motor abrange somente ato, ainda resta esclarecer quais são os requisitos indispensáveis para que algo não carregue nenhuma potência e, porém, abarque todos os atos. A conclusão divide-se em duas partes.

Primeira. O tempo é o cárcere onde nossa liberdade habita, não podemos recuperar nossa infância ou envelhecermos sem ele, na verdade o tempo é a duração de qualquer mudança, sem exceção. Portanto, para que algo seja dotado de ato e desprovido de potência é necessário que sua existência esteja fora do tempo. Então, se Deus é Ato Puro, Ele não pode usar o verbo “ser” além do presente. É apreciável que no terceiro capítulo do Livro do Êxodo, esteja descrito no versículo 14: “E disse Deus a Moisés: ‘Eu sou aquele que É’” (Êxodo 3:14), mas, não é a única passagem que ratifica tal fato, por exemplo, no oitavo capítulo João narra no versículo 58: “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8:58), já no conhecido relato em que Cristo caminha sobre as águas (Mateus 14:22-33 e Marcos 6:45-52), lemos: “Não temam, sou Eu”, mas a tradução exata do grego é “Não temam, Eu sou”.

Segunda. Toda matéria é dotada de potência, como visto, objetos físicos sofrem modificações. Assim, para que exista somente ato é necessário que inexista matéria, do contrário, haverá possibilidade (potência) de mudança. Neste aspecto, algumas passagens bíblicas são notáveis, vejamos o versículo 17 do primeiro capítulo de Tiago: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17).

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Matéria, tempo e espaço não existiam antes do universo; Deus é imaterial, atemporal e não espacial. Então, a partir do que Deus criou o universo? Como um artista plástico poderia criar uma obra indispondo de qualquer tipo de material? Bem, assim como o artista só poderia construir algo oriundo de si próprio, por exemplo, dos fios de seus cabelos, Deus deve ter criado o universo a partir de si mesmo, ou seja, por meio de uma reagrupação de parte do seu próprio ser, o que não significa que o panteísmo seja verdadeiro, pois o universo não é eterno. Analogamente, a natureza sempre ofereceu recursos para fabricar papéis, mas papéis não existem desde o início do universo; ou ainda, automóveis são bens artificiais, ao decompor os elementos de um veículo podemos, por exemplo, descobrir que determinado material é um compósito, mas, se decompormos cada vez mais, no final será constatado que tudo deriva da natureza. Papeis e automóveis não são naturais, mas jamais existiram ou existirão sem a natureza; o universo não é Deus, mas jamais existiu ou existirá sem Ele.

Se o universo é uma propriedade de Deus, não é coerente que Ele seja onipresente, onisciente e onipotente? Astrofísicos afirmam que se chegássemos ao fim do universo e déssemos “um passo” a mais, retornaríamos ao início do cosmo, portanto, somos partes inseparáveis do universo, assim sendo, não é consistente considerar que é impossível nos “destacarmos” de Deus para observá-lo de fora? No quinto livro do Novo Testamento, conhecido como Atos dos Apóstolos, o capítulo 17 descreve que Paulo, o apóstolo, proferiu: “Nele [em Deus] vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28). Aqui não constatamos uma perfeita harmonia com os conceitos anteriores? E, se o método cientifico visa reunir evidências empíricas baseadas em observações sistemáticas e controladas, qual a utilidade deste conceito para provar a existência de Deus?

“A impossibilidade de provar que Deus não existe, é a melhor prova de sua existência.”, Jean de la Bruyere (1645 – 1696).

Métodos científicos contribuem na solução de crimes; métodos investigativos resolvem! O DNA contido em uma única gota de suor pode provar que um assassino estava em determinado local, mas não pode provar que cometeu o assassinato, – pode evidenciar, mas não pode provar! Até mesmo o personagem fictício criado pelo médico e escritor, Arthur Conan Doyle (1859 – 1930), Sherlock Holmes, ficou famoso não apenas pelo uso do método cientifico, mas pelo uso do método cientifico mais a lógica dedutiva! Com Deus, idem -, a ciência pode evidenciar Deus, mas não pode provar a existência Dele. Se fosse possível provar cientificamente a existência de Deus, estaria provado que o “Deus da Bíblia” não existe, mas o deus escarnecido pela mídia, seria um fato, ou seja, provaríamos que uma espécie de coisa maior (deus), criou outras coisas menores (como nós).

Como diria Olavo de Carvalho, “Para uma formiga, uma lagartixa é um dinossauro”; para muitos, por ignorância ou arrogância, Deus é apenas o dinossauro dos homens!

Escrito por Eric M. Rabello.

Compreenda as cinco vias tomistas que evidenciam a existência de Deus. Assista aula ministrada pelo Professor Orlando Fedeli (1933 – 2010):

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