Doentes pacientes; pecadores impacientes


A coragem significa um forte desejo de viver, sob a forma de disposição para morrer.”, G. K. Chesterton (1874 – 193): jornalista e escritor Inglês.

Você não pode concluir uma soma do jeito que prefere; mas uma história sim. Quando alguém descobriu o Cálculo Diferencial, havia apenas um Cálculo Diferencial a descobrir. Mas quando Shakespeare matou Romeu, ele poderia tê-lo casado com a velha babá de Julieta, se ele se sentisse inclinado a fazê-lo. E a cristandade sobressaiu-se na narrativa romanesca exatamente porque insistiu no livre-arbítrio teológico.

Se você diz que vai curar um devasso como se cura um asmático, minha resposta fácil e óbvia é esta: “Apresente as pessoas que querem ser asmáticas uma vez que muitas querem ser devassas”. Um homem pode ficar deitado inerte e curar-se de uma enfermidade. Mas ele não pode ficar deitado inerte se quiser curar-se de um pecado. Pelo contrário, ele precisa levantar-se e correr por aí feito louco.

A questão toda de fato está expressa à perfeição na própria palavra usada para quem está hospitalizado: “paciente” tem um sentido passivo; “pecador” tem um sentido ativo. Se um homem quiser se salvar de uma gripe, ele pode ser paciente. Mas se quiser se salvar de uma falcatrua, ele não pode ser paciente, tem de ser impaciente. Ele deve sentir-se impaciente com a falcatrua. Toda reforma moral começa na vontade ativa, não na passiva.

Aqui mais uma vez chegamos à mesma conclusão substancial. Na medida em que desejamos as reconstruções definidas e as perigosas revoluções que caracterizaram a civilização europeia, não devemos desencorajar a ideia de uma possível ruína; devemos antes encorajá-la. Se quisermos, como os santos orientais, meramente contemplar como as coisas estão certas, naturalmente devemos apenas dizer que elas estão certas. Mas se quisermos particularmente fazê-las dar certo, precisamos insistir que elas podem dar errado.

Por último, essa verdade é mais uma vez comprovada no caso das tentativas modernas comuns de diminuir ou de explicar racionalmente a divindade de Cristo. O caso pode ser verdadeiro ou não; tratarei disso antes do fim. Mas, se a divindade de Cristo é verdadeira, ela é com certeza terrivelmente revolucionária. Que um homem bom possa assumir uma posição defensiva não é dizer mais do que já sabíamos; mas que Deus pudesse assumir uma posição defensiva é um motivo de vanglória para todos os insurgentes para sempre.

O cristianismo é a única religião do mundo a sentir que onipotência tornava Deus incompleto. Apenas o cristianismo sentiu que Deus, para ser totalmente Deus, deve ter sido rebelde bem como rei. Dentre todos os credos, o cristianismo foi o único que acrescentou a coragem às virtudes do Criador. Pois a única coragem digna desse nome deve necessariamente significar que a alma passa por um ponto de ruptura e não se parte.

Dizendo isso, de fato estou abordando uma questão que não é fácil discutir porque é obscura e terrível; e peço desculpas de antemão se algumas de minhas frases não forem bem entendidas ou se eu parecer irreverente no tocante a um assunto que os maiores santos e pensadores com razão recearam abordar. Mas naquela história terrível da Paixão há uma distinta sugestão emocional de que o autor de todas as coisas (de algum modo impensável) não apenas passou pela agonia, mas também pela dúvida. Está escrito: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Não, mas o Senhor teu Deus pode tentar-se a si mesmo; e tem-se a impressão de que foi isso o que aconteceu no Getsêmani.

Num jardim Satanás tentou o homem; e num jardim Deus tentou Deus. De alguma forma sobre-humana ele passou pelo horror humano do pessimismo. O mundo foi abalado e o sol desapareceu do céu não no momento da crucificação, mas no momento do grito do alto da cruz: o grito que confessou que Deus foi abandonado por Deus.

Esta postagem contém um excerto da obra: “Ortodoxia”, escrita por  GK. Chesterton (1874 – 193). O livro que expõe muitas das nossas “contradições” cotidianas está registrado sob ASBN: B00CKXXC3M. É publicado pela Mundo Cristão.

E agora deixemos que os revolucionários escolham um credo dentre todos os credos e um deus dentre todos os deuses do mundo, ponderando com cuidado todos os deuses de inevitável recorrência e poder inalterável. Eles não encontrarão um outro deus que tenha ele mesmo passado pela revolta. Não (a questão torna-se difícil demais para a fala humana), mas deixemos que os próprios ateus escolham um deus. Eles encontrarão apenas uma divindade que chegou a expressar a desolação deles; apenas uma religião em que Deus por um instante deixou a impressão de ser ateu.

Esses podem ser chamados de pontos essenciais da velha ortodoxia, cujo mérito principal é o de ser a fonte natural de revoluções e reformas; cujo defeito principal é o de obviamente consistir apenas em afirmações abstratas. Sua principal vantagem é a de ser a mais corajosa e viril de todas as teologias. Sua principal desvantagem é simplesmente a de ser uma teologia. Sempre se pode insistir que ela, por sua natureza, é arbitrária e fica no ar. Mas não fica tão alto no ar para impedir que grandes arqueiros passem toda a vida desferindo flechas contra ela — isso mesmo, e até suas últimas flechas. Há homens que destroem a si mesmos e destroem a própria civilização se também puderem destruir essa fantástica história.

Esse é o fato supremo e mais aterrador envolvendo a fé: que seus inimigos usarão qualquer arma contra ela, as espadas que cortam os próprios dedos e as achas que queimam as próprias casas. Homens que começam a combater a Igreja em benefício da liberdade e da humanidade terminam jogando fora a liberdade e a humanidade só para poderem com isso combater a Igreja. Não é exagero. Eu poderia encher um livro com exemplos disso.

O sr. Blatchford iniciou, como um demolidor bíblico comum, querendo provar que Adão não teve culpa em seu pecado contra Deus; manobrando para defender essa ideia, ele admitiu, como mera questão secundária, que todos os tiranos, de Nero ao rei Leopoldo, não tiveram culpa em nenhum de seus pecados contra a humanidade. Conheço um homem que tem tal paixão por provar que ele não terá uma existência pessoal depois da morte que recorre à tese de que ele não tem uma existência pessoal agora. Invoca o budismo e diz que todas as almas desaparecem uma na outra. Para provar que não pode ir para o céu ele prova que não pode ir para a cidade de Hartle-pool.

Conheci pessoas que protestavam contra a educação religiosa com argumentos contra qualquer tipo de educação, dizendo que a mente da criança deve crescer livre ou que os mais velhos não devem ensinar aos jovens. Conheci pessoas que demonstraram que não poderia existir nenhum julgamento divino mostrando que não pode haver nenhum julgamento humano, nem mesmo em prol de objetivos práticos. Elas queimaram o próprio trigo para atear fogo à Igreja; destruíram as próprias ferramentas para destruí-la; qualquer pedaço de pau era bom para bater nela, mesmo que fosse o último pedaço de sua mobília desmantelada.

Não admiramos, mal desculpamos o fanático que destroça este mundo pelo amor do outro. Mas que devemos dizer do fanático que destroça este mundo por causa do ódio pelo outro? Ele sacrifica a própria existência da humanidade à não existência de Deus. Oferece suas vítimas não para o altar, mas simplesmente para afirmar a inutilidade do altar e o vazio do trono. Ele está disposto a destruir até mesmo aquela ética primária pela qual todas as coisas vivem, em prol de sua estranha e eterna vingança contra alguém que jamais sequer viveu.

E, no entanto, a coisa pende dos céus, incólume. Seus opositores só conseguem destruir tudo aquilo a que eles mesmos com justiça dão valor. Não destroem a ortodoxia; destroem apenas o sentido comum e político de coragem. Não provam que Adão não foi responsável perante Deus; como poderiam fazê-lo? Provam apenas (a partir de suas premissas) que o czar não é responsável perante a Rússia. Não provam que Adão não deveria ter sido punido por Deus; provam apenas que o patrão explorador mais próximo não deveria ser punido pelos homens.

Com suas dúvidas orientais sobre a personalidade, não nos dão certeza de que não teremos uma vida pessoal depois da morte; apenas nos dão certeza de que não teremos uma vida muito divertida ou completa aqui. Com suas sugestões paralisantes de que todas as conclusões saem erradas, não rasgam o livro do Anjo do Registro; apenas tornam um pouco mais difícil fazer a contabilidade de Marshall & Snelgrove. Não é apenas verdade que a fé é a mãe de todas as energias deste mundo, mas é também verdade que os inimigos dela são os pais de toda a confusão do mundo.

Os secularistas não destruíram coisas divinas; destruíram coisas seculares, se isso servir de algum conforto para eles. Os Titãs não escalaram o céu; mas devastaram o mundo.

Extraído da obra: “Ortodoxia, escrita por: GK. Chesterton (1874 – 193).
Publicado pela Editora Mundo Cristão, sob ISBN: 9788543302751.

Nota da editoria da Culturateca:

O título desta postagem (“Doentes pacientes; pecadores impacientes”) foi baseado no terceiro parágrafo deste excerto. Não faz parte de nenhuma epígrafe do livro.

Quem foi GK. Chesterton (1874 – 193)? Assista ao vídeo anexo, nele o Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior comenta sobre a vida do autor deste artigo:

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