Espirito moderno


A marcha da ciência é como a nossa planície do deserto: o horizonte foge sempre.”,
Graça Aranha (1868 – 1931).

O primitivismo dos intelectuais é um ato de vontade, um artificio como o arcadismo dos acadêmicos. O homem culto de hoje não pode fazer tal retrocesso, como o que perdeu a inocência não pode adquiri-la. Seria um exercício de falsa literatura naqueles que pretendem suprimir a literatura. Ser brasileiro não é ser selvagem, ser humilde, escravo do terror, balbuciar uma linguagem imbecil, rebuscar os motivos da poesia e da literatura unicamente numa pretendida ingenuidade popular, turvada pelas influencias e deformações da tradição europeia. Ser brasileiro é ver tudo, sentir tudo como brasileiro, seja a nossa vida, seja a civilização estrangeira, seja o presente, seja o passado. É no espirito que está a manumissão nacional, o espirito que pela cultura vence a natureza, a nossa metafisica, a nossa inteligência e nos transfigura em uma força criadora, livre e construtora da nação.

O movimento espiritual, modernista, não se deve limitar unicamente à arte e à literatura. Deve ser total. Há uma ansiada necessidade de transformação filosófica, social e artística. É o surto da consciência, que busca o universal além do relativismo cientifico, que fragmentou o Todo infinito.Capa do livro: Espirito Moderno, de Graça Aranha

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Tudo se harmoniza, espirito e natureza, no fulgurante ambiente brasileiro. O céu não é leve nem sutil para alimentar ideias de débil e fria beleza. Não é um céu clássico para cobrir acadêmicos. É um céu ardente, escandecido, longínquo e implacável, que aspira as forças da natureza, homens e coisas, os eleva, os engrandece e os dissolve na imensidade da luz. O dinamismo brasileiro tem o seu segredo na profunda harmonia com as forças do universo, que aqui se apresentam fecundas, céleres, voláteis, vorazes. Não percamos o equilíbrio neste jogo arriscado com a eternidade. Sob este céu, encerrados neste quadro da energia tropical, debatem-se os espíritos dos homens. À margem desta baia, que o mar fecunda e que a terra contempla numa elevação extática, os sonhos dos jovens brasileiros se cruzam. Tudo é nítido no espaço ardente; a água lisa espelha, as ilhas reluzem, as casas inflamam-se, vapores, cúpulas, navios, zimbórios, azulejos, pedras, arvores, tijolos, barcos, tudo pesa e tudo se agita. É o movimento universal na quietação luminosa. Na ânsia de posse da Terra e de libertação espiritual, uma voz dirá:

“Tudo isto me apavora e a minha alma não se harmoniza com esta loucura das forças da natureza. A consciência antiga separa-me do Todo e afasta-me da terra, desconhecida. Volto ás raízes do meu espirito. Os meus olhos fecham-se a esta luz agressiva e só veem a claridade serena, que iluminou a alma dos meus antepassados europeus. Torno á terra antiga da civilização, reintegro-me no mundo clássico, com que se harmoniza o meu pensamento. Há uma volúpia no Passado, que é a atração da morte”.

Outra voz responderá:

“Este é o meu Brasil. A nossa união é imorredoura. Nada me afasta da sua energia transcendente, que vibra na minha alma e alegra a minha fusão com esta terra exaltada e fascinante. Os meus olhos não se voltam para o Oriente, de onde vieram os meus antepassados, eles só fitam a imensidade da terra, que avança para o Ocidente, e é um dom da energia da minha raça. Repilo os artifícios do Passado, deslocado nesta feliz magnificência sem historia, nem antiguidade humana. Destruo toda esta arquitetura de importação literária, grega, rococó, colonial, servil. Destruo toda esta escultura convencional e imbecil, esta pintura mofina. Destruo toda esta literatura acadêmica, romântica, literatura que só é literatura e não vida e energia. Construo com o granito, com o ferro, com a madeira, que a terra pródiga me oferece, a morada simples, clara, forte, graciosa do brasileiro. Ergo os palácios, as fabricas, as estações, os galpões, não copiando as nossas florestas, os nossos montes, mas com a força dinâmica libertadora do espirito moderno, que cria coisa própria. Recolho a língua do meu povo e transformo a sua poesia em poesia universal. Faço da minha atualidade a forja do Futuro”.

Escrito por Graça Aranha (1868 – 1931).
Excertos da obra “Espirito moderno”, escrita em 1925.
Faça download do livro em formato PDF, clicando aqui.

Publicamos este excerto visando dois objetivos. Primeiro, avaliar o quanto o escrito de 1925 ainda é válido; segundo, desfazer conceitos comumente errôneos associados ao escritor Graça Aranha. Para auxiliar no nosso segundo objetivo, anexamos um curto e esclarecedor vídeo produzido por Rodrigo Gurgel, o qual foca outra obra (Cannã) do mesmo escritor (Graça Aranha), mas deixa clara a visão que detinha José Pereira da Graça Aranha, mais conhecido apenas como Graça Aranha.

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