O mal na política


Este artigo foi originalmente publicado pelo website Mídia Sem Máscara, em 14 de março de 2007. Trata-se de um escrito de âmago eviterno, o qual julgamos útil republicá-lo neste tumultuoso período que precede as eleições presidenciais de 2018.

As pessoas imaginam saber o que é o mal. Mas é engraçado como elas frequentemente deixam de identificá-lo corretamente, ou o subestimam quando ele está bem em sua frente. Fazem um julgamento melhor só mais tarde, quando todos vêem o que aconteceu e os detalhes já se tornaram inquestionáveis. O mal em Hitler não foi reconhecido imediatamente pela sociedade. Levou tempo para as pessoas verem o que ele era. Nos anos 30, quando Hitler estava em ascensão, somente uma minoria atenta conseguiu enxergar com antecedência o que ele representava e no que daria. E mesmo quando seus crimes foram mostrados ao mundo, muitos se negaram a acreditar que eles haviam sido cometidos, ou que Hitler tivesse conhecimento deles. Temos o caso recente do historiador britânico, David Irving, e toda a escola dos “revisionistas” e negadores do Holocausto.

O que é mais interessante, creio eu, é que Hitler escreveu e falou sobre seus planos com antecedência portanto, qualquer curioso que se desse ao trabalho de estudar seus pronunciamentos, poderia ver o que ele pretendia. Obviamente, Hitler dizia muitas mentiras e se protegia com afirmações enganosas para despistar as pessoas. Mas o cerne de sua filosofia foi exposta claramente. Ele prometeu erradicar os judeus da Europa. Falou sobre a tomada de terras no Oriente. Acreditava na vitória do mais forte. Ao mesmo tempo, era comprometido com uma interpretação conspiratória da história (enquanto toda sua carreira foi um estudo sobre conspiração). O fanatismo, nascisismo e demagogia de Hitler, combinados com um conjunto específico de idéias irracionais e alegações falsas, levaram diretamente a uma guerra mundial em que mais de 50 milhões de pessoas foram mortas. Esse homem foi a epítome do mal. Exemplificou com precisão o padrão da ambição distorcida, o que é reconhecido por quase todos ao ponto da banalização.

Uma interessante biografia de Hitler foi compilada pelos soviéticos no final da Segunda Grande Guerra. Eles haviam capturado seus asseclas mais próximos e os interrogado minuciosamente. Desses interrogatórios, montaram um retrato do homem e o repassaram a Stálin. Esse livro não tinha como finalidade o público. Foi escrito somente para Stálin e revelava a psicologia do ditador impiedoso. Hitler foi uma pessoa incrivelmente egoísta com um enorme desejo de poder. Foi um ator, uma fraude, assassino e neurótico. O livro acaba de ser publicado e traduzido para o inglês como “The Hitler Book: The Secret Dossier Prepared for Stalin from the Interrogations of Hitler’s Personal Aides” [O Livro de Hitler: O Dossiê Secreto Preparado para Stálin a partir dos Interrogatórios dos Assistentes Pessoais de Hitler].

Considero interessante o fato de Hitler eventualmente expressar sua admiração por Stálin. Ele admirava especialmente a forma como Stálin fazia com que sua burocracia cumprisse ordens. Todos sabemos, evidentemente, que Stálin governava através do medo. Ele providenciou muitas execuções. Enviou milhões para campos de trabalho forçado. Stálin tinha espiões observando seus espiões e possuía informações sobre o que todos faziam. Assim, as pessoas tinham de fazer o que ele mandava, senão arriscavam morrer. Stálin era, portanto, como um deus. Sabia tudo. Pelo menos em teoria, o sistema lhe permitia saber mais do que qualquer outra pessoa. O sistema stalinista conseguiu, desta forma, atingir e manter certos objetivos. Não era economicamente eficiente, no sentido de uma sociedade livre, mas tinha eficiência administrativa. E a competição entre empresas estatais, quando permitida, tornou possível aos russos produzir ótimos armamentos em grandes quantidades, inclusive a bomba atômica. Nada mais natural que Hitler admirasse os métodos de Stálin. Richard Overy nos informa, no Prefácio a “The Hitler Book”, que Stálin admirava o expurgo que Hitler havia feito na SA em 1934 (a “Noite das Facas Longas”). “Hitler”, disse Stálin com um suspiro, “que grande homem! Essa é a forma de se lidar com os oponentes políticos” (ou seja, matá-los). E podemos ver, depois dos assassinatos de Alexander Litvinenko e Anna Politkovskaya, no final do ano passado, que esse ponto de vista é compartilhado pelo atual ocupante do Kremlin.

Stálin acreditava que ele e Hitler teriam feito um par invencível. No final da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler estava começando a aceitar que havia cometido muitos erros, diz Overy que Hitler considerou “o que os dois homens poderiam ter feito em conjunto” se, ‘com um realismo implacável’, tivessem tentado construir uma “entente duradoura’”. Basta olhar o atual “Tratado da Amizade” sino-russo para perceber que assassinos ainda sabem como cooperar. Moscou e Pequim aprenderam a lição da Segunda Guerra Mundial. A parceria totalitária entre os dois grandes países pode conseguir muitas coisas porque todos temem um novo e desagradável confito. O Ocidente não consegue imaginar uma guerra contra uma poderosa combinação como essa entre a Rússia e a China. Ainda mais significante, eles juntaram a Índia e o Brasil à sua aliança e estão envolvidos em uma guerra econômica contra os Estados Unidos.

Está claro também que o Ocidente não está preparado para fazer nada realmente sério para conter as afrontas do presidente russo, Vladimir Putin. O posicionamento de uns poucos mísseis anti-balísticos na Polônia e na República Tcheca não ajuda em nada. Só deu ao presidente russo um pretexto para se rearmar e romper com o Tratado de Não-Proliferação. Devido a essa inútil arregimentação de foguetes interceptadores parcialmente desenvolvidos, Putin culpa os EUA e a OTAN pelo que fez em seguida. “Estão nos provocando”, diz ele. “Estão ameaçando a Rússia”. A capacidade militar da OTAN está um caos. Não pode realmente ameaçar ninguém. Seus membros estão divididos e há problemas de orçamento militar. Apesar disso, Putin diz que ela é um grande bicho papão e anuncia a necessidade da Rússia se rearmar. Depois de seu país receber centenas de bilhões em ajuda e empréstimos do Ocidente, inclusive em assistência técnica e alimentos, arregimentar uns poucos mísseis de defesa na fronteira oriental da OTAN se transforma em uma súbita justificativa para grandiosos preparativos de guerra. E advinhem quem tornou esses preparativos possíveis? Quem forneceu à Rússia os instrumentos para se rearmar? Ah, sim, o Ocidente está pronto para pegar a Rússia. Então por que o Ocidente desenvolveu o poderio russo nos últimos 15 anos?

Nada melhor do que descobrir um inimigo,preparar a vingança e depois dormir tranquilo.”, Joseph Stalin (1878 – 1953).

Ao desenvolver seu poderio, Hitler e Stálin compreenderam que seus oponentes estavam em desvantagem. O Ocidente quer paz. Acredita na liberdade. Os países democráticos abrigam socialistas e militantes pacifistas. O governante totalitário assassina seus rivais e críticos. Não há movimento pela paz na China e na Rússia. Pensem nisso por um minuto. É muito significativo. O Ocidente se prende a controvérsias enquanto o governante totalitário segue em segredo com seus preparativos militares. Você esperaria que o povo se insurgisse e esmagasse um tirano. George Bush esmagou a tirania de Saddam Hussein, mas agora Bush virou um vilão, não um herói. Pensem nisso também. E deveríamos nos perguntar o que aconteceu em Pequim quando as pessoas se insurgiram para protestar contra o regime comunista, há cerca de duas décadas. Tanques passaram por cima dos que protestavam. E o que aconteceu depois? O mesmo que no Terceiro Reich. Hitler matou seus opositores, destruiu a constituição democrática da Alemanha e governou sem lei. E o que as potências ocidentais fizeram? Stálin matou os kulaks de fome, providenciou o assassinato de Kirov e fez um expurgo no Exército Vermelho. Mas as pessoas fecharam os olhos. Negaram a seriedade do problema. Se Hitler e Stálin não tivessem se virado um contra o outro, o Ocidente não teria sobrevivido.

A triste verdade é que nós nos recusamos a reconhecer o mal porque não queremos a responsabilidade e o risco inerentes ao seu combate. Enxergarmos um grande mal nos torna responsáveis por fazer alguma coisa. A escolha moral é clara. Se você vir um bebê engatinhando para um abismo, você tem a responsabilidade de tirá-lo do perigo. Que tipo de gente diria que a segurança do bebê não é de sua responsabilidade? Todos sabemos o que se espera de nós sob tais circunstâncias, e o problema de um grande mal político nos leva para o domínio da responsabilidade. E acredito que seja para evitar essa responsabilidade que temos tanto gosto em confundir as questões morais insistindo nos erros dos governos ocidentais enquanto ignoramos o Oriente totalitário. Esquecemos o que significa o totalitarismo?

Estamos prontos para sacrificarmos nossas almas, nossas crianças e nossas famílias para não entregar o Iraque. Assim dizemos e ninguém acreditará que a América é capaz de violar a vontade dos iraquianos com suas armas.“, Saddam Hussein (1937 – 2006).

Que tal centenas de milhões de mortos pela fome, pela guerra e trabalhos forçados? Vejam Saddam Hussein, por exemplo. Seus dois heróis principais eram Hitler e Stálin. Matou centenas de milhares de pessoas e a única razão de não ter matado dezenas de milhões foi a pequena dimensão de seu país e a falta de oportunidade. No entanto, cometeu atos de agressão militar contra dois países vizinhos. Usou armas químicas contra civis. Seu povo sofreu por décadas sob um regime de prisões arbitrárias, tortura e assassinato. E então, quando os americanos chegam e colocam roupas femininas em prisioneiros iraquianos, dizem-nos para lamentar o horror do poderio americano. Saddam não forçou homens a usar vestidos. Cortou seus testículos ou os eletrocutou. Desculpem-me pelo realismo, mas devemos dizer essas coisas às crianças adultas de nossa época. Há escalas de comparação e há idiotas demais que não sabem dar o peso devido às coisas.

E se o mundo tivesse reconhecido a maldade de Hitler ainda em 1933? Quantas vidas teriam sido salvas? Quanta destruição, perda e sofrimento teriam sido evitados? Isso somente demonstra que não aprendemos nada com o século XX. Estamos preparados para repetir todos os nossos velhos erros – da Grande Depressão e mesmo das guerras mundiais. O presidente dos EUA sabe, lá dentro, que seu “parceiro” russo é um ditador que mata jornalistas, que usa radioatividade para envenenar os críticos no Ocidente e, mesmo assim, Bush se recusa a dizer que Putin é um ditador. Bush não dirá que os líderes chineses são assassinos que massacraram seu próprio povo na Praça da Paz Celestial. Não pode dizer isso, pois o que manda é a conciliação e a popularidade de George W. Bush anda muito baixa. Os Estados Unidos comprometeram seu sistema econômico e, conseqüentemente, seu sistema político.

Goethe disse uma vez que, “apesar de todas as forças que nos cercam, devemos nos manter erguidos”. E, agora mesmo, há forças se aproximando. Estão cercando o mundo livre. Querem erradicar a liberdade. Estão entre nós, nas nossas próprias universidades. Essas forças estão firmemente entrincheiradas nas capitais estrangeiras – em Moscou, em Pequim, Teerã e Havana. E essas forças reconhecem umas às outras e percebem que há uma causa comum entre elas. Ouça o que essas pessoas estão dizendo e perceba de onde vêm. Há vozes hoje em dia, assim como em 1936. Há fascistas ambientalistas, socialistas, racistas minoritários e os que odeiam os Estados Unidos. Recordamos ainda o que essas vozes significam? Prometendo liberdade, nos darão seu exato oposto.

Percebemos o perigo? Não. Estamos ocupados, presos ao nosso estilo de vida superior. Queremos aproveitar as coisas boas. Gastamos dinheiro que não temos. Tomamos emprestado e estimulamos em nossos jovens a mentalidade do “direito adquirido”. Perdemos a temperança. Não acreditamos mais no dever. E agora não temos o tempo e a energia para reconhecer os inimigos (externos e domésticos). Para os que pensam que os EUA estão jogando no “grande” tabuleiro internacional, tenho uma notícia. Na realidade, os EUA não estão jogando. Os EUA não têm uma estratégia coerente e não possuem instituições com a capacidade de criar uma. Estamos em uma guerra “contra o terror” enquanto os grandes inimigos, com os grandes batalhões, nos preparam para a matança. Os EUA não são tão poderosos como as pessoas geralmente pensam. O poderio militar é geralmente mal-compreendido devido à sua complexidade. Mesmo que a Rússia e a China sejam mais fracas que os Estados Unidos (e isso é questionável), sua crueldade lhes dá um tipo de poder que não conseguimos dominar. É o poder do qual todo o ditador se aproveita.

A Segunda Guerra Mundial iniciou-se com um pacto entre duas grandes ditaduras. Em 1939, Hitler e Stálin se uniram para destruir a Polônia. Não é possível que a próxima guerra mundial envolva um pacto semelhante entre ditadores?

O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler.”, Mark Twain (1835 – 1910): Escritor e palestrante norte-americano.

As pessoas não leem história como deveriam e não reconhecem o padrão da tirania, os comportamentos clássicos de um tirano. Olham para alguém como o presidente americano e não gostam do que ele está fazendo, ou pensam que “as empresas petrolíferas malvadas” estão por trás dele, ou outros absurdos, e imaginam que estão vendo o mal de sua época em ação. Mas essa visão não faz sentido moral ou estratégico. A esquerda totalitária existe em todos os países e existe também nos Estados Unidos. A única coisa que as empresas petrolíferas fazem é nos trazer energia barata, enfrentando a crescente resistência de grupos ambientalistas.

Você acha que as políticas ruins de Washington são o mal? É realmente lamentável. Como os alemães antes de Hitler, estamos tão ocupados em vilipendiar Weimar que não conseguimos ver a ascensão da suástica negra e da estrela vermelha. A república americana é imperfeita e suas políticas não são o que deveriam ser. Mas isso não significa que não há políticas piores por aí e países piores. Há pouco tempo o porta-voz de defesa dos conservadores britânicos, Liam Fox, disse à Câmara dos Comuns que a Rússia estava se rearmando rapidamente enquanto “os olhos do Ocidente olham para outro lugar”. Consideremos agora a quem deveríamos agradar. E também o que significa essa ação da Rússia.

Escrito por Jeffrey R. Nyquist. Traduzido por Caio Rossi.
Publicado originalmente por Mídia Sem Máscara, em 14 de março de 2007.

Em complemento, ouça Olavo de Carvalho respondendo ao questionamento de Eduardo Bolsonaro: “O que é fascismo?”:

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