O melhor trabalho do mundo


A razão não me ensinou nada. Tudo o que eu sei foi-me dado pelo coração.”, Leon Tolstói (1828 – 1910): escritor do Império Russo.

Quando me propus, com o aval de meu marido, a iniciar as atividades de educação domiciliar complementares à escola, em pouquíssimo tempo descobri-me, como diz o ditado, “em um mato sem cachorro”.

Diferentemente dos norte-americanos, que são referência mundial no assunto, possuindo dezenas, ou até centenas, de modelos, metodologias e propostas curriculares, nós, aqui no Brasil, precisamos reinventar a roda, pois não há uma proposta curricular detalhada voltada ao ensino nos lares.

E agravando um pouco a minha situação particular, não possuo formação pedagógica (embora hoje em dia eu suspeite da maioria das formações “superiores” na área das humanas), de modo que a sensação de insegurança vai e volta quando preciso explicar, por exemplo, subtração de centena ou a diferença entre os acentos circunflexo e agudo, pois nunca tenho certeza se estou adotando o método mais adequado.

No entanto, apesar das dificuldades, não desisti da missão, mas prossegui lendo (especialmente blogs e sites de mães cristãs norte-americanas praticamente do ensino doméstico), pesquisando, falando com pessoas que estão mais familiarizadas com o assunto do que eu e, com o tempo, fui percebendo que, mais que uma questão meramente curricular, de conteúdos, o homeschooling é também e principalmente uma mais abrangente compreensão do próprio conceito de educação.

Ao trazer para dentro de casa e ter sob os meus cuidados a alfabetização, a caligrafia, as noções gerais de matemática, os cálculos, fui percebendo que não apenas o que eu ensinava era (e é) importante, mas também como eu ensinava e quando. Ou seja, no ambiente doméstico, onde não se tem um espaço físico exclusivo para a realização das atividades, onde os relacionamentos não têm um limite de horário e de contexto, quando se tem outra criança, de outra faixa etária, ao redor, e quando muitas outras demandas paralelas precisam ser administradas e sanadas, o conceito de educação adquiriu uma outra proporção, conectando-se a muitas outras esferas e atividades que eu antes julgava alheias à questão. Estabeleceu-se uma tal integração das diferentes partes e momentos da vida como eu, até hoje, jamais havia experimentado.

Leia também: “Por que estudar?”, por José Monir Nasser (1957 – 2013).

Percebi que a matemática não é ensinada apenas nos exercícios, mas também no relógio, no microondas, no super-mercado, na hora de fazer e servir a comida. Percebi que o português perpassa toda a nossa vida, e chama especial atenção sobre si quando estamos distraídos e de papo-furado. Compreendi que paciência, persistência e dedicação não são coisas para se fazer somente quando o lápis e o papel estiverem à mão, mas também na hora de arrumar a cama, de escovar os dentes, de secar a louça, de pentear o cabelo. Compreendi que reclamações gratuitas são como goteiras e por isso não podem, de forma alguma, ser aceitas, em ninguém. Entendi que disciplina não é um “programa bônus” que Deus colocou na alma de alguns sortudos, mas é um exercício que, antes de mais ninguém, eu preciso exercer comigo mesma, para servir de exemplo e de estímulo às crianças. Soube, então, que virtudes como obediência, fé, coerência, gratidão, humildade, cortesia e coragem realmente só fazem sentido quando personificados em gente de carne e osso, e que é melhor ainda quando essa “gente” é o pai e a mãe da gente.

Enfim, apesar de ainda não ofertar às minhas crianças uma educação exclusivamente domiciliar, de ainda não ter encontrado e/ou elaborado uma grade curricular completa que seja boa de verdade, sei, agora, que o homeschooling é mais que uma mera transferência de ambientes e de tutores: é um modo de viver a vida em família onde a busca pelo constante aprimoramento é o alvo. Nós, como família, não temos somente o desejo, mas buscamos, de fato, apesar dos empecilhos e erros, o crescimento intelectual, moral e espiritual de todos os nossos membros e estamos nisso empenhados 24 horas por dia, para a glória de Deus.

Desconheço trabalho mais abrangente e mais exigente que este, mas, a mim, parece-me não haver outro mais estimulante e recompensador.

Escrito por Camila Hochmüller Abadie.
Publicado originalmente pelo website Mídia Sem Máscara, em 27 de novembro de 2011.
A autora é mãe, esposa e mestre em filosofia. também edita o blog Encontrando Alegria.

Em complemento, assista a entrevista que Olavo de Carvalho concedeu ao editor chefe do blog “Como educar seus filhos”:

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