O que é a verdade e por qual motivo é tão difícil defini-la


Quem diz verdades perde amizades.”, São Tomás de Aquino (1225 – 1274): Padre dominicano, teólogo e filósofo italiano.

Comumente, desenhos animados buscam o entretenimento por meio do humor e, para tanto, frequentemente utilizam do artifício de impugnar as leis da física. Muitos de nós, senão todos, já assistimos a personagens que seguram lanternas das quais, ao acendê-las, a luz cai como água saindo de mangueira, ou motoqueiros de grande estatura que sobem e descem gigantescas ladeiras conduzindo motocicletas minúsculas, em velocidades altas e constantes. Falácias evidentes tornam o humor imanente!

Contudo, notoriamente, pensamentos como “Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade” [1] também estão presentes em nosso cotidiano, embora sejam obviamente associados a fatores não físicos, como éticos ou históricos [2]. Afinal, questionar “em qual século a terra tornou-se arredondada?” é tão plausível quanto afirmar que “algumas lâmpadas incandescentes produzem feixes de luz que escorrem como torrentes de água”! Qualquer realidade permanecerá inalterada mesmo quando rejeitada, desconhecida ou ignorada.

Mas, o que é a verdade? Talvez a única maneira de obter uma resposta abrangente e aceitável seja comutando o questionamento para: a verdade é relativa? Pois, não há exceções, quaisquer cenários convergem para esta última indagação. O exemplo do parágrafo seguinte elucida o conteúdo deste.

Inegavelmente, a capital do Estado de São Paulo é mais próxima do litoral do que a Capital Federal, ou seja, perceptivelmente são as relações desta ou de outras afirmações que trazem à tona veracidades (como esta) ou falsidades irrefutáveis. Afirmar “a Cidade de São Paulo é próxima” é tão inconsistente quanto proferir “quatro é o verdadeiro resultado de uma equação inexistente”. Não há silogismo de uma ou duas premissas, nem cálculos sem ao menos dois valores e um operador matemático.

Contudo, é fácil, lícito e necessário refutar aqueles que, (1) enchem o peito; (2) proclamam: “a verdade é relativa”; e, (3) finalizam tal discurso com um silencioso e forçoso “ponto final”. Não dizem ser ético arrancar o coração de alguém em função (relação) de um óbito e de um transplante; não dizem ser 360 graus o valor resultante da soma dos ângulos internos (em relação) de um retângulo. Apenas lhe dizem um genérico: “A verdade é relativa”. E, quando alguém declara tudo como relativo, mas não explicita relação alguma, na verdade, está lhe dizendo implicitamente que a verdade deve fluir em relação aos anseios dela, pois lhe diz “quatro”, antes de você expor a equação; diz-lhe “360 graus” antes de você referenciar um círculo, retângulo ou triângulo; diz-lhe “belo” ou “horroroso” antes de você expor o objeto, assim você sempre poderá ser a parte “errada” por, na realidade, estar rendida. Entretanto, tais relativistas são naturalmente desmascarados quando convertemos as afirmações deles em questionamentos.

Quando alguém afirmar “a verdade é relativa”, é útil interrogar: você está absolutamente certo disso?; quando nos é dito “a verdade não existe”, é válido questionar: Isso é verdadeiro?; quando exigirem algo como “é preciso ser maleável, veja a beleza em tudo”, é viável perguntar: é maleável de sua parte exigir que eu veja beleza em tudo? [3] Mas há algo inseparável de quaisquer verdades? Vejamos.

Considerando a verdade como relativa, e observando os três tipos de realidades apresentadas: físicas, éticas e metafísicas (como o resultado de dois mais dois), é possível, enfim, responder o que é a verdade e compreender se existe algo do qual ela é dessociável.

A verdade é Deus, a verdade está em Deus! E, talvez, para a surpresa de muitos há evidências (evidências não são provas!) empíricas no campo físico, e poéticas impregnadas por lógicas nos demais aspectos. Inicio pelas manifestações mais simples, as poéticas.

Verdades éticas

Imagine sendo azuis as folhas, os galhos e os troncos das árvores, assim como o céu e tudo nele e na terra contidos. Também suponha que a incidência de luz seja exatamente igual sobre tudo e todos. Se assim fosse, não notaríamos onde “terminam” nossas calças e onde “iniciam” os nossos sapatos, não diferenciaríamos os cumes das árvores dos pássaros ou da Lua. Em suma, seríamos cegos. E se todos fossem igualmente éticos e belos, tais virtudes seriam inteligíveis? Entenderíamos a significância de ser justo ou formoso? Ao menos uma verdade aqui se torna irrefutável: perfeições não são distribuídas homogeneamente – algumas pessoas são mais bondosas quando comparadas com outras, algumas paisagens são mais majestosas em relação a outras, não somos todos igualmente justos –, e se algumas “coisas” participam mais da beleza quando comparadas com outras, o belo existe de modo objetivo, assim como a benevolência, a justiça e todas as demais perfeições. Em analogia, quando observamos algo esverdeado e afirmamos nele existir certa “proximidade” com o índigo, implicitamente cremos na objetividade do azul; portanto, da mesma forma, quando afirmamos que José é bondoso, acreditamos na existência de uma Bondade Suprema.

Das cinco vias de São Tomás de Aquino, talvez nenhuma tenha tanta pujança para evidenciar Deus como a primeira, descoberta por Aristóteles (detém viés associável às ciências e à matemática), mas a quarta via, de origem platônica, remete a Ele justamente por meio dos graus de perfeição (é uma via “poética”), ou seja, evidencia Deus como justiça, bondade e demais virtudes em grau máximo, isto é, em quantidade infinita. Daqui é possível inferir conceitos teológicos (verdades) extremante plausíveis. Cito cinco:

Primeiro
Se “Nele [em Deus] vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17:28-30), então estamos todos “submersos” em Deus, logo, assim como um romance ainda não redigido não pode se eximir da consciência do autor, nós não podemos nos eximirmos de Deus. Como consequência, se Ele é infinitamente bom, o mal em sua totalidade não é plausivelmente cabível, e é justamente isso que observamos ao nosso redor, pois não encontramos ninguém que seja tão ruim que vise exclusivamente ao mal. Explico: um ladrão deseja um bem de uma forma má, assim como alguém que humilha outrem não faz para se sentir mal, mas deseja ter bons sentimentos de uma forma perversa. Em outras palavras, podemos nos exonerarmos do “bem” com a mesma intensidade que podemos nos abdicar da atmosfera.

Segundo
O infinito é indivisível, e se assim não fosse, poderíamos dividir um conjunto com uma quantidade infinita de elementos (extrair itens) para torná-lo finito [4]. Da mesma maneira, se Deus é infinitamente bom, infinitamente justo e, portanto, infinitamente perfeito, Ele não poderia nos criar infinitamente (igualmente) perfeitos, ou seja, ele não poderia dividir o infinito Dele conosco, mas poderia, e permitiu, “Nele vivermos, nos movermos e sermos”.

Terceiro
Pais não desejam que seus filhos se inspirem em pessoas medianas, mas ambicionam que sua prole tome por base indivíduos sublimes. Deus, sendo justo e bom, não aspira a que você venere um popstar, mas almeja que você e suas “celebridades” estejam próximos da perfeição Dele. Se Deus fosse soberbo, Ele iria desejar que você venerasse qualquer coisa que não fosse Ele. Obviamente, um absurdo!

Quarto
Se Deus é infinitamente perfeito, Ele é igualmente bom e justo, e diante da justiça máxima não há erro tão pequeno que possa ser ignorado e, portanto, pessoa tão perfeita que não deva ser a Ele temente. Tal fato é uma obviedade teológica ratificada pela crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo, afinal, Deus não ignorou os nossos pecados, nem abandonou sua bondade.

Quinto
“A verdade não é minha nem tua, para que possa ser tua e minha”. Este pensamento de Santo Agostinho expõe o cerne da última reflexão. Elucidando, suponha que alguém esteja atravessando uma rua e deixe cair uma moeda na metade da travessia, também conjeture que dois pedestres, cada um de um lado da via, tentem auxiliar simultaneamente o transeunte. Um grita: “ao lado direito”, e o outro diz: “ao lado esquerdo”. Ambos estão corretos, no entanto, seria realmente útil caso dissessem “próximo ao poste”, ou “olhe para o ponto mais iluminando no asfalto”. Aqui também é fundamental acrescentar que conflitos não ocorreriam se um pedestre preferisse moedas prateadas e o outro, douradas, pois tais escolhas seriam subjetivas, ou seja, estariam exclusivamente “dentro” e “para” cada sujeito. Seria análogo a dizer que o “braço direito” do transeunte sempre estará ao lado direito dele próprio; logo, o oposto se fez necessário para localizar a moeda, o foco precisou ser dirigido a algo externo em relação a todos os envolvidos, foi preciso apontar para algo objetivo como o “objeto luz” ou o objeto poste. Enfim, preferências são subjetivas, logo, não há nada de errado se um sujeito preferir laranjas e outro, tangerinas. No entanto, se, entre eles, um pedir tangerinas e o outro entregar laranjas, talvez ambos devam consultar outro objeto, como um catálogo de frutas.

É contundente expor que as reflexões anteriormente mencionadas (procedentes da quarta via de São Tomás de Aquino) não objetivam, aqui, a fortalecer a crença na existência de Deus, mas visam a, sobretudo, expor a necessidade da existência de fundamentos morais externos e acessíveis a todos nós. Afinal, quando apontamos para questões como pena de morte, aborto ou qualquer outro “objeto” anexo à ética, podemos tomar posições similares àquelas adotadas pelos transeuntes, ou seja, podemos esbravejar “pela direita” ou “pela esquerda”, tornando nossa “comunicação” subjetiva e frequentemente desprezível, ou podemos buscar referências objetivas. Contudo, apenas as considerações anteriores justificam situar o cristianismo como referência para todos nós? [5] Talvez, duas ponderações auxiliem nesta resposta.

Primeira Ponderação

Não é preciso executar pesquisas complexas, nem portar longos documentos para afirmar que, se ao nosso redor, o cristianismo for praticado por muitos, então, furtos, descriminações e outros problemas éticos serão incomuns; reinarão aspectos como o da generosidade. Na verdade, não é preciso mencionar nem mesmo um versículo inteiro. Basta expor a moralidade anunciada pelo excerto: “Ame o seu próximo como a si mesmo” (MT 22:39).

Mas realmente sabemos o que significa “amar ao próximo como a si mesmo”? Na obra Cristianismo Puro e Simples, o autor, C. S. Lewis (1898 – 1963), faz análise claríssima:

“Amar o próximo” não significa “ter grande simpatia por ele” nem “considerá-lo um grande sujeito”. Isso já deveria ser evidente, pois não conseguimos gostar de alguém por esforço. Será que eu me considero um bom camarada? Infelizmente, às vezes sim (e esses são, sem dúvida, meus piores momentos), mas não é por esse motivo que amo a mim mesmo. Na verdade, o que acontece é o inverso: não é por considerar-me agradável que amo a mim mesmo; é meu amor próprio que faz com que eu me considere agradável. Analogamente, portanto, amar meus inimigos não é o mesmo que considerá-los boas pessoas. O que não deixa de ser um grande alívio, pois muita gente imagina que perdoar os inimigos significa concluir que eles, no fim das contas, não são tão maus assim, ao passo que é evidente que são. Vamos dar um passo adiante. Nos meus momentos de maior lucidez, vejo que não somente não sou lá um grande sujeito como posso ser uma péssima pessoa. Recuo com horror e repugnância diante de certas coisas que fiz. Logo, isso parece me dar o direito de me sentir horrorizado e repugnado diante dos atos de meus inimigos. Aliás, pensando no assunto, lembro que os primeiros mestres cristãos já diziam que se devem odiar as ações de um homem mau, mas não odiar o próprio homem; ou, como eles diriam, odiar o pecado, mas não o pecador.

À frente, Lewis acrescenta:

Será que amar o inimigo quer dizer que não devemos puni-lo? Não, de maneira alguma. O amor que sinto por mim não me exime do dever de me submeter à punição — nem mesmo à morte. Se você cometesse um assassinato, a coisa correta a fazer, segundo o cristianismo, seria entregar-se à polícia para ser enforcado.

A princípio, talvez os escritos de C. S. Lewis ressoem contraditórios com outra afirmação de Cristo, afinal, Ele nos ensinou a não julgar. Mas basta ler completamente os versículos um e dois do capítulo 7 de Mateus, e equívocos evanescerão: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgado; e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão vocês”.

Antes da segunda ponderação também é conveniente ressaltar que todos nós carregamos genética, cultura e experiências que modelaram (e modelam) o nosso ser. A significância de tal fato é enorme e perceptível por meio de uma simples contrição. Aceite-se como uma pessoa cortês e estudiosa (afinal, leu até aqui), agora questione-se: e se eu tivesse nascido em outra região? Ou, se meu pai fosse clérigo ou bandido, eu seria exatamente quem eu sou? Teria a mesma temperança? Quais méritos são puramente meus? Portanto, se até mesmo um autojulgamento pode ser uma tarefa árdua, ajuizar as ações de terceiros não é simples. Mesmo que saibamos o que é certo ou errado.

Segunda Ponderação

A Lei Natural não é apenas acessível a todos nós, ela também é dissociável de qualquer ser humano. É uma “bússola” infalível da qual podemos ignorá-la, mas não existe nenhuma possibilidade de deixar de “lê-la”.

Um indivíduo pode optar pela prática do terrorismo, da discriminação e do roubo, mas não pode esconder de si mesmo que tais práticas são erradas. Ou seja, temos a liberdade de executar coisas ilícitas, mas não podemos escolher o que é lícito ou ilícito. Novamente C. S. Lewis expõe breve e pontualmente outro importante âmago, o da Lei Natural:

No universo inteiro, existe uma coisa, e somente uma, que nós conhecemos melhor do que conheceríamos se contássemos somente com a observação externa. Essa coisa é o Ser Humano. Nós não nos limitamos a observar o ser humano, nós somos seres humanos. Nesse caso, podemos dizer que as informações que possuímos vêm “de dentro”. Estamos a par do assunto. Por causa disto, sabemos que os seres humanos estão sujeitos a uma lei moral que não foi criada por eles, que não conseguem tirar do seu horizonte mesmo quando tentam e à qual sabem que devem obedecer. Alguém que estudasse o homem “de fora”, da maneira como estudamos a eletricidade ou os repolhos, sem conhecer a nossa língua e, portanto, impossibilitado de obter conhecimento do nosso interior, não teria a mais vaga ideia da existência desta lei moral a partir da observação de nossos atos. Como poderia ter? Suas observações se resumiriam ao que fazemos, ao passo que essa lei diz respeito ao que deveríamos fazer. Do mesmo modo, se existe algo acima ou por trás dos fatos observados sobre as pedras ou sobre o clima, nós, estudando-os de fora, não temos a menor esperança de descobrir o que ele é.

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Por fim, sabemos que, no cristianismo, o valor de cada ser humano não é medido pelo saldo bancário, pela profissão ou pelo status social. Talvez, a grandeza de uma pessoa possa, de certo modo, ser medida por quanto ela se sacrifica por outros indivíduos, em consequência de Cristo por nós ter se sacrificado. Entretanto, certamente irrefutável é a existência de uma Lei Natural, e que a verdade propagada por Cristo permanece intacta por ser divinamente objetiva, queira você expor o termo “divinamente” acompanhado ou não das aspas. A perfeição ética está em Deus, que deixou a verdadeira ética, aquela de que necessitamos, escrita dentro de cada um de nós.

Verdades físicas, históricas e metafísicas

Figura representando DNA (em tons de azul)

Leia também o artigo: “Não tenho fé suficiente para ser ateu”, e compreenda os motivos pelos quais o DNA e o Big Bang evidenciam Deus.

Entre “verdades éticas” e “realidades físicas”, talvez a segunda possa parecer mais intuitivamente integrável a Deus. Afinal, o Criador do universo não compreende o cosmo pelo estudo da cosmologia, mas compreende a realidade do universo por ter sido o Autor dele; não compreende o DNA por meio de experimentos biológicos, mas conhece o DNA por ter produzido tais códigos genéticos. Na verdade, Deus não precisa nem mesmo de “horas de voo” (experiências) para apreender realidades (verdades), pois Ele também é o criador do tempo, e aqui o estudo torna-se menos intuitivo, sem contradizer o cientificismo atualmente em voga, mas, talvez, expondo o limiar da ciência natural.

Evidentemente, as ciências são dinâmicas, assim, aquilo que hoje é tido por ela como uma verdade, amanhã poderá ser descartado para reciclagem. Entretanto, atualmente a teoria mais plausível para explicar a origem do universo, o Big Bang, oferece fortes evidências de que, antes deste evento, não havia tempo nem espaço. Consequentemente, a existência da matéria era uma impossibilidade (não havia “lugar” para acomodá-la) [6]. Logo, a completa ausência de tempo, espaço e de matéria remete à exata “ideia” de Deus e extrai o “único” objeto passível de estudo pela ciência, ou seja, elimina o “mundo físico” (a natureza), abrindo espaço para o estudo da metafísica, em que a primeira via de São Tomás de Aquino cria um harmônico liame entre tais disciplinas (ciências naturais e metafísica).

O maior expoente da filosofia escolástica, Tomás de Aquino, tomou “emprestado” o conceito de “ato e potência” de Aristóteles e com ele formulou, provavelmente, a via mais pujante para evidenciar Deus. Para compreender os alicerces desta via, de modo simplificado, basta deduzir que ato significa algo como “ser” ou “conter”, enquanto potência remete à ideia de “poderá ser” ou “poderá conter”. Exemplificando: o fogo é abrasador em ato, enquanto a panela acondicionada em seu armário possui potência para tornar-se quente; um corante vermelho é rubro em ato, já a água em um copo deve ser transparente em ato, mas possui potência para torna-se avermelhada; uma semente tem potência para dar origem a uma árvore, enquanto um juazeiro não tem potência para ser uma árvore, já o é em ato.

Todas as transformações que ocorrem no universo são de entes que deixam de ter a possibilidade (potência) de “conter” determinado atributo e passam a tê-lo em ato, entretanto, não de modo autônomo. Para compreender tal fato, basta parafrasear o próprio Aristóteles: “Nada do que está em potência passa ao ato senão por outra coisa que está já em ato”, portanto uma panela não poderá ser aquecida por ela mesma, mas ficará quente se receber calor de um ente calorífero em ato; a água não poderá torna-se avermelhada por si mesma, mas poderá ficar rubra recebendo tal atributo de um corante ou outro ente vermelho em ato; qualquer semente não será capaz de torna-se um juazeiro, mas somente aquelas originárias de juazeiros em ato. Neste ponto, é inevitável questionar: tal sequência de mudanças é finita ou infinita? Se for finita, iniciou por um ato ou por uma potência?

Como o infinito é indivisível, evidentemente a fragmentada (divisível) sequência de mudanças (de potência para ato) é finita. Também não é preciso muito esforço para deduzir a necessidade de um início composto exclusivamente por Ato (“fonte” de todas as possibilidades). Sendo assim (sequência finita e iniciada por um Ato), resta esclarecer: quais são os requisitos para que algo possa abarcar todos os atos e nenhuma potência?

Todo espaço e qualquer matéria são detentores de muita potência, pois inevitavelmente são mutáveis. Dentre muitos exemplos possíveis, basta um para atestar tal fato: a madeira de um eucalipto poderá produzir móveis e papéis. Móveis são potenciais produtores de serragens e, assim como papéis, poderão tornar-se cinzas. Talvez, um móvel não possa ser acomodado em uma pequena sala, mas espaços são formatáveis e redimensionáveis, assim a derrubada de uma parede poderá readequar o espaço. Por fim, inevitavelmente toda mudança demandará tempo. Na obra “Aristóteles para todos” o autor, Mortiner J. Adler (1902 – 2001), em um único parágrafo elucida tal conceito: “O tempo é a dimensão em que o movimento ou a mudança ocorre, assim como o espaço é a dimensão em que as coisas materiais existem. As coisas que existem ocupam ou preenchem espaço. As coisas que mudam persistem no tempo”.

Logo, atemporal, não espacial e imaterial são pré-requisitos para que um ente possa abarcar todos os atos e nenhuma potência.

Por conseguinte, se Deus transcende ao tempo, Ele pode, ao contrário de nós, “observar” o passado e o futuro, pois para Ele ambos estão presentes. Para simplificar, imagine uma pessoa no alto de um edifício, sendo capaz de assistir ao início (passado), o meio (presente) e o fim (término) de um cortejo, enquanto outro individuo, debaixo da marquise do mesmo edifício, detém “presença” (visão) muito mais restritiva, por exemplo, “perderá” rapidamente a ala de abertura. Em outras palavras, eu e você “perdemos” o dia de ontem, mas Deus não; eu e você não “ganhamos” o dia de amanhã, mas Deus sim! Tal conceito pode não ser tão intuitivo (e não é), mas ao compreendê-lo muitos equívocos se esvanecem e algumas considerações imergem, afinal, explicam como as profecias e o livre-arbítrio coexistem; elucida citações bíblicas em tempos verbais incomuns, como ‘Eu sou aquele que É’” (Êxodo 3:14), ou “Em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8:58); induz crer que nenhuma de nossas ações (boas ou más) serão perdidas e, portanto, estaremos passíveis de justo julgamento; etc. Mas, para finalizar essa pequena lista de plausibilidades, é indispensável, dentro deste artigo, reanalisar os Atos dos apóstolos, mais precisamente o capítulo 17, entre os versículos 28 e 30.

Quando realmente compreendemos o significado da declaração: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos” e nos atinamos para a atemporalidade de Deus, torna-se claro que todas as verdades históricas estão “detidas” (“escritas”) em Deus. Exemplificando, para desvendar um assassinato, não podemos refazê-lo “n” vezes ou regredir no tempo, então usamos métodos investigativos (comumente inconclusivos), mas, para Deus, basta “olhar” em suas propriedades, e lá estará a verdade (propriedades no sentido de posses e no sentido de atributos, pois como existimos Nele, somos atributos Dele).

Mas, e quanto às verdades metafisicas? O resultado de dois mais dois, ou os 360 graus que completam uma circunferência não são verdades que permanecem intactas mesmo se fossem destacadas de quaisquer realidades? Sim! Mas chegam até nós por intermédio de Deus, assim como o resultado de um cálculo exposto na tela de seu computador deve transpor um software.

Conclusão

Se Deus é o criador do universo, Ele conhece toda a realidade (verdade) física. Nós também criamos coisas, mas podemos perdê-las e esquecê-las, tornando necessário reencontrá-las e até reaprendê-las. Deus nada perde e nada esquece. Suas criações, ao contrário das nossas, não são externas. Se Deus se “esquecer” de algo, esse “objeto” deixa de existir.

Uma escola não tornará a matemática absurda por ensinar que dois mais dois resultam em cinco. Neste caso, absurda será a própria escola. Uma Igreja em particular que ensine erroneamente o catolicismo ou o protestantismo não invalidará a respectiva religião, mas invalidará a si mesma. E todos nós reconhecemos, no fundo, aquilo que é certo e aquilo que é errado; afinal, somos portadores de uma “bússola ética” infalível, a chamada Lei Natural, que sempre aponta para o Cristianismo. Em suma, a subjetividade ética é a abolição da própria ética, é a permissividade para escolher a “ética do dia” como alguém que seleciona o “prato do dia”. É uma desculpa para ignorar a Lei Natural. A ética precisa ser objetiva, e os objetos intitulados “Sagradas Escrituras” foram testados e aprovados ao longo dos séculos.

Definir a Verdade certamente não é uma tarefa fácil. É como detalhar um Ente, uma Pessoa de complexidade inalcançável a todos nós. Mas ao encontrar a Verdade, também encontramos o Caminho e a Vida.

Escrito por Eric M. Rabello.

Notas:

  1. Pensamento comumente atribuído ao ministro da Propaganda de Adolf Hitler (1889 – 1945). Portanto, Paul Joseph Goebbels (1897 – 1945) é o pressuposto autor. Subir
  2. O conhecido termo “ciências históricas”, de certo modo, é uma figura de linguagem. O estudo da história pode e deve utilizar de meios científicos. No entanto, quando, por exemplo, parte do Santo Sudário foi submetido ao teste de Carbono 14, historiadores “pararam de trabalhar” e colocaram as “engrenagens” do ramo científico em ação, as quais forneceram evidências, mas não conclusões. Analogamente, um teste de DNA pode indicar que um indivíduo estava presente no local de um crime, mas ainda assim será necessária alguma investigação (e crença, talvez pequena) para creditar o crime a tal pessoa. Não é possível refazer o assassinato “n” vezes para confirmar o crime, ou seja, o método cientifico não elimina os métodos históricos/investigativos. Subir
  3. Tal estratégia é intensamente detalhada na obra: “Não tenho fé suficiente para ser ateu”, escrita pelos apologistas Norman Geisler (1932 – 2019) e Frank Turek. Eles denominam o recurso de “Tática do papa-léguas”. Subir
  4. Números são indefinidos e não infinitos. Para compreender mais, leia a famosa analogia criada pelo matemático alemão David Hilbert (1862 – 1943), comumente intitulada “O Hotel de Hilbert”. Subir
  5. Conforme censo realizado pelo IBGE em 2010 e divulgado em 2017. Link: https://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/sociais/populacao/9662-censo-demografico-2010.html?edicao=9749&t=resultados. Se preferir, acesse artigo com as mesmas informações dispostas de modo conciso, em: https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-ibge-e-a-religiao-cristaos-sao-86-8-do-brasil-catolicos-caem-para-64-6-evangelicos-ja-sao-22-2/. Subir
  6. Para compreender mais, leia: https://super.abril.com.br/ciencia/o-que-havia-antes-do-big-bang/. Subir

Em complemento, ouça trecho do programa True Outspeak no qual Olavo de Carvalho responde ao questionamento: “Como reconhecer a verdade?”.

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