O verdadeiro, o bom e o belo


Ó beleza! Onde está tua verdade?”,
William Shakespeare (1564 – 1616).

Existe uma ideia encantadora sobre a beleza que remete a Platão e Plotino e que foi incorporada ao pensamento teológico cristão. Segundo ela, a beleza é um valor supremo que buscamos por si só, sem ser necessário fornecermos qualquer motivo ulterior. Desse modo, a beleza deve ser comparada à verdade e à bondade, integrando um trio de valores supremos que justifica nossas inclinações racionais. Por que acreditar em p? Porque p é verdadeiro. Por que desejar x? Porque x é bom. Por que comtemplar y? Porque y é belo. De certo modo, declararam esses filosófos, tais respostas estão no mesmo plano: cada qual traz um estado de espírito ao âmbito da razão, vinculando-o a algo que nós, sendo seres racionais, buscamos naturalmente. Aquele que pergunta “por que acreditar no que é verdadeiro” ou “por que desejar o que é bom” foi incapaz de compreender a natureza do raciocínio. Ele não percebe que, para justificarmos nossas crenças e desejos, nossa razão deve estar ancorada no verdadeiro e no bom.

O mesmo, então, se aplicaria à beleza? Se alguém me pergunta por que me interesso por x, “porque x é belo” seria uma resposta definitiva, isto é, uma resposta imune a qualquer contra-argumento – a exemplo de um “porque é bom” e um “porque é verdadeiro”? Afirmar que sim é negligenciar a natureza subversiva da beleza. Alguém que se veja encantado por determinado mito pode se sentir tentado a crer nele; nesse caso, a beleza é inimiga da verdade (cf. Píndaro, Primeira Ode Olímpica: “A beleza, que dá ao mito aceitação, faz do incrível crível”). Um homem atraído por uma mulher pode sentir-se tentado a perdoar seus vícios, e nesse caso a beleza é inimiga da bondade (cf. Abade Prévost, Manon Lescaut, em que a ruína moral do Cavaleiro des Grieux é causada pela bela Manon). A bondade e a verdade, supomos, jamais rivalizam, e a busca de uma é sempre compatível com o respeito que se deve à outra. A busca da beleza, por outro lado, é muito mais questionável.

Excerto do tópico “O verdadeiro, o bom e o belo”, do primeiro capítulo da obra: “Beleza”, de Roger Scruton. Publicado por É Realizações, sob ISBN: 978-85-8033-145-5.

Nota: a ilustração associada a este artigo origina-se da pintura “O nascimento de Vênus” (1483),
obra de Sandro Botticelli (1445 – 1510). Clique aqui para visualizá-la em tamanho maior.

Assista ao documentário escrito por Roger Scruton, “Why Beauty Matters?”, o qual foi apresentado pela primeira vez em 28 de novembro de 2009 pela BBC.

Sumário da obra:

  1. Julgando a beleza
  2. A beleza humana
  3. A beleza natural
  4. A beleza cotidiana
  5. A beleza artística
  6. Gosto e ordem
  7. Arte e erõs
  8. A fuga da beleza
  9. Reflexões finais

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Sávio Reale
Sávio Reale
3 meses atrás

Este vídeo é inútil.

Antônio
Antônio
Responder a  Sávio Reale
3 meses atrás

Vídeos úteis são aqueles onde uns ficam analisando o fiofó dos outros ou documentários anti-cristãos? O problema é ideológico? O problema é que o documentário expõe a verdadeira arte? Parece que aqueles que defendem a democracia defendem tudo exceto a verdade.

Gabriel F.
Gabriel F.
3 meses atrás

Este ano não está fácil. No início de 2020 perdemos Scruton, um dos maiores filósofos da nossa era. Um absurdo que nas escolas ele não seja falado.

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