Problemas metaclínicos


Extraído do livro “Em Busca de Sentido”, publicado pela Editora Vozes. ISBN: 8532606261.

Cada vez mais os psiquiatras são procurados por pacientes que os confrontam com problemas humanos e não tanto com sintomas neuróticos. Parte das pessoas que hoje buscam um psiquiatra teriam procurado um pastor, sacerdote ou rabino em épocas anteriores. Agora elas frequentemente recusam seu encaminhamento para clérigos e, ao contrário, confrontam o médico com questões como: “Qual é o sentido da minha vida?”

Um logodrama

Gostaria de citar um exemplo. A mãe de um menino que morrera na idade de onze anos deu entrada em minha clínica, após uma tentativa de suicídio. O Dr. Kurt Kocourek convidou-a a participar de um grupo terapêutico. Ocorreu que em certa ocasião eu entrei na sala da clínica em que ele dirigia um psicodrama. Ela estava contando a sua história. Quando seu filho morreu, ficou sozinha com outro filho, mais velho, que era aleijado, vítima de paralisia infantil. O pobre rapaz estava preso a uma cadeira de rodas. Sua mãe, entretanto, rebelou-se contra o destino dela. Mas quando tentou o suicídio juntamente com ele, foi o filho aleijado que a impediu; ele gostava de viver! Para ele a vida continuara a ter muito sentido. Por que não se dava o mesmo com sua mãe? Como poderia a vida dela ainda ter um sentido? E como poderíamos ajudá-la a conscientizar-se disso?

Improvisando, entrei no diálogo e perguntei a outra mulher no grupo por sua idade, ao que ela respondeu: “Trinta anos“. Repliquei: “Não, você agora não está com 30 anos, mas sim com oitenta, deitada no leito da morte. E agora você olha para trás, para sua vida, uma vida sem filhos, mas plena de sucesso financeiro e prestígio social.” Convidei-a então a imaginar como ela se sentiria dentro dessa situação. “Que você acha disso? O que vai dizer para si mesma?” Vou citar o que ela realmente disse, de uma fita gravada naquela sessão: “Ah, casei com um milionário tive uma vida fácil, cheia de riqueza, e aproveitei bem! Flertei com homens, provoquei-os. Mas agora estou com oitenta anos; não tenho filhos próprios. Olhando para trás, como mulher de muita idade, não consigo ver para que foi tudo isso; na realidade preciso dizer que a minha vida foi um fracasso!

Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se.“, Viktor E. Frankl (1905 – 1997).

Convidei então a mulher que tinha o filho paralítico a se imaginar em situação idêntica, repassando a sua vida. Vejamos o que ela disse, conforme está gravado na fita: “Desejei ter filhos e este desejo me foi concedido; um menino morreu, mas o outro, o aleijado, teria sido mandado para uma instituição, se eu não tivesse ficado com ele, cuidando dele. Mesmo que ele seja aleijado e completamente dependente, não deixa de ser o meu filho. Assim eu fiz com que ele pudesse ter uma vida mais completa; fiz do meu filho uma pessoa humana melhor.” Neste ponto houve uma explosão de lágrimas, e, chorando, ela continuou: “Quanto a mim, posso encarar tranquila a minha vida passada; porque posso dizer que minha vida foi rica em sentido e dei um duro para realiza-lo; fiz o melhor que pude – dei a meu filho o melhor. Minha vida não foi um fracasso!” Encarando sua vida passada como se estivesse no leito da morte, ela repentinamente pôde ver um sentido em sua vida, um sentido que incluía até mesmo todos os seus sofrimentos. Da mesma forma ficara igualmente claro que uma vida de pouca duração, como por exemplo, do seu filho morto, podia ser tão rica em alegria e amor a ponto de conter mais sentido que uma vida que durasse oitenta anos.

Pouco depois passei para outra questão, dirigindo-me desta vez ao grupo inteiro. Perguntei se um macaco utilizado para produzir soro contra poliomielite e que, por esta razão, fosse picado vez após vez, jamais seria capaz de captar o sentido do seu sofrimento. O grupo o negou unanimemente; pois com sua inteligência limitada ele não poderia entrar no mundo dos seres humanos, ou seja, o único mundo no qual o seu sofrimento seria inteligível. Fui em frente com a seguinte pergunta: “E como é com a pessoa humana? Vocês têm certeza de que o mundo humano é um ponto final na evolução do cosmo? Não é concebível que ainda haja outra dimensão possível, um mundo além do mundo humano? Um mundo em que a pergunta pelo sentido último do sofrimento humano encontraria uma resposta?

O super-sentido

Esse sentido último necessariamente excede e ultrapassa a capacidade intelectual finita do ser humano; na logoterapia falamos neste contexto de um super-sentido. O que se requer da pessoa não é aquilo que alguns filósofos existenciais ensinam, ou seja, suportar a falta de sentido da vida; o que se propõe é, antes, suportar a incapacidade de captar em termos racionais o fato, de que a vida tem um sentido incondicional. O logos é mais profundo que a lógica.

Um psiquiatra que vai além do conceito do super-sentido mais cedo ou mais tarde acabará embaraçado por seus pacientes, como se deu comigo quando minha filha de seis anos me perguntou: “Por que dizemos que o Senhor é bom?” Eu repliquei: “Faz algumas semanas você teve sarampo, e então o Senhor, em sua bondade, fez você sarar completamente.” Mas a pequena não se deu por satisfeita e retrucou: “Ora, pai, não esqueça que foi ele que me fez pegar o sarampo!

No entanto, quando o paciente está sobre o chão firme da fé religiosa, não se pode objetar ao uso do efeito terapêutico das suas convicções religiosas e, assim, ao aproveitamento de seus recursos espirituais. Para esse fim o psiquiatra pode colocar-se no lugar do paciente. É exatamente isto que eu fiz certa vez, por exemplo, quando um rabi da Europa oriental veio ter comigo e me contou sua história. Ele tinha perdido sua primeira esposa e seus seis filhos no campo de concentração de Auschwitz, onde foram mortos na câmara de gás, e agora se evidenciou que sua segunda mulher era estéril. Observei que a procriação não é o único sentido da vida, pois neste caso a vida em si perderia o sentido, e algo que em si mesmo não tem sentido não pode ganhar sentido simplesmente através de sua direta ação. Entretanto o rabi encarava a sua sorte como um judeu ortodoxo, ou seja, no desespero de não ter um filho que pudesse pronunciar o Kaddish (Oração pelos mortos) para ele, depois de sua morte.

Não desisti. Fiz uma última tentativa de ajudá-lo perguntando se ele não esperava ver os seus filhos novamente no céu. Minha pergunta, entretanto, desencadeou uma torrente de lágrimas, e agora sim veio à tona o verdadeiro motivo de seu desespero; explicou ele que seus filhos, uma vez que morreram como mártires inocentes, mereceriam o mais elevado lugar no céu; mas ele mesmo, um velho pecador, não podia esperar receber o mesmo lugar. Ainda não desisti e retruquei: “Não se poderia conceber, rabi, que foi justamente este o sentido de o senhor sobreviver a seus filhos, para que fosse purificado por estes anos de sofrimento, de modo que também o senhor, embora não inocente como seus filhos, possa, afinal, tornar-se digno de juntar-se a eles no céu? Não está escrito nos Salmos que Deus guarda todas as suas lágrimas? Assim talvez nenhum de seus sofrimentos tenha sido em vão.” Pela primeira vez em muitos anos ele se sentiu aliviado do seu sofrimento, pela nova perspectiva que lhe pude abrir.

Extraído do livro Em Busca de Sentido, publicado pela Editora Vozes, sob ISBN: 8532606261.
Escrito pelo neurologista e psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl (1905 – 1997).
Frankl sobreviveu ao holocausto. Utilizou-se da dramática experiência para fundar a logoterapia.

Assista entrevista concedida por Viktor Emil Frankl, e compreenda as diretrizes básicas da logoterapia:

Esta entrevista foi transcrita e postada pela Culturateca sob o título: “A descoberta de sentido no sofrimento“.

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