Sub Specie Aeternitatis


Cada época é salva por um pequeno punhado de homens que têm a coragem de não serem atuais.”, G. K. Chesterton (1874 – 1936).

O ano é 2018; nesta altura do campeonato, o movimento revolucionário já nos brindou, caridoso que só, com os mais sofisticados, mirabolantes e cruéis instrumentos de dominação psicológica e corrupção da cultura que se pudesse imaginar. Travestidos de filosofia, teorias científicas, metodologias de ensino, programas sociais, sempre variando de acordo com a ocasião, não cessam de se abater, sobre este paciente já moribundo e agonizante que é a sociedade, os pérfidos sintomas da psicopatologia revolucionária.

Dentre eles, há um que, como tantos outros, de já tão disseminado sequer passa como tal, mas antes como indicativo de perfeita saúde mental: é este sentimento de completa insensibilidade e verdadeiro ódio às épocas passadas, aliado a uma concomitante reverência do momento presente da história e da chamada “cultura contemporânea”. Do cidadão médio ao intelectual, todos parecem inoculados desta total incapacidade de se reportar, se reconhecer e se identificar às épocas e civilizações anteriores – próximas ou não – à nossa, em muitas das quais o referido “paciente” vinha a encontrar-se, claro, não imaculado, mas em evidentes mais saudáveis condições.

É que ateísmo militante, feminismo, gayzismo, ideologia de gênero, abortismo, normalização da pedofilia, entre outras campanhas e engajamentos cujas bases teóricas remontam ao materialismo mais tosco, se reúnem todos sob a fetichista – e objetivamente impossível – proclamação da relativização da verdade, amputando junto com ela um elemento que lhe é logicamente necessário, apenas em vista do qual é possível orientar-se satisfatoriamente no mundo: a eternidade.

Se considerássemos, como hipótese, a verdade como tendo uma duração limitada no tempo, já estaríamos contrariando, no ato, sua própria definição. Estaríamos agora nos referindo a algo de ordem apenas circunstancial e consequentemente condicionado a fatores externos a si, quando a verdade tem justamente por essência transcender o mundo temporal e a subjetividade, e independer completamente de elementos psicológicos, históricos, sociais, políticos, econômicos, culturais ou quaisquer outros. Quando se diz, por exemplo, que 2 + 2 = 4, ou que um quadrado cortado na diagonal resultará sempre e invariavelmente em dois triângulos e não em qualquer outra coisa, se está apontando justamente para a supratemporalidade dos princípios envolvidos, que já o eram antes mesmo da fundação do mundo e da existência do primeiro homem, e continuarão sendo após estes. A verdade fundamenta e sustenta, sobre si, a realidade – nunca o contrário¹.

Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.”, George Orwell (1903 – 1950).

Mas por que diabos a noção de eternidade teria alguma coisa a ver com esta postura de desprezo ao passado, tão preciosamente cultivada pelos nossos contemporâneos?

Vejamos. Nossa relação com o suceder histórico se dá basicamente em duas principais instâncias, por assim dizer. Uma é a escala individual, biográfica, na qual vão sendo escritas todas as nossas experiências, registradas e acessíveis retroativamente a nós através da memória. A outra é a escala da coletividade – toda a história da humanidade, das gerações primeiras até a presente. No primeiro caso, já nos dizia o salmista²: “Setenta anos é o tempo da nossa vida, oitenta anos, se ela for vigorosa;” (Sl 90,10): temos uma boa ideia da média de tempo que, em geral, vive um ser humano, e por esta média nos orientamos e deduzimos as proporções e probabilidade de realização dos nossos objetivos, do que é possível alcançar em escala individual e do que haverá de ser continuado pelas gerações seguintes, noção esta essencial às ciências e à filosofia, por exemplo. Porém, quando se trata da História, esta não sabemos quando terminará; se está no começo, no meio ou em sua fase derradeira, afirmar sobre isto uma palavra sequer seria requerer para si dotes de adivinho, ou clarividência tal que nem o próprio Cristo, enquanto homem, ousou reivindicar (“Quanto à data e à hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu nem o Filho, somente o Pai.Mc 13,32).

Acontece que a mera operação de um raciocínio matemático tão simples quanto este do exemplo acima, aponta para uma compreensão já legada a nós desde a filosofia platônica: a de ser o homem um ser do mundo físico, temporal, sensível, ao mesmo tempo que do mundo metafísico, digamos, das formas ou das ideias, dotado da capacidade de perceber, captar e experienciar certos aspectos desta dimensão que o transcende (com os princípios, as leis eternas, o supratemporal e o supraespacial, o eterno e o infinito, a Verdade etc). Ao nos darmos conta desta obviedade, pensar a História se torna, entre outras coisas, pensar também a narrativa por muitas vezes incerta, erradia e jamais retilínea, mais espiralesca e cíclica, da busca da verdade e do conhecimento, das virtudes e das bem-aventuranças, pelo homem, nas suas mais diversas manifestações, com todas as aquisições acumuladas no processo (como a cultura e as tradições, as ciências, o desenvolvimento tecnológico, as artes e a filosofia), em seus sucessos e insucessos, em suas tragédias e heroísmos, em sua dedicação e autossabotagens (as anti-filosofias, os governos totalitários, o cerceamento das liberdades individuais e do livre pensamento, as ideologias, o terrorismo, por exemplo, e todo tipo de manifestação de ódio à verdade – pois onde há busca da verdade, há ódio contra ela), mais ou menos consciente de fazê-lo. O ato de reportar-se às gerações e épocas passadas sob esta perspectiva passa a ser, então, exercício obrigatório contra a fragmentação da consciência, visto que não só adquire o sentido de absorver o que nelas se produziu de importante, sublime, virtuoso (assim como aprender com o que houve de mau, trágico e ignóbil), como também o de remontar e compreender o caminho sobretudo intelectual e moral que homens reais percorreram para que tais elementos – longe de caírem, prontos, do céu – chegassem até nós e estivessem, hoje, à nossa disposição.

Há sempre uma distância entre aquilo que um homem pensa, descobre, produz, no âmbito pessoal, e sua subsequente incorporação ou não na cultura de uma civilização. Nenhuma ideia surge de um grupo, mas de uma consciência individual que a concebe. A reverberação desta ideia no coletivo social, quer este último aceite ou rejeite a primeira, gera sempre um movimento tal como uma tentativa de encaixar duas peças de um quebra-cabeças de formatos semelhantes, mas não idênticos. O homem, por um lado, lança mão do acervo material e cultural que lhe é legado até sua geração e, por outro, alça novos vôos, coaduna este legado com sua percepção original sobre determinados aspectos da realidade, galgando novos níveis na busca da sabedoria e gerando novas compreensões, novos conhecimentos que, por sua vez, deverão ser também incorporados na cultura e transmitidos às gerações seguintes. Os movimentos que envolvem este “processo” são, evidentemente, de uma profusão e complexidade tremendas. Daí a insistência de Olavo de Carvalho em afirmar que será portanto impossível compreender qualquer coisa, tempos depois, sem o esforço de remontar à experiência originária deste homem, a partir do que, retomo, terá continuidade este movimento de herança do conhecimento ao longo da história da humanidade, agora através de nossa pessoa e dos demais que o fizerem.

A brilhante obra Order and History de Eric Voegelin oferece alicerces a respeito da ideia de ordem na História.

Mas diferentemente de tudo isso, como já vimos, as teorias materialistas e afins começam por amputar, como ponto de partida, as noções de verdade e eternidade, restando aos seus adeptos compreender a História apenas como algo em si mesmo, um substantivo, um objeto bruto, que pela simples cisão com a noção de verdade, será sempre e por definição relativista e circunstancial. A atitude revolucionária em relação à História é sempre de ruptura – nada deu certo até então, “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, e não há nada que conservar. Os eventos históricos passados, em toda sua complexidade, mesmo os de maior importância e intrinsecamente conectados com os da ocasião, não passam de degraus, etapas cujo único valor verdadeiro reside em terem dirigido a humanidade ao momento presente, no qual finalmente a sociedade pode pôr em marcha a tão sonhada e messianicamente prometida quebra dos grilhões, iniciando um processo de rompimento com os valores e costumes de outrora, aliado à produção massiva de material acadêmico e pseudointelectualoide que corrobore, “cientificamente”, as virtudes de tão excelsa emancipação da espécie. Todo e qualquer ponto de vista em contrário é tratado como o indicador de um retrógrado, um parado no tempo, um lunático, representante da “velha roupa colorida” em oposição a um modernismo iluminado, portador e definidor legítimo do Bem, do Belo e da Verdade, relativizados quando se trata do inimigo, bastante concretos quando em relação à própria agenda.

É urgente que resgatemos o sentimento de uma existência sub specie aeternitatis, ou seja, em vista da eternidade, ou sob o aspecto da eternidade. O próprio nascimento do projeto filosófico, com Sócrates, só foi possível justamente por ter este percebido que o método de busca da sabedoria, pela própria essência desta, seria impossível de ser realizado por uma única pessoa, unindo as gerações seguintes, umas após as outras, na continuidade deste esforço humano. O mesmo se dá com o Cristo: apenas para ficar no exemplo acima, ao admitir desconhecer também Ele, enquanto homem, a data do fim dos tempos, está afirmando não ser dado a nenhum de nós sabê-lo. Mas por este exato motivo, todas as gerações são convidadas a viver não em desespero total, ou num carpe diem tosco e vazio, apavoradas pela iminência da morte, mas cada uma como se fosse a última, portanto como uma só, conscientes de participarem todas de um mesmo destino humano – não enquanto coletividade ou grupos sociais, mas enquanto almas perenes que somos. Não é de espantar que, após doses cavalares de teologia da libertação, vejamos, mesmo entre cristãos, este sentimento geral de enraizamento no tempo atual. É a substituição do homem livre, de todas as épocas, cuja imagem se inclina diante de Deus apenas, pelo famoso “homem de seu tempo”, mundano, sectarizado, incapaz de tender à verdade porque incapaz de tender – e de sequer concebê-la – à eternidade.

Apenas com a retomada da consciência de nossa unidade histórica³ nos será possível colher dos bens do passado e cultivar devidamente os futuros, ao invés de regar com lágrimas de sangue uma árvore da qual em vão se espera os frutos, porque já cortada desde a raíz pela ruptura revolucionária.

Não é fugir do mundo sensível, mas decidir-se a viver esta realidade de homem intermediário, como chamou Platão. É resgatar a consciência do dever de agir não de modo a agradar este mundo, mas segundo a verdade, mesmo e principalmente quando ela te levar a perder tudo aqui e agora.

Paulo diz que Deus “quer que todos os homens – portanto os homens de todas as épocas – sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.” (1 Tm 2,4)

A quem queira se dedicar a tal realização, só será possível fazê-lo desde o ponto de vista da eternidade, e nenhum outro.

Escrito por Daniel Marcondes de Oliveira.

 Notas:

  1. Para entender de uma vez por todas de que se trata, afinal, a verdade, e as diferenças entre verdade e veridicidade, leia, com toda a atenção do mundo e quantas vezes for preciso, o texto O Problema da Verdade e A Verdade do Problema de Olavo de Carvalho, escrito em 1999 para o Seminário de Filosofia, disponível em http://www.olavodecarvalho.org/o-problema-da-verdade-e-a-verdade-do-problema/
  2. Dentre todos os salmos, este é o único atribuído a Moisés. 
  3. Por “retomada da consciência de nossa unidade histórica”, refiro-me ao exercício, sempre necessário, de nos compreendermos em referência aos mais diversos momentos, gerações, épocas, civilizações e acontecimentos da História, ao invés de pensarmos o “nosso tempo” e os “outros tempos” como separados uns dos outros, tornando a História uma mera somatória cronológica de segmentações que em nada conversam umas com as outras e nada têm a dizer sobre nós. A respeito da ideia de ordem na História, conferir a brilhante e essencial obra Order and History de Eric Voegelin. Ainda, sobre a concepção revolucionária de História, principalmente marxista, vale a pena conferir a segunda parte inteira de O Ópio dos Intelectuais de Raymond Aron, que o autor dedica inteiramente ao assunto.

Em complemento, associe o âmago deste artigo com o vídeo no qual o filósofo Olavo de Carvalho explica a importância em perder as ilusões “mundanas”:

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