Tempo longo, tempo breve


“O tempo é um vestígio de eternidade.”,
Santo Agostinho (354 – 430).

No entanto, dizemos que o tempo é longo ou breve, o que só podemos dizer do passado e do futuro. Chamamos longo, digamos, os cem anos passados, e longo também os cem anos posteriores ao presente; um passado curto para nós, seriam os dez dias anteriores a hoje, e breve futuro, os dez dias seguintes. Mas como pode ser longo ou curto o que não existe? O passado não existe mais e o futuro não existe ainda. Por isso não deveríamos dizer “o passado é longo” – mas o passado “foi longo” – e o futuro “será longo”.

Senhor, que és a minha luz, tua verdade não escarnecerá também nisso o homem? Esse tempo passado, foi longo quando já havia passado ou quando ainda estava presente? Porque ele só podia ser longo enquanto existia alguma coisa que pudesse ser longa. Mas uma vez passado, não existia mais: donde se conclui que não podia ser longo, porque já deixara de existir. Não digamos, portanto: “O tempo passado foi longo” – pois não encontraremos nada que pudesse ter sido longo; uma vez passado não existe mais. Mas digamos: “O tempo presente foi longo” – porque só era longo enquanto presente. Ainda não havia passado, ainda não havia deixado de existir, e por isso era susceptível de ser longo. Mas logo que passou, deixou de ser longo, porque cessou de existir.

Mas vejamos, ó alma humana, se o tempo presente pode ser longo, porque foi-te dada a prerrogativa de perceber e medir os momentos. Que me respondes? Por acaso cem anos presentes são um tempo longo? Consideremos antes se cem anos podem ser presentes. Se for o primeiro ano que corre, está presente; mas os outros noventa e nove ainda são futuros, e portanto ainda não existem. Se estamos no segundo ano, já temos um ano passado, o segundo presente e todos os outros no futuro. Desse período de cem anos, seja qual for o ano que supomos presente, todos os que o precederam serão passados, e todos os que estão por vir, futuros. Portanto, o cem anos não podem estar simultaneamente presentes.

Vejamos agora se, pelo menos, o ano em curso é presente. Se estamos no primeiro mês, os outros são futuros. Como acima, se estamos no segundo, o primeiro será passado, e os demais, futuros. Assim o ano que corre não está todo presente; e como não está todo presente, não é portanto verdade dizer-se que o ano esteja presente. Um ano compõe-se de doze meses, e seja qual for o mês considerado, será o único em curso. Mas o mês em curso não é presente, mas somente o dia. Vale o que dissemos antes: se estamos no primeiro dia, todos os outros são futuros; se estamos no último, todos os outros são passados; se estamos entre um desses dois dias, esse dia está entre os dias passados e os futuros.

“A Persistência da Memória”, obra do pintor catalão Salvador Dalí (1904 – 1989). Nota 01.

Eis, portanto, esse tempo presente, o único que julgávamos poder chamar de longo, reduzido ao espaço de um só dia. Mas, examinemos esse único dia, porque nem mesmo ele é todo presente. Compõe-se de dia e noite, num total de vinte e quatro horas; relativamente à primeira hora, todas as outras são futuras; em relação à última hora, todas as outras são passadas; cada hora intermediaria tem atrás de si horas passadas e diante de si horas futuras. Mas também essa única hora é composta de fugitivos instantes; tudo o que dela correu é passado, e tudo o que ainda lhe resta é futuro.

Se pudermos conceber um lapso de tempo que não possa ser subdividido em frações, por menores que sejam, só essa fração poderá ser chamada de presente, mas sua passagem do futuro para o passado seria tão rápida, que não teria nenhuma duração. Se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro, mas o presente não em duração alguma.

Qual seria pois, o tempo que podemos chamar de longo? Seria acaso o futuro? Mas nós não dizemos que o futuro é longo, porque ainda não existe, e por isso não pode ser longo. Dizemos: “Será longo”. E quando se dará? Se atualmente ele ainda está no porvir, não pode ser longo: não existindo ainda, não pode ser longo. Mas somente poderá ser longo na hora em que emergir do futuro, que ainda não existe, em que começar a ser e a se tornar presente, de modo que possa ser longo. Nesse caso o presente nos clama, pelo que acima dissemos, que ele não pode ser longo.

Excerto da obra autobiográfica: Confissões, escrita por Agostinho de Hipona (354 – 430).
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Em complemento, assista ao vídeo do qual Dr. William Lane Craig faz breve explanação sobre a relação entre Deus e o tempo:

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