True Outspeak: simbolismo, ciências e religião


True Outspeak

Esta postagem é uma transcrição adaptativa e não integral do Programa True Outspeak, transmitido em 19 de abril de 2010.

No mundo cristão, vivemos mesclados de pecado e graça. Ninguém está inteiramente dentro do primeiro, nem totalmente incluso no segundo. Isto foi compreendido por todos durante a maior parte da história do cristianismo, mas, depois do Renascimento e da reforma dentro da ciência moderna, as pessoas foram entendendo de outra maneira. Antes, no mundo cristão, vigorava o simbolismo. Tudo era símbolo de tudo, mas, de repente, o simbolismo é estourado como se fosse apenas uma figura e de linguagem.

No mundo que Galileu define, existem duas coisas: um “lado”, com o espaço e coisas dentro; e outro, com nossa mente. Portanto, neste cenário, só existe matéria e mente – o simbolismo foi para as “cucuias”! e, se o simbolismo foi para as “cucuias”, a religião também vai para as “cucuias”! A religião tornou-se incompatível com o modelo de ciências inaugurado por Bacon, Galileu e outros. Esses caras deveriam ter sido desmascarados há muito tempo.

Contudo, é claro que a concepção de Galileu ou de Bacon já não coaduna com a ciência como está hoje, com a Relatividade, com a física quântica, etc., mas até os cientistas continuam acreditando nela, não na prática, mas nas discussões culturais gerais, em que seguem o esquema galiláico, no qual tudo o que não é matéria é pensamento.

Quando Pio XII proclamou o dogma da ascensão de Maria, ele disse que “Maria subiu em corpo”. Pergunto: qual corpo? O corpo tal como entende a medicina moderna? Se, sim, então, esse corpo não pode ascender, pois só o corpo que pode ascender é aquele que é, intrinsecamente, uma imagem de Deus. Mas o corpo não é feito uma imagem de Deus como uma figura de linguagem, ele é substancialmente uma imagem de Deus. Então, essa noção forte de símbolo, que é mescla entre presença e ausência, foi apagada, fazendo com que a religião também se acabe. No entanto, há muitos cristãos que aderem a esta antologia moderna galiláica, baconiana e que deseja, ao mesmo tempo, acreditar na religião. Então, fica-se em uma posição insustentável, afinal, não compreendem o que é a religião.

Para muitos, o que é materialmente inexistente é símbolo, no sentido de figura de linguagem. Então, o verdadeiro sentido do milagre é incompreensível e acaba sendo definido como um “acontecimento que viola as leis das ciências”. Mas essa definição é blasfema! Eu expliquei o que é um milagre, procure na internet.

Por causa de tais incompatibilidades, muitos acabam reforçando o moralismo, pois o moralismo reforça o sentimento de segurança, já que, intelectualmente, não possuem segurança nenhuma. Então, cria-se uma pseudo-religião que, no fundo, é materialista.

Na Idade Média, todo mundo compreendia que o pecado e a graça estão mesclados o tempo todo. Toda hora caímos no pecado e saímos dele. Mas, atualmente, as pessoas querem fazer um mundo capaz de dizer: “aqui estão os puros; ali estão os impuros”! É desta lógica que surgem pastores que ficam condenando uns aos outros. Veja programas em que pastores protestantes ficam atacando uns aos outros, com denúncias do tipo: “você é adultero!”, “você é veado!”, “tu és ladrão!”. O pior de tudo é que todos possuem razão! E os padres católicos vão apoiar o Dia da Terra!

Se a religião não for restaurada intelectualmente, não adianta você proclamar que acredita nela, pois a própria palavra fé perde a substância. Se você não tem uma visão simbólica, você está fora do cristianismo. Por exemplo: como  é possível explicar a presença de Jesus Cristo na hóstia? Ela é uma presença física e material, no sentido da ciência moderna? Lógico que não! É uma presença simbólica no sentido literário? Também não! Daí, como explicar um milagre? Só resta defini-lo como algo incompreensível para as ciências. Mas isso é blasfêmia!

Cristo está na hóstia pelo fato de que nós somos feitos do Cristo, afinal, Deus fez o mundo de si mesmo. Ele não tinha matéria da qual fazer, ele infundiu seu próprio ser nas coisas, então, essas coisas jamais podem ser puramente matérias. Não existe um único objeto puramente material no mundo! O simbolismo faz parte da estrutura interna da realidade. O mundo é um tecido semântico, e um tecido de símbolos não é um mundo de materiais dos quais o ser humano acrescenta em cima simbolismos literários. Se você está nessa visão moderna, você não pode ser cristão. Ser cristão, e continuar acreditando nessas bobagens, não dá!

Adaptado por Eric M. Rabello. Revisado por Fábio Rabello.
Visite o site pessoal do professor Olavo de Carvalho e do Seminário de Filosofia por ele ministrado.

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Ouça o trecho do programa True Outspeak que gerou esta postagem:

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Assista ao vídeo anexo, e avalie um dos dilemas da física moderna.

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