Uma vida de aprendizado


Excertos do tópico: “A juventude é uma barreira para o aprendizado”, o qual faz parte do livro: “Como pensar sobre as grandes ideias”. Publicado pela Editora É Realizações.Os 52 capítulos desta obra são transcrições editadas da clássica série norte-americana de TV do professor Adler, The Great Ideas, transmitida nos anos 1950.

Eu acredito que o erro mais profundo e sério que podemos cometer sobre a educação, e um que é cometido por todos os educadores e professores, bem como pelo público em geral, é associar a educação com a escolarização; ou mesmo supor que o tipo de aprendizado que acontece nas escolas, e eu quero dizer do jardim de infância à faculdade, é a parte principal da educação. Ou então supor que o tipo de aprendizado que as crianças têm na escola é o principal negócio da infância, que o aprendizado pertence essencialmente à infância, que a maior parte do aprendizado pode ser feita na infância, e que tudo que os adultos têm de fazer é usar o aprendizado que eles adquiriram na escola quando eram jovens.

Alguém assistindo a este programa supõe isso? Eu temo que muitos de vocês possam supor que sim. Eu gostaria que vocês me acompanhassem agora porque vou tentar convencê-los do oposto. Vou tentar mostrar três coisas a vocês.

A primeira é que o aprendizado é um processo de toda uma vida. A segunda é que o aprendizado adulto é a parte mais importante da educação de alguém. E a terceira é que a escolarização ou o aprendizado na escola é, na melhor das hipóteses, apenas uma preparação para o tipo de aprendizado que deve ser feito, porque só pode ser feito na vida adulta.

Deixem-me comentar por um momento esse terceiro ponto. A escolarização falha miseravelmente se não prepara os jovens a continuarem aprendendo depois que abandonam a escola, a continuarem com seu aprendizado pelo resto de suas vidas. Qualquer um que não compreende isso não consegue compreender uma das questões mais importantes da filosofia da educação, a questão que John Dewey enfatizou repetidamente quando disse que todo aprendizado é causa de mais aprendizado, assim como cada fase de crescimento é causa de mais crescimento. E assim é quase possível dizer que todo o propósito da escolarização ou do aprendizado que temos na escola é nos preparar para o tipo de aprendizado que temos de fazer ou devemos fazer pelo resto de nossas vidas.

Eu usei a expressão “o tipo de aprendizado que temos de fazer ou que devemos fazer”. Não quero dizer, ao falar isso, que a educação adulta é ou deveria ser compulsória. Nós sabemos que não é; nós sabemos que não deveria ser. Mas o fato de não ser compulsória não exclui o fato de ser necessária. O aprendizado adulto é necessário para todos nós, para todos, mesmo que tenhamos frequentado escola e faculdade ou não.

Lloyd Luckman: Bem, o senhor pode estar certo disso, mas eu tenho certeza, dr. Adler, de que há muitas pessoas que pensam o contrário. E eu acho que não é porque elas pensam que o aprendizado é um dever apenas da infância, mas porque pensam que os jovens também têm a capacidade de aprender, uma capacidade que adultos perdem. Quanto mais velhos ficamos, menos conseguimos aprender. O senhor conhece aquele ditado popular que “não se consegue ensinar novos truques a um cachorro velho”.

Mortimer Adler: Eu temo que você esteja certo, Lloyd. Isso é o que as pessoas pensam. E eu acho que o que devemos ver a respeito disso é se conseguimos mudar essa concepção, e essa impressão. Talvez você não consiga ensinar novos truque a um cachorro velho, mas seres humanos não são cachorros velhos, e o aprendizado humano não consiste em adquirir novos truques.

Eu acho que a fonte do erro está na confusão fundamental que muitas pessoas fazem entre o crescimento corporal e o crescimento mental. Não há dúvida que nossos corpos crescem muito rapidamente quando somos jovens e que nós paramos de crescer quando chegamos à idade de 16 ou 18 anos. Mas a mente que não é afetada pela senilidade patológica nunca perde sua capacidade de se desenvolver. Ela mantém seu poder de crescimento desde que seu corpo se mantenha saudável.

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Crianças aprendem habilidades; Adultos apreendem sabedoria

A maioria dos grandes educadores reconhece isso, e certamente todos os professores deveriam saber disso, apesar de que alguns infelizmente não sabem. Por exemplo, se eu fosse tirar Platão da prateleira, e examinar a passagem em A República na qual ele trata dos benefícios da educação humana, nos veríamos que ele pensa que a consideração das ideias fundamentas só deve começar quando o homem tem 45 anos. O estudo das ideias e a aquisição da sabedoria são adiados até a outra metade da vida, até quase os 50 anos.

Em apresentações, o filósofo Olavo de Carvalho elucidou: existem matemáticos prodígios; não existem filósofos prodígios. A matemática demanda edificar construções intelectuais que dependem apenas dos próprios  pensamentos do matemático; a filosofia é arquitetada pelo acúmulo de experiências de vida, as quais envolvem conflitos internos e externos ao próprio filósofo. Nota 01.

Ou se fôssemos até ética de Aristóteles, veríamos que Aristóteles diz que os assuntos morais, éticos e políticos não devem ser ensinados aos jovens porque eles não têm experiência, estabilidade emocional, ou essa seriedade profunda, sem as quais tais assuntos não podem ser compreendidos.

Deixe-me falar brevemente da minha própria experiência como professor. Eu sempre achei fácil ensinar matérias abstratas e teóricas aos jovens na faculdade. É muito mais difícil ensinar filosofia moral, lidar com questões morais e políticas. É muito difícil, por exemplo, ler grandes romances e peças com jovens, romances e peças que tratam dos problemas mais sérios da vida. Eu já li e discuti romances e peças com jovens na faculdade e com adultos, e a diferença é como entre o dia e a noite.

Deixe-me dar mais uma evidência. Quando eu saí da faculdade, tinha certeza que compreendia alguns dos grandes livros que eu tive a sorte de ler naquela época. Mas eu tive ainda mais sorte na minha carreira de professor de reler muitas vezes alguns desses livros. E eu sei que eu não os entendi muito bem há dez anos. Não é que eu seja mais experto agora; eu simplesmente estou mais velho. Essa não foi sua experiência também, Lloyd, como professor?

Extraído do livro: Como pensar sobre as grandes ideias.
Autor: Mortimer Jerome Adler (1902 – 2001).
Publicado por É Realizações, sob ISBN: 978-85-8033-151-7.

Em complemento, faça um liame entre esta postagem e as artes liberais da lógica, gramática e retórica, assistindo ao lançamento do livro “O Trivium“:

Demais assuntos abordados na obra que originou esta postagem:

  1. Como pensar sobre a verdade
  2. Como pensar sobre opinião
  3. A diferença entre conhecimento e opinião
  4. Opinião e liberdade humana
  5. Opinião e a regra da maioria
  6. Como pensar sobre o homem
  7. Quão diferentes são os seres humanos?
  8. A teoria Darwinista da origem do homem
  9. A resposta de Darwin
  10. A singularidade do homem
  11. Como pensar sobre emoção
  12. Como pensar sobre amor
  13. Amor como amizade: um mundo sem sexo
  14. Amor sexual
  15. A moralidade do amor
  16. Como pensar sobre bem e mal
  17. Como pensar sobre beleza
  18. Como pensar sobre liberdade
  19. Como pensar sobre aprendizado
  20. A juventude é uma barreira para o aprendizado
  21. Como ler um livro
  22. Como conversar
  23. Como assistir à TV
  24. Como pensar sobre arte
  25. Os tipos de artes
  26. As belas-artes
  27. A bondade da arte
  28. Como pensar sobre justiça
  29. Como pensar sobre punição
  30. Como pensar sobre linguagem
  31. Como pensar sobre trabalho,
  32. Trabalho, divisão e lazer
  33. A dignidade de todos os tipos de trabalho
  34. Trabalho e lazer ontem e hoje
  35. Trabalho, lazer e educação liberal
  36. Como pensar sobre a lei
  37. Os tipos de lei
  38. A criação das leis
  39. A justiça da Lei
  40. Como pensar sobre o governo
  41. A natureza do governo
  42. Os poderes do governo
  43. A melhor forma de governo
  44. Como pensar sobre democracia
  45. Como pensar sobre mudança
  46. Como pensar sobre progresso
  47. Como pensar sobre guerra e paz
  48. Como pensar sobre filosofia
  49. Como a filosofia difere da ciência e da religião
  50. Os problemas não resolvidos da filosofia
  51. Como a filosofia pode progredir?
  52. Como pensar sobre Deus?

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