Fatos nada significam


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Esta postagem contém um excerto da obra: “A produção de informações estratégicas”, escrita por Washington Platt. O livro foi recomendado pelo filósofo Olavo de Carvalho durante uma de suas aulas. No entanto, qualquer um que leia os poucos parágrafos subsequentes, notará a grande importância da obra.

Um famoso mestre de Oxford costumava proclamar, com frequência, em suas palestras: “Evidentemente, os fatos nada significam”. Conta um de seus melhores alunos que só vinte anos depois compreendeu o que realmente o professor queria dizer.

Acho perigoso citar a afirmativa do professor, oralmente, numa conferência. O auditório, com justa razão, reage no meio minuto que antecede à explicação do verdadeiro sentido da expressão. Certamente, o professor jamais esperou ser interpretado ao pé da letra.

O que realmente afirmava era: “Um fato, surpreendentemente, significa muito pouco, a não ser relacionado com outros fatos, ou posto em destaque o seu significado”.

A importância prática de tudo isto, para quem trabalha na produção de informações, pode ser compreendida por um exemplo simples, relativo ao potencial humano científico e de engenharia. (Todos os fatos apresentados podem considerar-se exatos. Para simplificar o problema, consideramos apenas a quantidade, excluindo questões relativas à qualidade).

Um fato: em 1953, formaram-se 40.000 engenheiros nas faculdades soviéticas.

Em primeiro lugar, o autor do documento que contém este fato sente um pequeno calafrio ante sua capacidade de afirmá-lo. Tem todo o direito de orgulhar se, desde que seu trabalho não pare aí.

O leitor, por sua vez, sofre a tentação de aceitar o dado e julgar-se satisfeito. Afinal, já sabe algo positivo sobre as possibilidades soviéticas quanto a engenheiros. Mas teria o leitor, realmente, aprendido algo importante? A menos que seja um dos poucos peritos existentes em potencial humano de engenheiros, o número apresentado nada representará, honestamente, para ele. Quarenta mil engenheiros é uma boa quantidade, mas a URSS é a maior nação do mundo. Existem engenheiros suficientes para as atuais necessidades soviéticas?

Assim que o autor acrescenta “em 1947, os soviéticos formaram 15.000 engenheiros e, em 1950, 28.000”, o número 40.000, para 1953, começa a ter significado. Quando acrescenta, mais, que em 1947, 50 e 53 os Estados Unidos formaram 21.000, 52.000 e 57.000, respectivamente, a situação parece iluminada por um farol forte. O quadro pode, então, tornar-se mais compreensível através de um gráfico banal.

Já agora podemos perceber como o simples dado de 40.000 engenheiros em 1953 pouco significa. Certamente, concordaríamos com a afirmativa do professor de Oxford, modificada para o seguinte: “Um único fato, isolado, quase nada significa.”

Ensinamento colhido, até aqui, pelo analista: raramente contentar-se com enunciar um fato. Deve oferecer fatos correlatos, propiciando a comparação. Com isto, sua produção irradiará o verdadeiro significado.

Um dos motivos por que não se acrescentam, habitualmente, fatos correlatos é que isso exige muito maior volume de trabalho. Outro motivo é a necessidade de maior nível de compreensão de parte do produtor. A compreensão disto destrói a velha tolerância de autores e leitores para com a produção de fatos isolados, porém multiplica muitas vezes o valor real de qualquer Informação.

Indagações mais profundas

Este artigo é composto por um excerto da obra: “A produção de informações estratégicas”, escrita por Washington Platt. Para baixá-la em formato PDF, clique aqui.

Um segundo aspecto surge quando nos aprofundamos um pouco mais no assunto. Aquilo que o leitor provavelmente deseja, ou precisa, saber sobre a quantidade de engenheiros soviéticos inclui algumas das indagações seguintes: o número de engenheiros que se diplomam, anualmente, está aumentando, mantém-se substancialmente o mesmo, ou diminui? Lenta ou rapidamente? Que se conclui da comparação destes dados com os dados relativos aos Estados Unidos?

Considerando o número de engenheiros disponíveis para cada um dos seguintes tipos de trabalho: (a) construção de represas, canais, rodovias, ferrovias, pontes, fábricas e equipamento industrial e militar; (b) operação de equipamento de engenharia; (c) pesquisa e desenvolvimento; (d) ensino e administração, respectivamente, indaga-se: enfrenta a URSS uma séria deficiência de engenheiros, o que restringe, marcadamente, suas possibilidades, ou conta com número quase suficiente, ou com excesso de engenheiros? Sob este aspecto, que se conclui da comparação com os Estados Unidos, ou com outro país qualquer, por exemplo, a Alemanha?

Ao comparar a disponibilidade de engenheiros na União Soviética com a dos Estados Unidos, que importância atribuir ao fato de que a economia da URSS atravessa uma fase de desenvolvimento acelerado, passando da condição de atrasada para a de moderna? Os soviéticos precisam construir muito mais ferrovias, canais, represas e pontes do que os americanos. Para a comparação tornar-se válida, que importância deve ser atribuída ao fato de os engenheiros americanos, individualmente, apresentarem um rendimento de trabalho consideravelmente maior do que os soviéticos?

As indagações mais sutis, capazes de exigir providências ou formulação política, são: de que modo a quantidade de engenheiros afeta as possibilidades da União Soviética de apoiar, respectivamente, a sua indústria, a construção de instalações militares, as operações, a pesquisa e o ensino, agora e em futuro próximo? Que comparação pode ser feita com os Estados Unidos, agora e em futuro próximo?

Examinando tais indagações mais profundas e significativas verificamos que fatos, apenas, nunca revelam o que precisamos saber para adotar uma providência, ou formular política. Diz Morison (1), na página 294: “Não creia no argumento capcioso de que os fatos falam por si mesmos … Despeje toda a sua coleção de fatos sobre o papel e o resultado será ilegível, quando não incompreensível”.

Precisamos de uma compreensão real da relatividade das condições econômicas e sociais nos dois países. É preciso adotar um critério de comparação. Estamos desbravando terreno virgem. Respostas concretas só podem ser obtidas por uma pesquisa mais ampla de economia e outros assuntos.

Via de regra, tais pesquisas básicas em campos inexplorados são melhor realizadas como projeto à parte, por peritos em economia, demografia, sociologia, ciência natural ou outro campo do conhecimento humano. A produção de informações exige o que há de melhor, obtido através da combinação do conhecimento aprimorado de uma pessoa de projeção no campo das ciências naturais ou sociais, com a experiência e o bom senso de um oficial de informações profissionalmente competente. Um dos problemas funda mentais em Informações Estratégicas é produzir-se um perfeito tecido com os conhecimentos provenientes das duas fontes – a trama e a urdidura do Capítulo I.

Extraído da obra: “A produção de informações estratégicas”,
escrita por Washington Platt.

Nota:

  1. Morison, S. E., Admiral of the ocean sea: a life of Christopher Columbus, Boston, LittIe, Brown, 1942.

Em complemento, assista aula ministrada por Olavo de Carvalho e dirigida ao profissionais do jornalismo:


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