Loucura e Sociedade


A sociedade é produto de nossos desejos; o governo é produto de nossas maldades.”,
Thomas Paine (1737 – 1809): político britânico

Todas as manhãs, às 6 horas, alcóolicos, viciados e doentes mentais moradores de San Donato Val di Comino, na Itália, levantam-se de suas casas e reúnem-se – às vezes juntos, mas normalmente sozinhos – nos cafés ao redor da praça principal da cidade. Alguns dos alcóolicos mais calejados pedem um café expresso com uma dose de bebida destilada, e então montam em caminhões rumo a fazendas e canteiros de obra. Os mentalmente enfermos – que sofrem principalmente de depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia – pedem xícaras de café ou sentam-se às mesas da esplanada de mãos vazias, um sinal de que não possuem mais dinheiro para o mês.

Meu pai nasceu neste vilarejo, onde, ao longo de duas décadas, observei esse ritual de início da manhã durante as férias de família, mas desta vez ele me impactou de um modo diferente. Durante os últimos 18 meses, relatei sobre pessoas desabrigadas, vício e transtorno mental em cidades americanas e passei muitas horas com os moradores mais vulneráveis da América, que, aparentemente, lutam contra as mesmas aflições que os moradores daqui de San Donato.

Na verdade, o contraste é enorme. Nas cidades da Costa Oeste, dezenas de milhares de viciados e doentes mentais moram nas ruas em condições terríveis, e sobrevivem graças a uma combinação de mendicância, prostituição e crimes patrimoniais, os quais, por sua vez, criam desordem nas ruas da cidade. Porém, não é assim aqui em San Donato. Aqui, viciados e doentes mentais são profundamente integrados na comunidade e mantêm um padrão de vida digno. Suas famílias e parentes cuidam deles e permanecem envolvidos em suas vidas. Quando necessário, o governo municipal fornece empregos, esvaziando as ruas, e, às vezes, negócios locais pagam deficientes mentais para trabalharem como lo spanno, uma ocupação informal que envolve andar pelas ruas com um alto-falante anunciando os novos produtos disponíveis no mercado da cidadezinha. A comunidade cumpre um papel em ajudar os mais vulneráveis, não através de imposições ou programas sociais oficiais, mas através dos valores de assistência e responsabilidade comunitária.

Em San Donato, um homem encontrado dormindo nas ruas seria um escândalo moral. O vilarejo constrangeria a família do homem sem-teto para que ela providenciasse a ele apoio financeiro, prático e psicológico. O motivo pelo qual ninguém dorme nas ruas por aqui não é médico ou técnico, é cultural. Apesar da enorme mudança econômica e social do último século, os italianos preservaram uma cultura familiar e de responsabilidade que reduz severamente a manifestação de comportamento patológico e impõe um padrão de dignidade que incentiva viciados e doentes mentais a participarem da sociedade a despeito de suas condições.

Para saber mais leia: “A probreza das nações”, uma obra escrita por Wayne Grudem e Barry Asmus. Publicada pela Editora Vida Nova, sob ISBN 978-8527505987.

É verdade que um pequeno vilarejo como San Donato não pode ser comparado a um ambiente urbano como São Francisco, mas a desordem e devastação sociais nas pequenas cidades da América é possivelmente pior do que em suas cidades maiores. A diferença não é apenas uma questão de escala. Alguns poderiam dizer que maiores impostos e programas de bem-estar social mais generosos impedem que os italianos caiam no desabrigo e no desespero – mas, na verdade, a América gasta mais recursos per capita em serviços sociais do que a Itália, com piores resultados.

As receitas políticas predominantes para o enfrentamento do vício e distúrbio mental nos Estados Unidos incluem a profissionalização, medicalização [1] e desestigmatização. Apesar da crescente evidência de fracasso durante a última metade do século passado, nós continuamos a aumentar os programas sociais, a tratar o vício como doença e a desestigmatizar desde o consumo de heroína a acampamentos sem-teto. Porém, a América está mais viciada, mais desesperada e mais desordenada do que nunca. Administradores públicos e acadêmicos tratam a sugestão de que a família e os costumes culturais são a chave para resolver a crise de vício e desabrigo como ingênua ou até imoral. Mas o exemplo de San Donato nos mostra que as sociedades tradicionais possuem uma melhor compreensão dos problemas sociais, ao reconhecerem que perspectivas culturais possuem um papel fundamental em refrear as tendências humanas mais destrutivas.

Muitos anos atrás, um amigo referiu-se a San Donato como um manicomio all’aperto – um manicômio a céu aberto. Ele apreendeu a verdade poética de que todos nós nos enquadramos em alguma categoria do espectro da irracionalidade humana, e que uma boa sociedade integra os sãos e os loucos em suas instituições culturais comuns. Ainda que uma cultura tradicional de constrangimento exista em San Donato, os moradores demostram compaixão pelos viciados e doentes mentais – efetivamente vivendo com eles e cuidando deles – ao mesmo tempo em que permanecem intolerantes com o comportamento patológico aceito pelos progressistas americanos.

A lição para os americanos é que a cultura importa. Se quisermos pôr fim à destruição da vida humana pela dependência química, doença mental, desabrigo e violência, temos que repensar nossas possibilidades culturais e morais, e buscar restabelecer vínculos familiares e comunitários que podem impedir que os mais vulneráveis caiam no abismo. Nenhum médico, pílula ou política pública pode substituir uma sociedade verdadeiramente solidária – que ama os loucos e os viciados, mas os impede de prejudicarem-se a si mesmos e a seus vizinhos.

Escrito por Christopher Rufo. Traduzido por Victor Terra.

Artigo original publicado na revista City Journal, disponível em:
www.city-journal.org/san-donato-mental-illness-addiction.

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Sobre o autor:

Christopher Rufo é editor colaborador da City Journal, documentarista e pesquisador do Center on Wealth, Poverty & Morality do Discovery Institute.

É diretor executivo da Documentary Foundation, organização dedicada à produção e distribuição de documentários sobre a experiência americana.

Nota:

  1. N. T.: medicalization – [Medicina Social] Tendência equivocada, frequentemente perpetuada por profissionais da saúde, a ver os efeitos da desvantagem socioeconômica como questões puramente médicas (McGraw-Hill Concise Dictionary of Modern Medicine. © 2002 by The McGraw-Hill Companies, Inc.).

Leituras recomendadas:

Em complemento, assista ao vídeo no qual Olavo de Carvalho comenta sobre os três pilares fundamentais de uma sociedade:

Leia também:

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Cristina G. F. Mendes
Cristina G. F. Mendes
8 meses atrás

O conteúdo deste site é ótimo e de grande importância! Descobri ele pelo Google só tem duas semanas e já li tudo, agora vou reler e pedir que vocês prossigam com este grande trabalho.

Conservador do Bom Senso
Conservador do Bom Senso
8 meses atrás

Conteúdo ímpar. Muito bom.

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